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Batalha entre duas generosidades

Hoje saiu republicado (*) na coluna da Martha Medeiros em Zero Hora um texto com o mesmo título deste artigo. Lá pelas tantas a colunista chama de “concessões” o que Tolstói chamou de “batalha de generosidades” e diz que “é tudo a mesma coisa”. Não, Martha. Esta é uma visão bastante pessimista, parecida com dizer que o copo está meio vazio ao invés de dizer que está cheio até a metade. Quem faz uma concessão está se reprimindo para não descontentar o outro. Quem age com generosidade fica contente em fazer o outro feliz. São duas posturas bem diferentes e com resultados bem diferentes.

Vamos à citação do original:

[Segundo Tolstói, este é] “o segredo que mantém tantos casais unidos: homens se sacrificam, mulheres se sacrificam, e fica mais tempo junto o casal que tiver o maior potencial de generosidade.

Parece, mas não é uma notícia alentadora. É literalmente bonito, daria uma boa novela das seis, mas, de minha parte, meu sonho não é um homem que sacrifique seus desejos em detrimento dos meus, e vice-versa. O que Tolstoi define elegantemente como uma “batalha entre duas generosidades”, nós, os mundanos, chamamos de “concessões”. Essa palavra mais sugere uma batalha jurídica do que de generosidade, mas é tudo a mesma coisa.” (Martha Medeiros)

Mais adiante Martha expõe sua própria fórmula de felicidade conjugal:

A felicidade conjugal só sobrevive quando os dois dão sua cota de sacrifício da forma menos dolorida possível. Ninguém morre se tiver que dançar um pouquinho ou se tiver que passar um final de semana no sítio, isso é cláusula previamente acertada e nem comporta a rigidez da palavra ’sacrifício’.” (Martha Medeiros)

Eu tenho uma visão mais otimista que a Martha, suponho que mais otimista até mesmo que Tolstói, porque é válida para todo tipo de relacionamento: fazer o outro feliz não é nenhum sacrifício, pelo contrário, é fonte de contentamento. Quando pessoas que gostam de fazer as outras felizes se relacionam entre si, o resultado é uma espiral crescente e infinita de contentamento e felicidade. Isso vale tanto para relacionamentos amorosos quanto para os outros relacionamentos com a família, com os amigos, com os colegas de trabalho, com os clientes, etc.

Se bem me lembro foi o Luciano Huck que contou a seguinte história:

Ele estava em um casamento católico, o noivo e a noiva ajoelhados em frente ao padre, quando este subitamente parou o que estava dizendo, apontou para o noivo e disse:

- Se você quiser ser feliz, não se case!

A temperatura na igreja caiu dez graus em um segundo. Silêncio absoluto. Estupefação geral. Então o padre apontou para a noiva e repetiu:

- Se você quiser ser feliz, não se case!

Aí começou um burburinho. Com um senso perfeito de oportunidade, um segundo antes de alguém quebrar a tensão do ambiente com algum comentário que provocaria o caos, o padre ergueu a voz e disse:

- Só se case… [Pausa dramática para prender a atenção de todos. Então, apontando para o noivo e para a noiva com os braços estendidos e cruzados:]

- … se você quiser fazer o outro feliz!

[Alívio geral. Sorrisos e suspiros. Lição absorvida e gravada a ferro e fogo na memória.]

Quando nós queremos que o outro nos faça feliz, e vice-versa, o relacionamento se torna uma batalha de cobranças. As negociações – necessárias em qualquer tipo de relacionamento – são focadas na busca da própria satisfação. Lutamos um contra o outro, num jogo de ganhar-perder. As concessões alimentam o ressentimento. A tensão tende a crescer com o passar do tempo. O relacionamento se torna uma troca de egoísmos mútuos com grande chance de naufrágio em caso de enfrentamento de uma adversidade.

Quando nós queremos fazer felizes as pessoas, e vice-versa, os relacionamentos se tornam uma “batalha de generosidades” como definido por Tolstói. As negociações são focadas na busca da maior satisfação de todos os envolvidos. Lutamos nós contra os problemas, num jogo de ganhar-ganhar. Os acordos alimentam o compromisso. A confiança tende a crescer com o passar do tempo. O relacionamento se torna um porto seguro perante as adversidades.

Viver uma “batalha de generosidades” não é nenhum sacrifício. Difícil mesmo é encontrar no mundo individualista de hoje quem cultive esta postura com sinceridade e profundidade em seu conjunto de valores.

(*) Na busca do Google por “Batalha entre duas generosidades” o primeiro resultado foi o blog Jlou Things, que informa que o original havia sido publicado no Jornal O Globo em 26/10/2008.

Quem gostou desse artigo também vai gostar deste aqui:

O segredo do sucesso nos relacionamentos

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