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As Quatro Nobres Verdades

A vida não é sofrimento, desejo não gera sofrimento, nirvana não é a extinção do desejo e o Nobre Caminho Óctuplo não é místico nem esotérico. Entenda as Quatro Nobres Verdades do Buda: (1) A nossa vida está fora de eixo. (2) É esse desalinho que causa desconforto. (3) Nirvana é a libertação pelo reequilíbrio. (4) O Nobre Caminho Óctuplo é uma receita prática para colocar a vida de volta no eixo, cessar a insatisfação e obter equilíbrio. 

O texto abaixo não foi escrito por mim, mas faço questão de compartilhar esta pérola de sabedoria com meus leitores e indicar as fontes para os interessados em se aprofundar no assunto.

As Quatro Nobres Verdades

Prof. de Dharma Rodney Downey (do Zen coreano)

Tradução: Ricardo Sasaki & Rosana Lucas
Editor da palestra oral: Ricardo Sasaki

Gostaria de começar falando sobre alguns enganos que temos a respeito do Dharma do Buddha, os quais são muito comuns em todo o mundo ocidental, e mesmo no Oriente. A causa desses enganos tem a ver com palavras e com aquilo que elas significam.

Hoje, no café da manhã, eu comi bolo. E ontem eu aprendi que existe uma expressão em português: Quando você vai se encontrar com uma pessoa e ela não comparece, diz-se que você “ganhou um bolo”. Imaginem que daqui a 500 anos, um arqueólogo encontre um diário de anotações de um brasileiro. Lá é dito: “Eu fui encontrar com Paulo e ganhei um bolo”. O tradutor diria que eles comeram um bolo juntos! Esta é a armadilha das palavras, as quais têm um significado para uma época e cultura em particular. O mesmo se dá com alguns dos ensinamentos do Buddha.

Consideremos as Quatro Nobres Verdades, as quais estão no centro do ensinamento do Buddha. A tradução usual das Quatro Nobres Verdades é: “A vida é sofrimento; a causa do sofrimento é o desejo; a cessação do sofrimento é se ver livre do desejo; o modo de fazê-lo é o Caminho Óctuplo”.

Isto está correto? De modo algum! Isto não é o que o Buddha falou. Este é o problema! Vamos começar com a Primeira Nobre Verdade, que é sempre traduzida como “A vida é sofrimento”. Mas que coisa horrível! Veja a vida! É uma força excitante e de grande diversidade, de inacreditável deleite. Por que, então, é traduzido como a vida é sofrimento?

Vamos examinar a língua em que o Buddha falava. O Buddha disse, de fato, que a vida é dukkha. Esta palavra sempre é traduzida como sofrimento, mas isso não é de modo algum o que significa. A raiz de dukkha é duk, e significa “eixo”. Veja a época do Buddha: A forma mais complexa de transporte era uma carroça; era uma carroça de madeira, como é na Índia ainda hoje, com um eixo de madeira unindo duas rodas também de madeira, e puxada por búfalos.

A palavra dukkha significava o eixo que está fora do prumo, que está fora de alinhamento. Imaginem o sofrimento de uma pessoa sentada nessa carroça, a força que os búfalos devem fazer e, ao invés da carroça seguir suavemente, ela está fora do eixo, desalinhada.

Então, Buddha fala sobre a vida – a vida de todos nós – usando o exemplo da carroça que tem seu eixo fora de alinhamento. Ele diz que nossas vidas estão fora de equilíbrio. E é esse desequilíbrio que leva ao sofrimento. Ele nunca disse que a vida é sofrimento. Este é um ponto muito importante. Nossas vidas estão fora de equilíbrio, ou, como os chineses falariam, não está fluindo junto com o Tao. Ambas as expressões significam a mesma coisa. Esta é a Primeira Nobre Verdade.

A Segunda Nobre Verdade se refere à razão da vida ser assim, e isso é geralmente traduzido como desejo. Mas nós teríamos uma vida muito estranha se não tivéssemos desejos. Não é o que o Buddha falou. A palavra que o Buddha usou foi trishna e significa ‘sede’. Nas palavras do próprio Buddha isso foi descrito: “É como um homem vagando no deserto por muitos dias, sedento por água”. Isso também é a sede do ‘eu quero’ e do ‘eu não quero’, e é por isto que todos nós sofremos.

