O Jogo dos Sete Erros: campanha “Crack Nem Pensar” da RBS vai aumentar a violência no RS e em SC
Eu não duvido das boas intenções do Grupo RBS em promover uma campanha contra o crack, mas discordo frontalmente das diretrizes desta campanha específica. Sua fundamentação teórica é inadequada e suas propostas serão contraproducentes, isto é, vão aumentar a violência, a corrupção e outros problemas relacionados ao tráfico de drogas ao invés de ajudar a reduzi-los.
Primeiro erro: sugerir não pensar
A campanha começa errando pelo próprio nome: “Crack Nem Pensar” remete ao oposto do que se deve fazer, que é pensar muito bem sobre a questão do crack. E a primeira pergunta que eu sempre faço quando debato sobre a questão das drogas é:
- Se as drogas são assim tão ruins como se diz, então é fácil a sociedade oferecer algo melhor e mais atraente para os jovens que as utilizam ou comercializam, certo?
Se a resposta for “claro, é óbvio que é fácil oferecer uma boa alternativa em relação a algo tão ruim”, então ofereçam, ora bolas! Os resultados virão sozinhos: como todo mundo escolhe o que acha que é melhor para si, ninguém vai querer usar ou vender drogas se tiver alternativas melhores disponíveis.
Se a resposta for “não é bem assim”, então fica evidente que tem alguma coisa muito errada com o discurso demonizador das drogas. Ou as drogas não são tão ruins assim, ou as alternativas disponíveis para os jovens, do ponto de vista deles, são piores que usar ou vender drogas.
Você acha que não é assim? Então pense:
- Será mesmo que os jovens abusam de drogas porque são tão burros que gostam de fazer mal a si mesmos, ou porque são tão mal informados que não sabem que as drogas fazem mal?
- Será mesmo que os jovens vendem drogas e se arriscam a ser presos ou a morrer em confrontos entre quadrilhas ou contra a polícia porque são naturalmente maus e criminosos?
- Ou será mais provável que os jovens que abusam de drogas ou comercializam drogas não sejam nem burros e mal informados, nem maus e criminosos, mas tenham uma visão de mundo completamente diferente da visão de mundo de quem pretende forçá-los a não consumir nem comercializar drogas?
Sem entender e respeitar a visão de mundo, as necessidades e a dignidade de quem ingressa no mundo das drogas não existe a menor possibilidade de encontrar uma solução digna e razoável para os problemas agravados pelas drogas. (Repetindo: agravados e não gerados. O abuso e o comércio de drogas são conseqüências de problemas anteriores, não causas de problemas. Estes fenômenos apenas agravam problemas preexistentes.)
Crack: Vamos Pensar – chega de repetir clichês sem questionar.
Segundo erro: apelar para a consciência
Esse é um absurdo de lascar. Quer dizer então que o jovem entra no mundo das drogas – em especial do crack – porque não tem consciência que crack faz mal, que vicia, que é perigoso?
Não existe usuário de crack que não saiba que o crack faz mal, que é muito viciante e que para a maioria dos usuários é um caminho sem volta. Podem ter certeza, quase todos eles sabiam disso antes de experimentar o crack pela primeira vez e mesmo assim embarcaram nessa canoa furada.
O que ninguém pára para pensar é que não adianta “conscientizar” sem oferecer alternativas pelo menos tão atraentes quanto. Se as drogas são mais atraentes que esportes saudáveis ou que os estudos e empregos disponíveis, isso é sinal claro que tem algo muito errado com os esportes, com os estudos, com os empregos e com todos os agentes sociais que dizem que estas coisas “deveriam” ser mais atraentes que as drogas.
Campanhas de conscientização são inócuas. Salvo uma parcela ínfima dos filhos das classes mais abastadas, cujo contato com drogas pesadas poderia advir de desconhecimento ou ingenuidade, somente pode ser conscientizado com eficácia o jovem que não teria de qualquer modo interesse nem motivação para se tornar um usuário abusivo de drogas. O jovem de classe baixa em situação de risco real não é atingido por campanhas de conscientização. Se por acaso a campanha de conscientização chega até ele, é totalmente ineficaz.
Terceiro erro: minimizar a importância da desigualdade social
Ninguém trafica crack porque não quer trabalhar. Quem disser uma besteira dessas ou não conhece a realidade ou não se importa com a verdade, porque o tráfico é uma ocupação pesada e arriscada, que dá muito trabalho e pouco lucro para a maioria dos traficantes. Mas é muito fácil dizer que “é melhor ser pobre, honesto e trabalhador do que se tornar criminoso por não querer trabalhar” quando se está lendo um blog, debatendo no Orkut ou em seminários temáticos, dando entrevista na TV ou despachando atrás de uma mesa numa sala com ar condicionado.
