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Por que as reportagens sobre a maconha são tão tendenciosas? (Parte 1)

Se a sua vovozinha lhe disser que “melancia de manhã é ouro, de tarde é prata e de noite mata”, você poderá acreditar nela durante toda sua infância, mas sua opinião sobre ela sofrerá um imenso abalo na adolescência, quando você assistir um amigo comer melancia à noite sem que isso faça qualquer mal a ele.

Depois de descobrir que nem sempre as pessoas que dizem querer o seu bem estão certas, você provavelmente se tornará cético em relação a outras afirmações supostamente dedicadas a protegê-lo. Por mais que sua vovozinha se descabele em pregações e alertas, um dia alguém vai lhe oferecer melancia à noite, ou leite com manga.

Por que raios os educadores, os médicos, a imprensa e outros formadores de opinião cometem o mesmo erro estúpido que a sua vovozinha supersticiosa? Será que eles não sabem que na adolescência todo mundo vai conhecer um amigo que fuma maconha sem ter nenhum dos terríveis sintomas ou efeitos colaterais que eles alardeiam?

Depois de descobrir que nem sempre as pessoas que dizem querer o seu bem estão certas, você provavelmente se tornará cético em relação a outras afirmações supostamente dedicadas a protegê-lo. Por mais que os educadores, os médicos, a imprensa e outros formadores de opinião se descabele em pregações e alertas, um dia alguém vai lhe oferecer maconha, ou algo mais forte.

Eu só posso concluir que todos estes especialistas de araque estejam pensando muito mais em surfar a onda da popularidade dizendo o que a maioria quer ouvir. Agindo assim eles estão reforçando preconceitos e espalhando desinformação, o que trará muito mais prejuízo que benefício para o público que supostamente pretendem proteger.

Estudo de caso: uma reportagem do Kzuka intitulada “Maconha faz mal, sim!”

(Quem quiser conferir a reportagem alvo deste artigo clique aqui. Cada trecho da reportagem original aparece abaixo destacado dentro de um quadro.)

“Tem uma galera que diz que maconha é natural. Pois esse pessoal está mal informado”

Esse pessoal não está mal informado. O preparo adequado da maconha para uso recreativo não leva nenhum aditivo químico. O processo inclui tão somente atividades mecânicas como colheita, separação das partes da planta adequadas para fumar, trituração e prensagem. Portanto, a maconha adequadamente preparada é natural mesmo.

As falácias associadas ao argumento de que maconha é ou não é natural abundam nos dois lados do debate. “Natural” não significa nem que faça bem, nem que faça mal. Assim como “artificial” também não. Laranjas e toxina botulínica são naturais. Vacinas e DDT são artificiais. Nenhum dos dois rótulos pode ser associado com “bom” ou “mau”.

“Experimente falar mal da maconha perto de quem fuma. Prepare-se para ouvir um sermão e uma série de informações das quais muitas não são verdadeiras.”

Depois experimente falar mal da maconha perto de quem não fuma e quer decidir a vida dos outros. Prepare-se para ouvir um sermão e uma série de informações das quais muitas não são verdadeiras. Pelo menos quem fuma não quer obrigar os que não fumam a fumar. Mas quem não fuma quer obrigar os que fumam a não fumar, o que mostra claramente de que lado está a intolerância.

“Quem fuma não admite que a droga faz mal nem que causa dependência.”

Aqui temos dois problemas em uma frase só.

Primeiro que simplesmente não é verdade que quem fuma não admita que a maconha faça mal, isso é uma generalização grosseira que nem de longe representa o pensamento da maioria dos usuários.

Segundo que a acusação de que a maconha causaria dependência é negada veementemente pela maioria absoluta dos usuários, que não sentem qualquer sintoma de abstinência. Se houver algum usuário que desenvolva realmente dependência de maconha, esta com certeza é muito mais branda que a dependência causada pelo cafezinho, pelo chocolate e pelos refrigerantes, os quais contém cafeína, uma droga com comprovada capacidade de viciar e cuja síndrome de abstinência provoca fadiga, depressão e dores de cabeça. Se a dependência química é o problema, por uma questão de prioridade, as substâncias que precisam ser primeiro banidas do mercado são o café, o chocolate e os refrigerantes.

“No dia 8 de maio, publicamos uma reportagem sobre o crack, falando que a maconha é porta de entrada para drogas mais pesadas. Muitos internautas discordaram e afirmaram que fumam maconha e que “não dá nada”. Recebemos depoimentos do tipo “fumo há oito anos e não sou dependente.” Alooou? OITO anos?