O que é este ‘eu quero’ e ‘eu não quero’? O que isso indica? Significa que não estamos satisfeitos com este momento, ‘agora’. Porque se estivéssemos ‘aqui’ (Rodney bate no chão), não haveria ‘querer’ nem ‘não querer’. Simplesmente haveria este momento, agora. O Buddha, utilizando-se deste exemplo, estava dizendo: “Esteja com este momento”. O momento em que você quer ou não quer é o momento em que você deixa o agora, o momento presente, e aí, então, isso leva ao sofrimento.

Então, esse desequilíbrio que temos faz com que nunca estejamos no momento e, não estando no momento, isso leva ao sofrimento. É muito simples. Agora você pode examinar a sua própria vida a partir dessas palavras.

Mas o Buddha não parou por aí. Ele nos deu uma cura para este ‘não estar no momento’, este sofrimento. Esta cura é a Terceira Nobre Verdade, que é a verdade mais mal entendida de todas.

Ele fala do Nirvana ou Nibbana, que é uma palavra que é usada em todas as línguas nos dias de hoje, mas ninguém sabe o que significa. A palavra é muito simples. Significa expirar, apagar – como apagar uma vela. Muito simples! O Buddha apenas usava palavras simples, mas mesmo assim elas foram totalmente mal compreendidas, porque geralmente ela é traduzida como extinção do desejo. Correto? Não significa de modo algum isto.

No tempo do Buddha, a palavra nirvana, apagar, significava simplesmente isto: apagar. Mas havia uma grande diferença. De acordo com a ciência e a filosofia do Vedanta, quando você apaga uma chama, como em uma vela ou em uma lâmpada de óleo, você diz que a chama ficou livre. Quando você acende uma vela, você captura a chama, como se a colocasse numa gaiola. Então, em ‘nossa’ idéia de apagar uma vela nós dizemos ‘extinguir’ ou ‘matar’; mas, na época do Buddha, apagar uma chama significava libertá-la. Da mesma forma como seu “bolo”; coisas completamente diferentes!

Então, o Buddha nunca disse algo como matar os seus desejos; ele falava da libertação ou liberdade deste apego ao ‘eu quero’ ou ‘eu não quero’. Quando você abandona isso, então a sua vida entra num equilíbrio. Aí, então, você está completamente livre. Este é um ensinamento maravilhoso, porque ele é prático e você pode vê-lo em sua própria vida.

Se você sempre está no momento, você não pode sofrer, você está livre para ir para o próximo momento, livre para seguir para o próximo momento, sempre totalmente livre, sem estar preso no ‘eu quero’ ou ‘eu não quero’. E é isso que o Buddha ensinava. Ele, então, nos deu o Caminho Óctuplo como uma forma de alcançar isso. Da mesma forma como as pessoas dizem hoje: “Como eu posso levar esta prática para a minha vida?”, o Buddha nos deu a resposta. É o Caminho Óctuplo: A Compreensão Correta, o Pensamento Correto, a Linguagem Correta, a Ação Correta, os Meios de Vida Correto, o Esforço Correto, a Vigilância Correta, a Concentração Correta. Mas cuidado com a palavra ‘correto’, porque ‘correto’ implica que há um ‘errado’, e o Buddha não usava a palavra desta forma; o Buddha não falava desde um ponto de vista dualista.

Uma palavra melhor do que ‘correto’ é ‘apropriado’. Linguagem Apropriada, Pensamento Apropriado, Compreensão Apropriada, etc. Vamos, então, apenas examinar um desses fatores, utilizando a palavra ‘apropriada’ ao invés de ‘correta’. Linguagem Apropriada significa não falar mal de uma outra pessoa, não utilizar palavras para se mostrar, não utilizar palavras para sugerir algo que não é correto. Há muitos exemplos em suas vidas. Simplesmente falar demais é uma linguagem inapropriada. Podemos falar que ler demais também é uma linguagem inapropriada, ou ver televisão demais também seria linguagem inapropriada.

O que o Buddha quis fazer ao ensinar sobre essas várias ações não apropriadas foi nos dar um instrumento para examinarmos as nossas próprias vidas. O que significa ‘apropriado’ em termos de nossa vida? Significa Linguagem, Ação e Pensamento que nos ajudam a nos livrarmos de nosso desequilíbrio, de nosso dukkha.

O Caminho Óctuplo usado apropriadamente irá nos ajudar a colocar a nossa vida em equilíbrio. Isso não é algum ensinamento esotérico, nem aquilo que freqüentemente acontece no ensinamento mal compreendido sobre o que o Buddha ensinou.