Cada um decide o que é “melhor” para si com base em sua visão de mundo e nas oportunidades que tem no mundo. Se alguém decide usar drogas ou comercializar drogas mesmo sabendo de todos os riscos, isso é sinal que aquilo é o melhor que essa pessoa pôde encontrar para si em nossa sociedade. Cada usuário abusador ou traficante de drogas é, portanto, motivo de vergonha para a sociedade inteira, que nada melhor pôde oferecer para estas pessoas.
A grande verdade é que existe uma parcela cada vez maior da população que está descobrindo no tráfico de drogas uma ocupação que pode lhes trazer a oportunidade financeira e o status social que jamais lhes serão oferecidos em qualquer outro tipo de emprego ou atividade econômica.
Tudo em nossa sociedade remete ao desejo de consumo e de uma vida confortável. Todos os meios de comunicação de massa estão repletos de anúncios de produtos bonitos, vistosos, desejáveis. Em todos os lugares as pessoas são julgadas pela aparência, por aquilo que possuem, por aquilo que podem fazer, por aquilo que podem proporcionar. Ricos, pobres e todos no intervalo são bombardeados com essas informações diariamente, são estimulados a desejar, a querer ter e a se valorizar por aquilo que possuem.
Os sonhos de consumo básicos de nossa sociedade são casa própria e carro próprio. O mais barato automóvel nacional custa R$ 22.560,00 em sua versão mais básica. Supondo que um trabalhador que ganha salário mínimo pudesse dedicar 10% de sua precaríssima renda para comprar um automóvel, ele precisaria economizar durante quarenta anos para ter acesso a este bem.
O que você vai dizer para essas pessoas? Que elas precisam se resignar porque o mundo é assim mesmo? Que alguns nasceram para ter e outros para sofrer? Certo, diga. Mas não se espante se alguns deles não aceitarem as regras desse jogo. Quem não tem nada a perder e não estiver disposto a passar setenta ou oitenta anos morto em vida, olhando os outros terem o que desejam enquanto ele passa necessidade, tem boas chances de resolver vender drogas e de encarar a repressão à única chance de ter os bens que deseja como uma declaração de guerra. Afinal, o que estas pessoas têm a perder? (A vida? Que vida? Você tem uma vida, elas mal sobrevivem.)
Não me venha com o blá-blá-blá ridículo sobre se esforçar, sobre se qualificar e sobre conquistar espaço, meu caro leitor. Em um mundo competitivo não há espaço ao sol para todos, então sempre haverá os marginalizados que se revoltarão e buscarão violentamente aquilo que nossa sociedade os estimula a desejar mas os impede de adquirir pacificamente. Somente a implantação de um verdadeiro Estado de Bem-Estar Social pode reduzir o conflito social aos níveis ínfimos registrados em países como Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia.
Se nossa sociedade submete um imenso contingente de pessoas à miséria e à frustração constante e sem perspectiva justificável de melhoria, se não lhes estende a mão de modo solidário, se não lhes garante a mínima dignidade, se não lhes garante acesso ao conforto, à segurança e aos itens de desejo que anuncia como ideais de satisfação, então vamos arcar com o resultado desta terrível falta de solidariedade: a revolta e a violência de muitos seres humanos que não aceitam ser tratados como lixo.
Quarto erro: considerar o traficante um inimigo
Eu não tenho a menor dúvida que 95% ou mais dos traficantes não são inimigos da sociedade, são vítimas da sociedade. Antes que você comece a se contorcer achando que isso é um clichê, lembre-se que, salvo um ou outro caso patológico, ninguém nasce mau, ninguém gosta de fazer os outros sofrerem, ninguém gosta de se expor a risco real. A maior parte das pessoas que se tornam más são vítimas de negligência e abusos por parte da família, da escola, do Estado e da sociedade em geral.
Mau caráter é aquele sujeito que teve amor, atenção, respeito, educação de boa qualidade, bons exemplos e todas as oportunidades na vida para ter uma atividade econômica lícita que lhe proporcionasse uma vida confortável e preferiu investir no mundo do crime por ambição desmedida, excessiva e injustificada.
O aviãozinho, vapor ou falcão, recrutado na infância em uma favela, oriundo de uma família desamparada pelo Estado e também ele desamparado pela família e pelo Estado, é uma vítima desviada do bom caminho por um sistema econômico excludente, negligente, cruel e assassino. Se ele se torna um jovem mau ou um adulto mau, não é porque nasceu mau, mas porque tudo a sua volta o conduziu para o mau caminho.
Tragicamente, a maior parte das vítimas da violência odeia um falso inimigo, e os maiores envolvidos com a violência são os mais iludidos. Os policiais odeiam os traficantes porque o tráfico comete crueldades e violência. Os traficantes odeiam os policiais porque a polícia comete crueldades e violência. E nenhum dos lados percebe que todos estão servindo como bucha de canhão numa guerra contra outros miseráveis que são vitimados pelo mesmo sistema econômico – uma máquina de moer carne humana que não tem o menor interesse em seus dramas pessoais.