Sim, este usuário informou que fuma Cannabis há oito anos e não é dependente. Não tem nada de “alooou”, porque tempo de uso não implica dependência. Aliás, isso é tão óbvio que é ridículo ter que explicar, mas vamos lá.

Primeiro é necessário saber o que é dependência química:

Dependência Química

André Malbergier

A dependência química é uma síndrome caracterizada pela perda do controle do uso de determinada substância psicoativa. Os agentes psicoativos atuam sobre o sistema nervoso central, provocando sintomas psíquicos e estimulando o consumo repetido dessa substância. Alguns exemplos são o álcool, as drogas ilícitas e a nicotina.
Considerada uma doença, a dependência química apresenta os seguintes sintomas:
• Tolerância: necessidade de aumento da dose para se obter o mesmo efeito;
• Crises de abstinência: ansiedade, irritabilidade, insônia ou tremor quando a dosagem é reduzida ou o consumo é suspenso;
• Ingestão em maiores quantidades ou por maior período do que o desejado pelo indivíduo;
• Desejo persistente ou tentativas fracassadas de diminuir ou controlar o uso da substância;
• Perda de boa parte do tempo com atividades para obtenção e consumo da substância ou recuperação de seus efeitos;
• Negligência com relação a atividades sociais, ocupacionais e recreativas em benefício da droga;
• Persistência na utilização da substância, apesar de problemas físicos e/ou psíquicos decorrentes do uso.”

(Fonte: Laboratório de Neurociências da USP.)

Depois temos que analisar se o usuário pode ser considerado dependente em função da informação apresentada. Qual foi a informação? Foi o tempo de uso. Isso não faz parte dos critérios que permitem identificar a dependência química.

O usuário que relatou que fuma Cannabis há oito anos só poderia ser considerado um dependente químico se precisasse de doses maiores para obter o efeito, se tivesse crises na ausência da substância, se quisesse controlar o uso sem conseguir, se o uso da substância interferisse em outros aspectos de sua vida ou se ele insistisse em utilizar a substância apesar de sofrer problemas causados por ela. Nada disso é relatado, portanto a insinuação é descabida.

O fato de usar por oito anos é absolutamente irrelevante, tanto quanto beber suco de laranja por oitenta anos não torna alguém dependente químico de laranjada.

“O maconheiro pode até perceber efeitos como declínio nas notas na escola ou falta de concentração em certas atividades, mas o usuário associa essas consequências a qualquer outra coisa, menos à droga. Quem afirma é o psiquiatra Sérgio de Paula Ramos, coordenador da Unidade de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus, na Capital, e membro do Comitê Assessor para Políticas sobre Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde.”

“− O paciente diz que não gosta de estudar, que é uma fase, que ele é assim mesmo, mas jamais admite que pode estar sendo prejudicado pela maconha − diz.”

E, por outro lado, os “especialistas” em drogas associam essas conseqüências somente às drogas, mas jamais a qualquer outra coisa. Por exemplo, ao fato de haver gente que não gosta mesmo de estudar. Ou ao fato de o usuário estar mesmo passando apenas por uma fase. Ou ao fato de ter se desinteressado porque não vê utilidade alguma em decorar o nome dos reis da Europa da Idade Média, em calcular o determinante de uma matriz de terceira ordem ou decorar a função das mitocôndrias e o diagrama de configuração eletrônica de Linus Pauling, entre outros assuntos “importantíssimos” para o exercício da cidadania, a elevação da qualidade de vida e o desenvolvimento de uma espiritualidade sadia.

“Você certamente conhece um jovem assim: usuário de maconha e que defende com unhas e dentes o uso da droga. Ele pode até estar indo bem nos estudos e não ter problemas aparentes, mas, pergunte pra quem é mais próximo dele se seu comportamento é o ideal.”

Sim, depois pergunte para quem é mais próximo de qualquer jovem na face da terra se seu comportamento “é o ideal”. Então você vai descobrir que este “argumento” é uma imensa falácia, pois desde que o mundo é mundo jamais houve alguém que pudesse ser apontado como tendo “comportamento ideal” o tempo todo.

“Questione seu amigo sobre que outras conquistas ele poderia ter hoje se não fosse a droga.”

