Poucas coisas são mais irritantes do que ter que reconhecer a própria responsabilidade sobre um infortúnio que nos atinge. Porém, não há do que reclamar: quando sabíamos ou podíamos prever razoavelmente que um curso de ação ou uma omissão poderiam trazer más conseqüências, os maiores responsáveis pelo que nos acontece somos nós mesmos.
De nada me adianta reclamar que a fonte novinha em folha do meu notebook queimou e me deixou uma semana sem acesso à internet. Eu sabia que aquela porcaria era Made in China, sinônimo de lixo de qualidade, e mesmo assim não comprei uma de reserva nem mandei consertar a anterior… que também era Made in China. Quando ela queimou após míseros 40 dias de uso, tive que me conformar de que eu e somente eu era o culpado por não poder acessar meu próprio blog.
Percorri umas seis diferentes lojas em busca de uma fonte que não fosse Made in China. Como diria o Padre Quevedo, isso non ecziste. As grandes corporações capitalistas, em conluio com os governos dos países democráticos, cada dia mais transferem suas fábricas para um país onde não existem garantias trabalhistas, nem direito de confrontar as políticas do governo, existindo inúmeras denúncias de trabalho escravo, das quais nosso governo está plenamente ciente:
Trabalho escravo na China
As atividades econômicas que mais utilizam mão de obra forçada são a indústria de tijolos, as minas de carvão e a construção civil. A legislação do país não reconhece homens como vítimas de tráfico ou adultos como vítimas de trabalho escravo na China. Além disso, a política de limitação da natalidade, juntamente com a preferência cultural por filhos homens, contribui para levar mulheres e crianças ao casamento forçado, o que as deixa vulneráveis à servidão doméstica ou à exploração sexual. Há evidências de trabalho infantil forçado em fábricas e fazendas, sob pretexto de formação profissional. A extensão do trabalho escravo na China não é clara, em parte porque o governo limita a divulgação de informações.
Fonte: jornal do Senado brasileiro.
Em um mundo competitivo e “amoral”, como se amoralidade pudesse existir na economia, a escolha que sobra para o fabricante honesto é transferir também suas fábricas para a China ou fechar suas portas – porque o consumidor não se importa nem se o badulaque de quinta categoria que está adquirindo vai estragar depois do terceiro uso, nem se foi construído com o sangue de outro ser humano, só se importa em pagar mais barato a curto prazo.
O barato a curto prazo, entretanto, costuma sair caro a longo prazo. A China não vai dominar o mundo por causa dos preços baixos de suas mercadorias, ela o fará por causa da imoralidade das corporações, dos governos e dos consumidores ocidentais, que não se importam em explorar trabalho escravo. Afinal, que importa se o desgraçado que produz os badulaques trabalha sob condições desumanas, desde que ele esteja bem escondido (embaixo do tapete) em uma terra distante, por trás de uma de quase intransponível barreira lingüística e do bloqueio das comunicações?
Não é difícil prever o que acontecerá no médio prazo.
As indústrias que se mudarem para a China forçarão seus concorrentes a também se mudarem para a China, pois os governos de seus países não impõem restrições de importação aos produtos fabricados com sangue humano. Segundo (uma cambada de canalhas) respeitáveis economistas e ideólogos da “liberdade”, isso seria “uma intolerável intervenção na economia de livre mercado”. Portanto, será mantida ainda por um longo prazo a tendência de transferir os parques fabris das mais importantes indústrias para a terra do capitalismo escravocrata.
Com a migração dos parques fabris, os trabalhadores do mundo ocidental serão pressionados a reduzir suas exigências salariais, previdenciárias e de condições de trabalho “para se tornarem competitivos”. Os profissionais de nível superior melhor qualificados vão procurar vagas no mercado internacional, que não poderá oferecer colocações a todos e sofrerá redução salarial devido ao excesso de oferta de mão-de-obra, enquanto o populacho há de ser posto a pastar dentro das fronteiras nacionais mesmo, sendo temporariamente mantido contente com programas de esmola governamental, como o bolsa-família. Enquanto isso, as bases da economia do mundo ocidental vão se corroendo.
Os mais ricos, é clado, nunca são atingidos. Mas quando finalmente se exaurir a capacidade das classes médias de serem sugadas pelos impostos para sustentar a grande massa de miseráveis desempregados ou sub-empregados, a crise social e econômica que já vimos atingir a Grécia se espalhará pelo mundo ocidental. Medidas desesperadas, tornadas necessárias em função da atual imprevidência, serão chamadas de “austeridade econômica”. A insatisfação popular será contida nas ruas com balas de borracha e bombas de efeito moral.
Ninguém assumirá a responsabilidade de ter causado a crise com sua própria negligência em atuar politicamente exigindo a condução da economia com base em critérios “piegas” como decência e solidariedade.
E eu estarei aqui perguntando: valeu a pena comprar badulaque barato?
Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 26/01/2012



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