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Racismo: uma via de duas mãos

Estávamos no Orkut debatendo sobre racismo quando surgiram algumas alegações de que certas atitudes seriam válidas quando partissem de uma das raças em relação à outra, mas não no sentido contrário, em função dos antecedentes históricos. Uma lógica que pode ser descrita como “se ‘A’ tomar algo de ‘B’ é roubo, mas se ‘B’ tomar algo de ‘A’ é justo, porque outros ‘As’ tomaram algo de outros ‘Bs’ no século XIX“. E na orelhinha não vai nada?

Minha posição é muito bem definida: se a atitude “X” é considerada racismo quando aplicada pela raça “A” em relação à raça “B”, então necessariamente é também racismo se aplicada pela raça “B” em relação à raça “A”. Não há antecedente histórico que justifique um “racismo unilateral” nem um “racismo retributivo” – e o simples fato de procurar tal justificativa já é uma atitude racista.

Exemplo concreto: se é “bonito” um negro usar uma camiseta escrito “100% negro”, também é “bonito” um branco usar uma camiseta escrito “100% branco”. Alegar que o negro tem o direito de ter orgulho de sua raça em função de “antecedentes históricos” e negar este direito aos brancos é uma atitude racista e altamente discriminatória.

Vou contar uma história pessoal ocorrida há quase duas décadas, mas que ainda recordo como se tivesse ocorrido ontem: o dia em que percebi que o racismo é uma via de duas mãos.

Um amigo negro me convidou para uma festa. Quando cheguei lá, percebi que eu era o único branco entre mais de trezentos negros. Alguns perguntavam “quem é esse cara?” e vários me encaravam de alto a baixo sem dizer nada. O clima ficava tenso quando eu passava, e meu amigo tanto percebeu isso que me abraçou e andou abraçado em mim até chegarmos ao bar, para que todos percebessem que eu estava ali a convite dele.

No bar ele me apresentou a duas meninas e ficamos conversando os quatro. Ele logo saiu para dançar com uma delas, e a outra começou a olhar em volta, visivelmente descofortável, apesar de o papo estar animado até então. Questionei o motivo diretamente e ela respondeu sinceramente: estava queimando o filme conversando sozinha com um branco.

Se isso não é racismo, então o que é?

Postado originalmente no Orkut em setembro de 2007.

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9 comments to Racismo: uma via de duas mãos

  • Alex adora fazer polêmica, é muita falta de humildade e do que falar.

    As pessoas tem que pensar mais, [i]só isso[/i]. Maluquice a quantidade de preconceitos no mundo… Acho que Hitler já provou que não é uma coisa muito legal, conflito social.
    E que a Índia também está mostrando como investimento em educação trás benefícios para o país e gera pessoas mais capazes e com menos preconceitos.

    Aiai…

    Mas quem sou eu pra falar qualquer coisa né!

  • Ana

    não foi Marido da Ana, foi a Ana mesmo.

    • O Alex vê o conflito como uma força motriz da democracia. O problema é que isso torna a vida das pessoas um inferno. Existem estratégias menos danosas de promover agitação democrática.

  • Caro Arthur! O racismo não existe! O que existe é o idiota de qualquer raça! O DNA é o mesmo, há 4 milhões de anos, com desprezíveis variações entre os primatas, desde antes do homem ser Homo. Se alguém acredita em Darwin já deu para perceber que na origem nós e o pé de alface só somos diferentes em quem come quem!

  • Sobhi

    racismo faz parte. Enquanto existir os diferenciais (e sempre existirão) irá existir, talvez seja um problema psicológico de aceitação ou baixa auto-estima por partes dos idiotas que são racistas, assim tentam subjulgar o diferente. E nao é o desconhecido, é o diferente mesmo, nós vemos que mesmo com a globalização ainda temos racismo, misturou tudo e continuamos tendo os atos racistas, as próprias raças, tribos têm preconceitos e fazem questão de se formarem “puras” com nenhuma interferência externa de pessoas diferentes.

  • Lilith

    Caro Arthur,te admiro muito.Mas em algumas coisas, por conta da minha história pessoal,não posso concordar contigo.
    Tua opinião é a de uma pessoa que nunca conviveu com o racismo.
    Eu conheço essa mancha de perto.
    Dói muito quando vemos quem amamos ser,cruelmente,discriminado.
    Nossa sociedade,que não é racista, é muito cruel.
    Ser negro no Brasil,é uma barra.Especialmente no sul e nordeste,lugares que conheço bem.
    Eu que tenho sangue índio e fisionomia de europeu,sei o quanto pesa ser diferente.
    Muita gente fica revoltada porque assumo esse meu sangue.
    O que fazer? ele é meu.
    Mentir sobre ele adianta?
    Resolve alguma coisa fingir que ele não existe?
    Seria tão mais fácil dizer que tenho sangue italiano e alemão e portugues, o que não seria uma mentira,mas também não seria uma verdade absoluta.
    E meu sangue judeu fica onde ?
    Sou uma grande salada de frutas.
    Entendo que para quem não vive a realidade do racismo,é muito difícil entender a realidade dos negros.
    Nada existe,até que exista na nossa realidade.

  • Nara

    Quer dizer então que tu entra na festa e sente o cutuco, quero dizer, sentiste o que sente um negro qdo entra em festa de branco… e não gostaste? Acredito que nem o negro gosta de ser olhado de cima abaixo em festa de branco… nos outros é refresco… daí tu leva isto em conta pra ter razão em sentir-se mal??? Os negros sentem isto desde que nascem e tu sentiu uma vez só e aí já gritou. Ainda bem que tu sai da festa e o mundo é teu pq segue a lei dos brancos. Imagina o negro que sai da festa e a coisa piora pro lado dele. Bem vindo ao mundo racista que os brancos criaram.

    • Nara, ninguém “leva em conta” coisa alguma para sentir-se bem ou mal. Sente-se bem, sente-se mal, isso é tudo. E não foram os brancos que criaram o racismo. Existe racismo de branco contra negro, de negro contra branco, de branco contra branco e de negro contra negro, isso sem nem falar dos mestiços e das raças vermelhas e amarelas.

      Supersimplificar dizendo que o branco é malvado e o negro é vítima é exatamente o tipo de aberração “politicamente correta” da atualidade contra a qual eu me insurjo.

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