As Quatro Nobres Verdades são muito práticas, baseadas na vida real. É um ensinamento sobre como viver a sua vida. E posso assegurar a vocês, que se lerem qualquer ensinamento do Buddha que parecer muito distante de sua vida agora, isso é uma tradução ruim. Porque o Buddha era um homem prático e inteligente, que olhava profundamente para o que fazemos conosco. A partir daí, ele nos ofereceu um modo de sair disso. Espero que isso que falei sobre as Quatro Nobres Verdades tenha lançado um pouco de luz. Muito obrigado!

–//–

Eu encontrei uma cópia deste texto no Orkut, na comunidade Budismo.
O autor do tópico indicou como fonte um artigo do blog Projeto Phronesis.
Os autores do blog indicaram como fonte um artigo do site da Comunidade Zen-Budista de Curitiba.
Eu copiei o texto original sem alterações.

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19 comments to As Quatro Nobres Verdades

  • Caro Arthur! O “estar no aqui e agora” é o conceito mais fugaz que tem sido apresentado. Escorrega entre os dedos como segurar a água. A permanência seria iluminadora. Se ser feliz é um objetivo real, e trouxer vantagens evolutivas, a seleção e o espírito de Darwin se encarregarão de enfiar isto nas cacholas, via alelos saltitantes, num DNA qualquer, quiçá rumo a um grande salto. Mas que seja rápido, pois temos pouco tempo. Está prevista uma nova Pangéia para daqui a 250 milhões de anos. As condições de vida serão inóspitas e minhas esperanças de que meu tera-tera-neto seja agraciado são exíguas. Um abraço! Parabéns pelo achado. Um texto iluminador!

    • “Iluminação geneticamente transmitida”? Hmmm… por um certo ângulo, faz sentido! :| Mas enquanto isso não chega, acho uma boa incorporar o Nobre Caminho Óctuplo às nossas vidas. :)

      Pô, 250 milhões de anos é logo ali, será que antes disso nos tornaremos uma raça de Budas?

  • É o esperado de um texto Zen e coreano ainda. Pensar? Nem pensar!

  • Arthur,
    adorei o texto. Como diriam os meus primos adolescentes, o texto é ‘duca’. Buddha diria que achou ele ‘dukka’?
    Buddha, como a mulata, era mesmo o Tao!
    Nossa, extrapolei. Sorry! :-)
    bom fim de semana

  • hahaha, é bem possível… ;-)
    Baideuêi, te achei no Facebook, enviei um pedido mas a caixinha fechou antes que eu pudesse enviar a mensagem pra você saber que eu sou eu! Ah, esses cyber-glitches…

  • Quem nem quer nem não quer nada vai é morrer atolado na pobreza sem contribuir em nada para o progresso da humanidade. Quem quer ser um bunddha? Eu não!

  • David Paulo

    Arthur,

    você pode dizer que o pensamento de buddha é simples, mas não é todo muno que consegue pensar o que ele pensou. Para mim, o caminho octuplo consegue consertar mesmo o erro que o “Economista Realista” pensa ser erro, pois é muito relativo e leva a uma verdade de cada um.

    • É verdade. Nem sempre é simples o processo de chegar a uma conclusão simples. Então, quando apresentamos a solução simples, resultado de um longo e profundo processo de análise, avaliação de mérito e síntese de preceitos que resumam adequadamente a complexidade do processo, muitos não conseguem perceber a sabedoria contida nesta simplicidade. É uma lástima.

      Mas eu concordo com um ponto na crítica do E.R., embora por outros motivos: a “Omissão Correta” nunca foi ensinada pelo Buda e mesmo assim tem muita gente que a pratica alegando que este é um ensinamento dele…

  • David Paulo

    Afinal, usar um computador é simples. criar um e ainda por cima criar um sistema operaciional para facilitar seu manuseio é um pouco mais complexo.

  • Gerson B

    Eu sou 1/2 taoista, 1/2 consciencilista neokahuna(TM) e 1/4 budista (eu sei que a conta não bate). Sempre apreciei o aspecto da compaixão do budismo, mas não concordava com a interpretação da doutrina que eu conhecia. Esse post vai me dar muito em que pensar.

  • Juliana

    Arthur…o q vc acha da posição do budismo com relação as drogas?

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