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Estatuto da Igualdade Racial: a institucionalização do racismo no Brasil

Acho divertida a pressuposição “politicamente correta” de que, se os percentuais de representação de gente com uma cor de pele ou outra em uma deteminada instituição, atividade ou região geográfica são diferentes da média nacional, então deve ser criada uma “discriminação positiva” para fazer o filho do Sicrano ter vantagens em relação ao filho do Fulano, mesmo que Fulano e Sicrano sejam vizinhos de porta, trabalhem na mesma empresa, ganhem o mesmo salário e seus filhos estudem na mesma escola, como se isso não fosse uma violência contra Fulano. Mais hilária ainda é a justificativa: “no século XIX homens da mesma cor de Fulano exploraram homens da mesma cor de Sicrano, então nada mais justo que no século XXI o Estado tire de Fulano para dar a Sicrano, isso é a reparação de uma dívida histórica”. Tragicomicamente, nossos políticos ou levam esse tipo de absurdo a sério, ou tiram proveito eleitoral da choradeira de grupos de pressão em busca de privilégios, sem se importar com as injustiças que serão perpetradas nem com o ódio racial que será promovido pela institucionalização do racismo que esse tipo de legislação trará ao Brasil.

Fulanos e Sicranos

Fulano e Sicrano eram grandes amigos. Nasceram no mesmo ano, cresceram juntos, jogavam bola no mesmo time e moraram na mesma rua a vida inteira. Quando uma empresa de segurança abriu um escritório na rua de baixo, foram juntos se inscrever para uma vaga e foram contratados no mesmo dia. Levavam uma vida muito semelhante.

Um dos amigos casou-se com a moça do caixa do supermercado do bairro, dois meses depois o outro casou-se com a balconista da lojinha de R$ 1,99 do outro lado da rua. Dois anos depois nasceram Fulano Jr. e Sicrano Jr., com apenas duas semanas de diferença um para o outro.

Os dois garotos cresceram juntos, jogaram bola no mesmo time e freqüentaram a mesma escola, assim como seus pais. Fulano Jr. repetiu a sexta série, mas no ano seguinte os dois voltaram a ser colegas porque Sicrano Jr. teve que repetir a sétima. Cursaram juntos o ensino médio, mas enquanto Fulano Jr. fazia um cursinho à noite, pago com as economias da família, Sicrano Jr. ensaiava coreografias com a sua banda, o Bôndi du Sykranaum, que agitava as madrugadas de sexta e sábado no ginásio do bairro.

Fulano Jr. estudava de segunda a sexta, Sicrano Jr. cantava de terça a sábado, e chegou o ENEM. Como era de se esperar, três anos de preparação diferenciada produzem efeitos diferentes. As notas de Fulano Jr. foram consistentemente maiores que as notas de Sicrano Jr. em todas as disciplinas.

Quando os dois se inscreveram para o curso de engenharia elétrica na universidade federal, entretanto, uma coisa estranha aconteceu: Fulano Jr., que havia se dedicado aos estudos durante três anos para garantir sua vaga na universidade, foi informado que não tinha atingido o escore mínimo para ingressar, mas Sicrano Jr., que havia negligenciado os estudos e obtido notas menores em todas as disciplinas, tinha obtido ingresso.

Domingão, faixa de “bixo” na frente na casa dos Sicranos, churrascada no quintal, parentada, vizinhança… cadê os Fulanos? Alguém chama os Fulanos! E lá vai o Sicrano berrar por cima do muro:

- Fulano! Ô Fulano! Vem aí comer um churrasco pra comemorar que o Sicrano Jr. entrou na universidade!

Na casa dos Fulanos, clima pesado. Frustração. Cobranças. Brigas:

- Tanto esforço se fez pra economizar para você estudar e você fracassa!

- Mas pai, eu estudei, fiz cursinho toda noite, fui muito bem nas provas!

- Que bem nas provas coisa o quê, se tivesse ido bem tinha passado, olha aí o Sicrano Jr., fazia a mesma coisa que você, ainda cantava todo final de semana, ganhava uma grana, pegava a mulherada do bairro, fazia festa e entrou no mesmo curso que você queria!

- Pai, as notas dele foram todas menores que as minhas. Todas. Tá aqui o gabarito oficial, tá aqui o meu gabarito, tá aqui o gabarito dele. Confere!

- Ah, é! Vai ver que ele entrou na universidade porque foi pior, mesmo. Você é que não teve competência para entrar!

- Eu não tive foi melanina pra entrar!

Fulano Jr. atira os gabaritos no chão e sai de casa batendo a porta.

- Melanina? Mas que porcaria é essa que ele tá falando? Ô mulher! O que que é melanina? O filho do Sicrano tá usando droga?

- Não, querido. Melanina é o que dá cor à pele. O Sicrano Jr. tirou nota pior em todas as disciplinas, mas ganhou a vaga porque entrou pelas cotas.

- Entrou pelas costas? O filho do Sicrano é viado?!?

- Pelas cotas! A universidade reservou 30% das vagas para alunos negros. A nota do Fulano Jr. foi muito maior que a nota do Sicrano Jr., mas o Fulano Jr. é branco e o Sicrano Jr. é negro.

- Mas como é que é isso? A gente se sacrificou tanto pra pagar o cursinho, o Fulano Jr. se matou estudando enquanto o Sicrano Jr. cantava e fazia festa e agora quem ganha a vaga na universidade é o Sicrano Jr. só porque é preto?