Quinto erro: reprimir o tráfico com a polícia
De todas as coisas estúpidas que poderiam ser feitas, usar a polícia para reprimir o tráfico de drogas é a mais grotesca. Isso pode ser tentado por burrice ou por má intenção, mas o fato é que jamais a polícia vai conseguir sufocar esta atividade, só vai conseguir provocar uma reação contrária ainda maior. Não adianta decuplicar o efetivo policial e centuplicar o orçamento das polícias, usar a polícia contra o tráfico é a melhor garantia de promover a escalada da violência.
A sociedade nos estados do sul está embarcando na canoa furada da ideologia proibicionista e repressora, da mentalidade da guerra, sem perceber que isso foi o que foi feito no Rio de Janeiro e deu os resultados que podemos conferir nas notícias que vemos constantemente sobre aquele estado. Vejam o que está acontecendo no Rio de Janeiro:
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Fonte: Folha Online.
Isso é o que está sendo plantado no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina pela campanha Crack Nem Pensar. Vamos transformar a Brigada Militar RS e a Polícia Militar SC em franquias do BOPE e as ruas de Porto Alegre, Florianópolis e os morros de todas as grandes cidades do sul do Brasil em um campo de guerra. Isso foi o que se obteve ao usar a polícia para combater o tráfico no Rio de Janeiro, isso é o que se obterá ao usar a polícia para combater o tráfico em qualquer lugar do planeta.
A polícia carioca não pode circular nas favelas em viaturas não blindadas porque é metralhada. No Rio Grande do Sul as viaturas policiais circulam lentamente pelas favelas, com os vidros abertos, sem que nenhum ataque contra a polícia ocorra. Por enquanto. Quando a intensificação da repressão provocar o acirramento de ânimos entre a Brigada Militar e os traficantes, a escalada da violência será deflagrada e não será mais possível refrear a violência nem fazê-la retornar aos níveis anteriores aos de hoje.
Há poucos dias um helicóptero da polícia do Rio de Janeiro foi abatido a tiros pelo tráfico. A cúpula da segurança pública do Rio de Janeiro disse que “a resposta será na mesma medida“, ou seja, eles ainda não aprenderam nada. A polícia do Rio de Janeiro é a que mais mata no mundo. A violência do tráfico no Rio de Janeiro quase se compara à violência do Khmer Vermelho. Mesmo assim, apesar de todas as evidências de fracasso da estratégia de usar a polícia para combater o tráfico, a cúpula da segurança pública do Rio de Janeiro continua dizendo que violência se combate com mais violência e vai colocar mais carne humana viva na máquina de moer. A pergunta que fica é: os gestores e a polícia do Rio de Janeiro são burros ou são mal intencionados?
E nós? Seguiremos o mesmo caminho do Rio de Janeiro?
Sexto erro: aderir à ideologia fascista
A pretensão do Estado em ditar o que é melhor para o indivíduo mesmo contra a vontade deste é uma das idéiais fundamentais do fascismo. (A concepção fascista é definida como “anti-individualista”, colocando o Estado antes do indivíduo: fora do Estado não há valores humanos ou espirituais.) A imposição de uma moralidade padrão faz parte da estratégia de lavagem cerebral coletiva necessária para a dominação, jogando a população “ordeira” contra os que se rebelam contra as injustiças. São idéias fascistas que fundamentam a proibição do consumo e do comércio de drogas.
No Direito Penal, para que exista um crime, são necessários entre outros estes três requisitos: um agente, uma vítima e um dano infligido pelo agente à vítima. Porém, o agente não pode se confundir com a vítima: a automutilação não é crime, nem pode ser tipificada como tal.
No caso do abuso de drogas, o que ocorre é uma forma de automutilação, portanto não pode ser crime. É absolutamente aberrante tratar o abuso de drogas como ação criminosa.
No caso da venda de drogas, fornecer a mercadoria solicitada por um cliente não é causar dano, portanto não pode ser crime. É absolutamente aberrante tratar a venda de drogas como ação criminosa.
As tergiversações do tipo “a sociedade é a vítima” só se sustentam perante uma visão fascista de mundo, em que o Estado é o parâmetro de todas as coisas e as coisas são assim porque as autoridades do Estado determinaram que seja assim. Se o abuso de drogas e o tráfico de drogas são ações a que faltam elementos necessários da definição de crime, então não há que tergiversar: a criminalização de qualquer destes ações é uma atitude fascista.
Se Fulano quer vender e Sicrano quer comprar e usar uma mercadoria, ao Estado não cabe interferir exceto para garantir que a transação se dê de modo voluntário, pacífico e com uma série de garantias para ambos os interessados, tais como as contidas no Código do Consumidor, além do recolhimento dos tributos necessários para a manutenção dos serviços do Estado aos cidadãos. Não cabe ao Estado, entretanto, opinar sobre a moralidade ou a conveniência do ato em si, salvo no caso em que o ato em si interfere nos direitos de terceiros, o que não acontece nos casos de abuso de drogas e venda de drogas.