Esse é o pior conselho que eu já vi um psiquiatra oferecer a um jovem em risco de abuso de drogas. Isso porque na maioria absoluta dos casos o amigo vai responder que a droga não está atrapalhando sua vida em nada. Se o amigo já estivesse tendo problemas sensíveis com o abuso de drogas, dificilmente o jovem não perceberia.

“O psiquiatra Ramos conta que, quando pergunta para um alcoolista ou para um dependente de qualquer outra droga que não seja maconha se ele quer parar, a resposta costuma ser sim. Com o maconheiro é diferente.”

“− Ele é o único que não quer parar, parece mesmo ser uma religião… − lamenta o médico.”

Ora, a resposta para isso está nas próprias palavras do psiquiatra! O alcoolista e o toxicômano em geral quer parar porque o álcool ou a droga que ele usa já afetou suas relações sociais e sua saúde de modo tão drástico que sua situação se tornou insustentável. Se o usuário de Cannabis em não quer parar é porque ele não sente necessidade de parar. E não existe violência maior contra um ser humano do que impingir-lhe sofrimento – seja na forma de ameaças, discriminações, violência ou perseguição legal – com o objetivo de forçá-lo a alterar um comportamento que ele quer manter e que não causa danos a terceiros.

“Por isso é tão difícil lutar contra a erva. Ela é vista como uma droga mais inocente, às vezes até por nossos pais.”

E por que raios se deveria “lutar contra a erva” nas situações em que o usuário declara que não deseja parar e não apresenta problemas de socialização nem dificuldades na organização de sua vida? Não se trata de considerar a droga inocente ou não, mas de respeitar os parâmetros técnicos anteriormente descritos, a vontade e o direito de autodeterminação do usuário.

A alternativa ao respeito à vontade e ao direito de autodeterminação do usuário é justificar a tutela de consciência do cidadão pelo Estado, o que caracteriza os regimes fascistas. Este é um risco que a sociedade não deveria estar disposta a correr sob nenhuma hipótese, muito menos por um motivo que se resume à esfera moral em todos os casos em que não seja possível provar que a droga traz significativos e incontornáveis impedimentos à autodeterminação do usuário.

“Mas Ramos alerta, a maconha de hoje não é mais a mesma da época dos hippies, “pode chegar a ser 50 vezes mais forte, consequência de modificações genéticas na planta”, o que significa maior poder para tornar o usuário dependente.”

Cinqüenta vezes? Será? Vamos fazer as contas: um bom baseado da época dos hippies, de tamanho médio, podia ser fumado por quatro a seis pessoas e fazia efeito em todas. Segundo a afirmação deste “especialista”, um único baseado de hoje poderia chapar duzentas a trezentas pessoas. Dito de outra maneira, um baseado de hoje poderia ser triturado, misturado em cinqüenta porções de palha e cada um destes cinqüenta novos baseados poderia chapar quatro a seis pessoas. Alguém acredita nisso?

A quantidade de THC contida nesta suposta supermaconha cinqüenta vezes mais potente que a da época dos hippies seria tão absolutamente grande que qualquer usuário passaria mal na primeira tragada. Um produto com tais características jamais encontraria mercado. A tal “maconha superaditivada” é absolutamente irreal.

“− Talvez a maconha seja uma das drogas que mais se usa em Porto Alegre e a que menos informação os jovens têm a respeito. Por isso há certa imagem de que é inofensiva − explica.”

A maconha não é a droga “a que menos informação os jovens têm a respeito”, muito antes pelo contrário. A maconha é a droga sobre a qual existe maior número de sites informativos e a que tem a maior base de usuários. O problema é a qualidade da informação que chega ao jovem, porque ele de fato não tem a menor liberdade de conversar abertamente sobre o tema.

Qual é o jovem que vai cair na besteira de confirmar que fuma Cannabis – ou sequer mostrar interesse no assunto – sabendo que quando terminar a conversa ele passará a ser tratado de modo diferente, sofrendo muito maior controle e restrições em sua liberdade?

O resultado é que o jovem fica limitado entre as informações evidentemente inverídicas dos “especialistas” e a constatação na prática que seus amigos usuários não sofrem dos males apregoados, sem que possa haver uma avaliação criteriosa dos riscos reais.