- É.

- …

Aí ouvem o grito vindo por cima do muro:

- Fulano, vem pro churrasco! Vem comemorar o sucesso do meu filho!

Fulano junta os gabaritos que Fulano Jr. jogou no chão e vai conferindo pelo caminho até a casa de Sicrano. Nota maior em português… Nota maior em matemática… Nota maior em história… Nota maior em biologia… Nota maior em química… Nota maior em física… Nota maior na redação… Nota maior em todas as provas. Todas, sem exceção.

- E aí, Fulano! Ô rapaz, fiquei sabendo que o Fulano Jr. não entrou, que pena. Mas o rapaz é inteligente, ano que vem ele entra. Desencana. Hoje vamos comemorar o sucesso do meu filho! Pega uma ceva aí!

- Ô Sicrano, você conferiu o gabarito das provas?

- Eu não, por quê?

- Olha aqui, negão.

- Que diferença faz isso, cara? O importante é que meu filho está na universidade.

- Mas o meu filho acertou mais respostas em todas as disciplinas e teve nota maior na redação e não entrou.

- Ah, isso depende do curso. Tem curso que precisa de mais nota, outros de menos nota.

- Sicrano, eles estavam concorrendo pro mesmo curso.

- Não pode.

- Olha aqui.

Sicrano pega os gabaritos e começa a conferir. Português… Matemática… História… Biologia…

- Não acredito, cara. Seu filho acertou mais questões em todas as disciplinas, era pra ter entrado melhor classificado que o Sicrano Jr., deve ter alguma coisa errada aí.

O rapaz ouve o comentário e explica:

- Não tem nada errado não, pai! É isso aí mesmo, eu entrei nas vagas reservadas para os cotistas.

- Contistas? Mas você entrou em engenharia elétrica ou em letras?

- É cotistas, pai. O governo reserva uma cota de 30% das vagas para alunos negros.

- Como é que é?

- É por causa da escravidão, do racismo, da diferença de oportunidades, pai. Toda vida os brancos se deram bem em cima dos negros. Com a instituição da discriminação positiva nós passamos a ter direitos iguais de verdade. Os brancos não podem mais nos excluir, impedindo que a gente tenha o acesso que merece às vagas no ensino superior e nas empresas.

Aí o Fulano não se conteve:

- Como é que é, Sicrano Jr.? Você está dizendo que ganhou essa vaga porque mereceu mais que meu filho, que passou três anos estudando enquanto você cantava e fazia festa?

- Ô seu Fulano, qualé? Vocês escravizaram nosso povo, exploraram nossos antepassados e nos excluíram do mercado. Negro no Brasil sempre foi cidadão de segunda categoria, mas agora isso está mudando, tá ligado? A sociedade brasileira tem uma dívida histórica com o povo negro e tem que nos dar uma justa reparação por todo sofimento que nós passamos.

- Vocês quem, ô rapaz? Eu trabalho no mesmo lugar que seu pai, ganho o mesmo salário que seu pai, que palhaçada é essa de vocês? E que palhaçada é essa de “dívida histórica” e sofrimento se eu e seu pai toda vivemos na mesma rua, estudamos na mesma escola e trabalhamos na mesma empresa? E você e meu filho a mesma coisa. Você acha que a sociedade tem uma dívida histórica com você, que fica cantando bandalheira e fazendo festa ao invés de estudar? E acha certo pagar essa dívida com a vaga do meu filho, que passou três anos estudando toda noite com o dinheiro que eu me sacrifiquei pra ganhar?

- Ih, se liga, é bem coisa de branco racista. Choradeira de quem sempre nos explorou e não admite perder privilégios. Vocês são mesmo um bando de filhos-da-pu… *** PLAFT! ***

O tapa estalou certeiro na boca de Sicrano Jr., que cobriu a boca com as mãos e arregalou os olhos. Fulano ainda rosnou, com o dedo em riste:

- Morde essa língua pra falar comigo, neguinho boçal!

Então metade dos presentes partiu para cima de Fulano e a pancadaria tomou conta do lugar. Nem mesmo Sicrano, que se colocou em frente ao amigo para defendê-lo, conseguiu segurar os convidados e evitar que Fulano fosse surrado.

Com duas costelas quebradas, Fulano saiu do hospital direto para a detenção, onde aguarda julgamento pelos crimes de racismo e agressão.

Não adiantou Sicrano explicar pro delegado que Fulano não era um homem violento, que aquilo foi uma explosão emocional porque ele estava de cabeça quente devido a uma grande injustiça.

Não adiantou Sicrano explicar que o tapa na boca foi merecido, que se não fosse Fulano ele mesmo teria esbolachado o filho abusado pelo desrespeito a seu amigo de infância.

Seis testemunhas alegaram que Fulano agrediu e ofendeu Sicrano Jr. em função de preconceito racial. Todos negros.

Ninguém foi detido pelo espancamento de Fulano. Para isso a única testemunha era Sicrano.

Fulano perdeu o emprego devido à prisão.

Fulano Jr. agora tem que trabalhar para ajudar no orçamento de casa, não lhe sobra muito tempo para estudar.

Sicrano Jr. montou uma chapa para o DCE e pretende lutar para que a universidade institua uma cota de 30% de professores negros.

E Sicrano repete todo dia, com visível mágoa, que alguma coisa mudou no olhar de seu amigo.

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