Sétimo erro: combater as conseqüências sem mexer nas causas
O abuso de drogas é uma questão de saúde pública decorrente da falha do Estado em “assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos” (CF, preâmbulo).
Não adianta reprimir o consumo e o comércio de drogas se as condições sócio-econômicas estimulam tanto o abuso quanto o tráfico. Se continuarmos ouvindo os moralistas alienados e os ideólogos mal intencionados que dizem que “pobreza não leva ao crime, ou todo pobre seria criminoso”, então salve-se quem puder porque a guerra civil já foi deflagrada e vai piorar muito.
É preciso investir na solução dos problemas que levam ao abuso de drogas e ao tráfico de drogas, não adianta tentar combater os sintomas de males sociais subjacentes sem corrigir os problemas mais profundos da sociedade.
As principais causas do problema das drogas
1) O desamparo do indivíduo pela família e pelo Estado, que deixam de fornecer o ambiente adequado e os estímulos necessários para que as crianças e adolescentes se desenvolvam de modo saudável, com amor, atenção, respeito, educação de boa qualidade, bons exemplos e um bom encaminhamento na vida;
2) A desumanidade do sistema econômico, que transforma pessoas em “recursos humanos” e as descarta quando não são úteis economicamente, deixando as pessoas na mais completa falta de perspectivas para uma vida digna, confortável e segura;
3) A truculência fascista do Estado, que tenta tutelar a consciência do cidadão ao invés de investir em seu desenvolvimento, bem como impor um padrão moral através da violência ao invés de garantir os direitos fundamentais do cidadão e cumprir seus demais deveres legais.
4) A ausência de valores humanos e solidariedade na sociedade, que assume um viés cada vez mais individualista e repressor, em coevolução com o sistema econômico e com a estruturação de um Estado cada vez mais controlador e violento e cada vez mais comprometido com um modelo econômico desumanizado, alienante e excludente.
As soluções para o problema das drogas
1) Promover educação universal de boa qualidade, que forme cidadãos com senso crítico e capacidade de tomar decisões próprias conscientes e fundamentadas no melhor conhecimento disponível, sem imposições por parte do Estado ou de grupos ideológicos;
2) Garantir acesso universal à renda digna, compatível com o padrão de consumo adequado ao desenvolvimento tecnológico médio e estimulado pela cultura de consumo da época, com garantia de acesso a uma boa qualidade de vida, equilibrando sensatamente a meritocracia e a justiça social;
3) Legalizar e regulamentar de modo inteligente todas as drogas, eliminando os problemas causados pela ilegalidade (violência, corrupção, agravos secundários à saúde devido falta de controle de qualidade, insegurança nas relações comerciais, etc.), assumindo o controle do mercado (proibição de propaganda, controle de qualidade, fiscalização adequada e recolhimento de tributos com destino integral para educação, saúde e programas de geração de renda e apoio às microempresas) e restituindo a paz à população;
4) Tratar o abuso de drogas como uma questão de saúde pública, investindo pesadamente em três eixos de ação: prevenção (itens 1 e 2 acima), redução de danos e programas de reinserção sócio-econômica para os usuários.
Serão viáveis estas soluções?
Os itens 1 e 2 são sempre ditos difíceis ou impossíveis, sendo estas mentiras alegadas para manter as coisas como estão. Se o acesso universal a uma vida digna e confortável fosse interessante para as elites políticas e econômicas, isso seria facilmente atingido em menos de uma década. Como o interesse maior é manter o povo ignorante e lutando pela sobrevivência para melhor manipulá-lo, faz-se um programa paliativo aqui, distribui-se uns caraminguás ali, vai-se levando tudo como sempre, com passos de formiga e sem vontade. A prova maior de que é possível é que isso já foi feito: basta verificar as políticas públicas adotadas em países que apresentem simultaneamente IDH > 0,95 e Coeficiente de Gini < 0,35.
Os itens 3 e 4 podem ser implementados por qualquer governo, a qualquer tempo, com pouquíssimo investimento e grande retorno em curto prazo. Mesmo sem a implementação dos itens 1 e 2, a implementação dos itens 3 e 4 reduzirá imensamente a violência que atinge a todas as classes sociais, reduzirá a corrupção nos escalões mais baixos do Estado (com os quais convive diretamente a população, que perceberá uma mudança nítida para melhor no funcionamento do Estado) e terá reflexos muito positivos na economia com a elevação de diversos indicadores sociais.
Noutras palavras, um governo interessado no bem estar do povo e os setores mais progressistas da sociedade têm interesse em implementar a agenda completa, enquanto um governo interessado somente na própria perpetuação e os setores mais retrógrados da sociedade têm interesse em evitar os itens 1 e 2, mas não podem declarar isso abertamente nem agir abertamente na direção contrária, e lucram imensamente com os itens 3 e 4.