“Confere aqui verdades provadas por estudos científicos, ou seja, números que valem mais do que o blá blá blá de quem vive com os olhos vermelhos e a cabeça sabe-se lá onde…”
Marcela Donini

O toque final da reportagem é um ataque pessoal contra o usuário de Cannabis, que é desqualificado como interlocutor ao invés de ter seus argumentos analisados. Esse tipo de manobra é uma falácia de fuga ao assunto do tipo argumentum ad hominem – ou seja, é um recurso retórico antigo e bem documentado cujo propósito é envenenar a assistência contra qualquer tipo de argumentação em contrário. Isso indica claramente que a intenção da reportagem não é informar e sim impor um ponto de vista.

O resultado deste tipo de posicionamento não poderia ser outro: das 192 respostas postadas no momento em que fiz a conferência, 127 (66%) eram contrárias ao posicionamento da autora, 45 (23%) concordavam com a autora e 18 (9%) não tinham posicionamento identificável. (As duas que faltam pra fechar 192 eram mensagens extensas postadas em duas partes. Os percentuais foram arredondados, por isso não fecham exatos 100%.)

O público que compartilha do pensamento da autora foi predominantemente intolerante: das 45 respostas alinhadas com o pensamento da autora, 30 (66%) foram agressivas ou desrespeitosas contra os usuários ou contra os defensores da legalização e somente 15 (33%) foram pacíficas e respeitosas.

O público que discorda da autora atuou com muito maior civilidade: dos 127 que discordaram, 75 (59%) das respostas foram pacíficas e respeitosas, 31 (24%) jogaram pedras na reportagem e somente 11 (8%) foram agressivos ou desrespeitosos em relação ao público que pensa como a autora.

Finalmente, o conteúdo de vários depoimentos de usuários de Cannabis com amplo sucesso social, acadêmico, desportivo e financeiro, sem problemas de relacionamento nem de saúde, desmente fortemente a insinuação de que todo usuário de Cannabis “anda com a cabeça sabe lá onde”. Ficou bem claro que as informações passadas na reportagem são extremamente tendenciosas e não correspondem à realidade.

Na parte 2 farei uma avaliação das “verdades provadas por estudos científicos” segundo alegação da autora da reportagem aqui analisada.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 23/07/2009

Artigos Relacionados:

  1. As quatro terríveis verdades sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência (parte 1 de 4)
  2. As quatro terríveis verdades sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência (parte 3 de 4)
  3. As quatro terríveis verdades sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência (parte 4 de 4)
  4. As quatro terríveis verdades sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência (parte 2 de 4)
  5. Maconha não é porta de entrada para o crack

36 comments to Por que as reportagens sobre a maconha são tão tendenciosas? (Parte 1)

  • Juiz Nogueira

    Perfeito Arthur! Retratou a verdade nua e crua.
    Quem não conseguir enxergar é porque está cego pela ignorancia e preconceito.

    • Muito obrigado pela visita e pelo elogio, Juiz Nogueira. Pretendo continuar tentando lançar um pouco de luz sobre a ignorância e o preconceito com que geralmente este tema é tratado, como vimos claramente no caso da reportagem analisada. Espero contar com tua presença no blog e nesta luta pela divulgação de boa informação.

  • Cristiano Lopes

    Pessoal…

    To impressionado com a qualidade do debate – com raras exceções claro – com que se tem tratado este assunto. Fico feliz que o movimento a favor do bom debate esteja vencendo aos poucos esse descarado preconceito que insiste em permanecer sobre esse tema.

    solidário e militante da causa…

    abraços

    • Cristiano, que bom que apreciaste o debate. Eu também fico feliz com a participação de gente lúcida e interessada em desmascarar os preconceitos – e os interesses escusos – que cercam o debate sobre as drogas em geral. Confere o Pensar Não Dói de vez em quando porque novos artigos sobre o tema virão. Grande abraço!

  • marcos

    fume maconha e n~cigarro neoronhos vc tem milhoes mas pulmoes vc so tem dois.

  • anonimo

    O problema no Brasil ñ é se a maconha faz mal ou não, se quer fumar fume a vontade longe das outras pessoas, mas ela continua sendo um produto ilegal que alimenta o tráfico. Cada baseado que é fumado é mais $$ pros traficante. Se ela fosse legalizada, não haveria problema algum desde que respeitassem as pessoas que não fumam, mas a realidade hoje ainda é outra….

  • Henrique Vital

    Perfeito, já espalhei esse link pra diversas pessoas, que insistem em teimar e apontar “defeitos” da erva.

    Estou ansioso pela parte 2…vai rolar mesmo?
    Parabéns pela analise!

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