Considerando que, independentemente da celeridade da implementação dos itens 1 e 2, todo mundo lucra com os itens 3 e 4, sim, estas soluções são viáveis, na verdade são imensamente desejáveis, bastando divulgar amplamente suas vantagens e vencer a inércia cultural devida a anos de desinformação sistemática para que a população entenda a lógica da legalização, perceba suas vantagens e então os políticos façam o que já deveriam ter feito sem medo de perder votos.
Recado para a RBS
Em um mundo onde diariamente se estimula o consumo e no qual se valoriza o ser humano por aquilo que ele possui, reprimir o desgraçado que busca a fuga da dor pelo entorpecimento é uma crueldade e reprimir o miserável que busca a última possibilidade de acesso à sociedade de consumo é uma declaração de guerra.
A RBS podem ter boas intenções, mas está sugerindo o caminho errado para a sociedade. Mudem o rumo antes que a situação piore ainda mais.
- Alertem a sociedade quanto ao conteúdo fascista da criminalização do uso e do comércio de drogas. É fundamental que as pessoas percebam que é importante investir na capacitação para o exercício pleno da cidadania ao invés de deixar o Estado decidir o que é melhor para cada cidadão.
- Expliquem os motivos pelos quais o Estado deve legalizar e regulamentar a produção, a distribuição e o uso de todas as drogas, da mais leve à mais pesada. É fundamental que as pessoas percebam que é através do Estado que nós gerenciamos o país, não através da omissão que delega poderes ao crime.
- Divulguem os resultados das políticas da Holanda, comparados com os resultados das políticas dos EUA, o que deixará claro que a Holanda, o país com as políticas sobre drogas mais liberais do mundo, está fechando presídios por falta de presos, enquanto os EUA, o país que mais incentiva o endurecimento da repressão, é o país com maior número de encarcerados do mundo, tanto em números brutos como em percentual da população. Mostrem a comparação entre os indicadores de drogas e violência nos EUA e na Holanda e digam com todas as letras qual país tem políticas melhores e mais desejáveis, com base nos números.
- Cobrem do Estado as quatro soluções acima indicadas, não o aumento da repressão, porque usar a polícia para reprimir o tráfico de drogas é uma política suicida que vai nos levar à mesma situação de violência do Rio de Janeiro. A polícia pode e deve impedir que o tráfico atue em áreas específicas – como as escolas – mas não deve tentar sufocar o tráfico porque isso é impossível de ser feito com os meios que a polícia dispõe e só vai transformar inutilmente nossas cidades em um campo de guerra.
Recado para todo mundo
Eu agradeço toda e qualquer indicação de leitura sobre legalização de drogas, estatíticas relacionadas a políticas de drogas e temas correlatos em português, esperanto, inglês, espanhol, mirandês, catalão, francês ou italiano.
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adorei isso, vou te indicar uma pessoa.
Hmmmm… fiquei curioso!
trecho do meu primeiro livro (antes da era crack),discorrendo sobre o problema da dependência em pequenas cidades litorâneas…
(…)Apesar das dificuldades estruturais que vivemos, principalmente nas cidades pequenas, existem maneiras de chamar a atenção daqueles que ainda não começaram a se envolver. Tem que se começar cedo, apostando naquilo que cada um sabe fazer de melhor, pra que ele aprenda a se valorizar como ser humano. A cultura, a arte, o esporte, são caminhos seguros e eficientes, no entanto, estas soluções ainda não viraram ninho de procriação de votos e é devido a isso que os políticos, desde o vereador até o presidente da república, não se preocuparam devidamente com o assunto.
É fácil de se perceber isso, aqui em Santa Fé. O que existe pra se explorar o potencial artístico dos jovens? Por acaso uma escola de artes é coisa difícil de ser feita, sabendo-se que, de uma maneira geral, nossos artistas naturais, salvo poucas exceções, levam uma vida difícil. Mas os políticos preferem gastar com festas que enchem os olhos e as urnas. Em relação ao esporte esbarramos na mesma mediocridade. Não há um programa de orientação esportiva sério, onde cada jovem possa descobrir seus talentos e se valorizar. Se você observar com atenção os dependentes desta idade que estamos nos envolvendo, vai perceber que a maioria deles não demonstra que sabe fazer alguma coisa de diferente. Não é que não saibam fazer, só que nunca descobriram no que é que são bons e acabam descobrindo-se bons no uso da droga, ao menos é um assunto que dominam(…)
Arthur, perdoe-me por não estar debatendo (o que eu fiz foi uma postagem), mas é tanta cegueira intencional sobre o assunto que ando até cansado…
Camargo, cegueira intencional é exatamente o que me incomoda. Pior ainda quando vem de quem é formador de opinião. Aí é de lascar.
Não entendo como um veículo do tamanho da RBS lança uma campanha deste porte sem ninguém lá dentro alertar “ei, pessoal, no RJ fizeram isso que estamos propondo e o resultado foi o contrário do desejado”.
Mas o que esperar de um país em que se lê uma notícia como essa?
“A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) aprofundará uma pesquisa sobre o perfil de presos de tráfico para propor mudanças na lei contra os entorpecentes no Brasil. O órgão, ligado ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, ficou intrigado com a conclusão do levantamento: o estudo, feito no Rio, apontou que a prisão de pequenos traficantes não reduz o consumo de drogas.”
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/portal-social/19,0,2692944,Governo-estuda-mudar-a-lei-antidrogas-no-pais.html
A SENAD ficou “intrigada” com o óbvio.
Estamos nas mãos de debilóides.
Um registro importante aqui.
Eu postei na página da campanha Crack Nem Pensar a seguinte mensagem:
“A maconha não é porta de entrada para o crack. Vocês estão divulgando informação incorreta.”
E acrescentei o link deste artigo:
http://arthur.bio.br/2009/06/25/drogas/maconha-nao-e-porta-de-entrada-para-o-crack
Acontece que os comentários lá são moderados… vejamos se a RBS dará espaço para a contestação de uma informação que eles mesmo apresentam.
Pedi confirmação por e-mail caso o comentário seja aprovado. Logo saberemos.
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Atualização posterior:
Meu comentário nunca foi publicado.
Zero Hora censurou o debate.
Lógico que, antes de poder enviar o comentário, temos que concordar com os seguintes termos:
== Início dos termos. ==
O presente termo tem como objetivo informar as condições para a publicação de comentários em murais e matérias jornalísticas dos sites do clicRBS, na forma que se passa a expor:
É vetada a publicação de comentários que:
1. sejam falsos ou infundados;
2. invadam a privacidade de terceiros ou manifestamente os prejudique;
3. promovam racismo contra grupos de minorias ou qualquer forma de fanatismo político ou religioso, discriminando grupos de pessoas ou etnias;
4. sejam obscenos;
5. violem direitos de terceiros, tais como direitos de propriedade intelectual;
6. tenham conotação publicitária, promocional ou de propaganda, ou, ainda, que demonstrem preferência por alguma empresa ou marca;
7. promovam discriminação de qualquer natureza;
8. incitem à violência;
9. explorem medo ou superstição;
10. se aproveitem da deficiência de julgamento e inexperiência das crianças;
11. desrespeitem valores ambientais;
12. apresentem linguagem grosseira, obscena e/ou pornográfica;
13. tenham cunho econ?mico-comercial;
14. promovam “correntes” ou “pirâmides” de qualquer espécie;
15. violem a legislação pátria.
Reserva-se o clicRBS o direito de despublicar os comentários que não atendam aos padrões sociais, culturais e éticos que regem a matéria.
Fica estabelecido que o autor do comentário é inteiramente responsável pelo conteúdo nessa havido, quer perante o clicRBS, quer perante terceiros.
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O clicRBS não se responsabiliza por qualquer dano advindo dos comentários publicados.
Os usuários dos sites do clicRBS concordam com as regras contidas neste termo, e desde já autorizam a sua publicação pelo clicRBS, bem como por qualquer dos demais veículos do Grupo RBS.
== Fim dos termos. ==
Interessante:
1) “falso ou infundado” pode ser usado para negar publicação de praticamente qualquer coisa, basta divergir da RBS ou apenas apresentar uma opinião para poder ser encaixado nesta regra.
2) Mesmo um comentário verdadeiro e fundamentado pode ser “despublicado” caso não se encaixe nos “padrões sociais, culturais e éticos” exigidos… ou seja, basta ser considerado inconveniente para ser deletado.
3) O responsável por suas idéias é o internauta, a RBS não assume responsabilidade nenhuma, mas se reserva o direito de despublicar ou republicar a opinião do internauta em qualquer de seus veículos, a qualquer tempo, sem consultar ou informar o autor do texto. Show de equilíbrio entre direitos e deveres.
*Legalizando as drogas vai deixar de haver contrabando de drogas?, Ou vai simplesmente acontecer o que acontece com os cigarros, onde o cigarro brasileiro é mais de 50% mais caro que o cigarro do Paraguai, o que incentiva o contrabando de cigarros. E a pessoa que quiser usar drogas vai comprar em um ponto de venda legalizado onde a droga vai ir com um monte de imposto embutido, ou vai ir comprar com o traficante onde vai ser bem mais barato. Vai ser igual ao cigarro vai ter uma banca em cada esquina.
*Essas pessoas que você fala que são desamparadas pelo estado são as mesmas que correm para o SUS para pedir tratamento quando não agüentam mais, tirando a vaga de quem não usa drogas trabalha e paga seus impostos.
*Se as drogas forem legalizadas quem vai sofrer diretamente com isso vai ser as pessoas que moram em bairros mais pobres, onde facilmente se encontra 3 ou 4 vagabundo fumando droga a cada esquina,
*Comparar Holanda com EUA, hahahaha, você já olhou no mapa o tamanho da Holanda a extensão de fronteira. O que é mais fácil controlar um pequeno pais ou um monstro como os EUA. Se a resposta for “não é bem assim”, então fica evidente que tem alguma coisa muito errada com o discurso moralizador das drogas.
*Que fique bem claro que não sou a favor dessa campanha da RBS, que na minha opinião a campanha não atinge as pessoas que são para atingir, o que adianta ficar falando na TV crack nem pensar, nem sei se essa gente ainda tem TV ou já passaram por uma pedra.
* Promover educação universal de boa qualidade. Isso é uma medida em longo prazo, agora como tu vai resolver a questão do meu vizinho que tem 28 anos e 2° serie do fundamental. Que é viciado, nunca gostou de fazer nada; esses dias ele falou que acha que esse caras que tem carro devem ser roubados, ai eu perguntei o por quê? Ele falou “CI PA QUE TEM QUE SE MESMO ELES TEM”.
*Infelizmente uma solução eu não tenho, sou sincero. Mas reconheço uma solução ruim quando eu vejo.
Sílvio, tu já viste uma quadrilha de contrabandistas dominar morros, metralhar viaturas e abater helicópteros? Não? Então, tchê, é muito melhor lidar com contrabandistas do que com traficantes.
Eu fico impressionado é com a ingenuidade de achar que “vai ser igual ao cigarro vai ter uma banca em cada esquina.” Não “vai ser” assim, já é assim. A proibição nunca evitou que houvesse uma boca em cada esquina, só gerou a necessidade de proteger esses pontos de venda através da violência e da corrupção. Legalizar não vai necessariamente eliminar as bocas, mas certamente vai eliminar a violência e a maior parte da corrupção.
Quanto ao SUS, ele é para todo mundo. Ninguém vai te perguntar se tu comias doces exageradamente para decidir se te trata ou não de uma diabetes, ninguém vai te perguntar se tu foste fumante para decidir se te trata ou não de um câncer, ninguém vai te perguntar se eras sedentário ou não para decidir se te trata ou não de uma insuficiência cardíaca e ninguém vai te perguntar se usavas drogas ou não para decidir se te trata de qualquer doença.
Analisando pelo lado prático, se ter se exposto a algum risco fosse critério para decidir pelo atendimento ou não pelo SUS, processos investigatórios monstruosos seriam necessários, fortunas seriam gastas nisso e inúmeras injustiças seriam cometidas.
Analisando pelo lado ético, esta proposta implica que o indivíduo que diverge da orientação do Estado em sua vida privada deixe de ter garantidos seus direitos mais básicos. Tu mesmo não queres viver em um mundo assim.
Quanto ao tamanho de EUA e Holanda, que diferença faz? Eu deixei bem claro que percentualmente existe uma imensa diferença. Mas pode comparar a Holanda com qualquer estado continental contíguo dos EUA, para lidar com áreas e populações menores, que o resultado é o mesmo.
E não é a proibição que vai resolver os problemas do teu vizinho.
O fato é que a proibição é uma medida contraproducente. Se ela fosse somente ineficaz, tudo que se estaria perdendo seria tempo e dinheiro, mas ela piora – muito – todos os problemas que diz tentar resolver.
Legalizar não é uma solução ruim – é o início da única solução real.
Longo, polêmico e profundo! Como um bom jogo de xadrez! Não sei se o meu rei e seus dois peões podem algo contra o rei adversário e seus cavalos e torres e bispos. Quando algo acontece é porque alguém está ganhando dinheiro com isto. E, quando algo não acontece, também, é porque alguém está ganhando dinheiro com isto. A ilegalidade dá mais lucro. A educação falha e a saúde precária são lucrativas. Uma população sem informações e sem qualidade de vida alimenta o desejo de fuga. O rei inimigo conta com peças em todas as esferas. Há lindos discursos mas não o interesse em mudar a realidade lucrativa. As campanhas que aparentemente querem mudar o sistema não são mal intencionadas, só não têm peso político. Não há ninguém lá em cima com vontade real de meter a mão nesta cumbuca. E nós, quem somos? o que fazemos? quanto pesamos, quantos nos ouvem? quantos peões somos?
“Longo, polêmico e profundo!”
Tá, um puxão de orelhas e dois elogios registrados.
“A ilegalidade dá mais lucro.”
Sim, esta é a chave da questão. Dá mais lucro para políticos corruptos, para policiais corruptos, para juízes corruptos, para advogados corruptos, etc. E o pior é que muitos dos profissionais “honestos” destas categorias não cometem crimes diretamente, mas se beneficiam pela existência do crime e conseqüentemente se omitem quando deveriam se manifestar e lutar pela moralização de suas profissões.
“Há lindos discursos mas não o interesse em mudar a realidade lucrativa. (…) Não há ninguém lá em cima com vontade real de meter a mão nesta cumbuca.”
Por que eles fariam isso, se resolver os problemas só reduziria seus lucros e colocaria o povo em melhor situação econômica e social, portanto menos manipulável?
Mas eu estou planejando algo politicamente que pode ser interessante. Por enquanto vou fazer suspense, mas quando estiver pronto – daqui a alguns meses, espero – será anunciado aqui no blog.
A curiosidade é a mãe da descoberta. O suspense é o pai!
É, mas quem vai parir a idéia sou eu.
Arthur, rouba um pouco do teu tempo e lê uma postagem no meu blog, de maio de 2008, chamada MEMÓRIA DE UM HOMEM. Um amigo meu, que trabalha com cinema, me pediu um texto pra um documentário sobre as influências do pensamento nazista incutido na cultura catarinense, disfarçado de bairrismo (ou não tão disfarçado) o tal da “nossa terra, nossa gente”… abordei o lado político, pensando o micro, pra chegar no macro… O texto é pra lembrar nas mãos de que debilóides estão os programas sociais, e outros…
“O texto é pra lembrar nas mãos de que debilóides estão os programas sociais, e outros…” (Camargo)
http://sombrapensante.blogspot.com/2008/05/memria-de-um-homem.html
Ô, e como isso é verdade, Camargo! (Só me conta quanto foi o merchandising da Staroup.)
Gostei muito do texto e me pus a pensar aqui… não vai ser mole vencer estes ranços na política nacional…
Tens como acrescentar no teu blog um widget de textos aleatórios? Trazer estes textos para a primeira página seria excelente, estas pérolas não podem ficar escondidas lá no fundo das postagens antigas!
rapaz… prometo que vou procurar ajuda pra fazer isso. Sou muito pobre em tecnologia, mas creio que meu filho pode ajudar, até pq, eu já gostaria de fazer isso e nem sabia que era possível.
A staroup foi mencionada porque o fato é real. Um prefeito de uma cidade pequena aqui da região (que mais tarde perdeu o mandato) foi o inspirador do personagem do texto. Um amigo meu era secretário da educação da cidade na época.
A história é real?
Minhanossasenhora…
Olha, se não for possível fazer isso no blogspot (não pesquisei, mas os blogs gratuitos normalmente limitam as ferramentas que podem ser instaladas) e se quiseres colocar o teu blog em um servidor próprio, com ampla liberdade de instalar o que quiseres, podes comprar um domínio e transferir todo o teu conteúdo para a Hostnet, não é caro.
Este blog me saiu trinta pila o domínio e mais uns duzentos pila de anuidade. Tive uns probleminhas técnicos, mas até que está tudo saindo bem agora, a Hostnet tem um bom atendimento ao cliente.
Seu comentário no meu blog me trouxe até aqui. Sem babação de ovo, mas esse teu post foi um dos melhores que já li sobre o assunto desde quando fui alfabetizado (e olha que faz tempo!). Não falta NADA. Parabéns!
E teu blog vai lá pra minha listinha. Agradeço ao Hermenauta a graça alcançada, rs.
Vinícius, muito obrigado pela visita e pelo elogio!
Gostei muito do teu blog também, já comecei a te incomodar por lá.
Pessoal, recomendo o blog do Vinícius, o “Com Fel e Limão”. Cliquem no nome dele e confiram.
Este texto me fez repensar muita coisa.
Sempre acreditei que a solução era baixar o porrete e encher cadeia.
Mas venho percebendo que não adianta – para cada traficante que sai de circulação aparecem cinco; para cada viciado morto surgem mais dez. E assim vai.
É como matar baratas sem investir em higiene. Enquanto o principal não for combatido tudo só tende a piorar.
Ótimo trabalho Arthur. Ganhou um fã.
Abraço.
Shikus, muito obrigado!
E, a propósito, parabéns!
Muita gente acha que “ser coerente” significa “manter sempre a mesma opinião”, mas isso é uma visão ingênua e freqüentemente perigosa. Se eu percebo que minha opinião de que 2+2=5 não corresponde aos fatos, mudar de opinião é a coisa mais coerente a fazer. Isso porque a verdadeira coerência é a coerência com a verdade.
Muitas pessoas, quando percebem que as idéias em que acreditavam não são adequadas a seu novo nível de compreensão da realidade, entram em negação. Preferem orgulhar-se de sua inflexibilidade ao invés de orgulhar-se de sua capacidade de adaptação, sem perceber que a história dos dinossauros é um exemplo bem representativo do que acontece com quem não acompanha as mudanças do mundo.
Poucos são os que desenvolvem um equilíbrio adequado entre defender suas opiniões com firmeza e manter a mente aberta a novas idéias. Aqueles que fazem isso com lucidez e senso crítico são os que mais ajudam a promover o progresso com responsabilidade.
Olá Arthur,
Esse seu texto me lembra uma discussão que tive há um tempo atrás com um cidadão que alegava que as drogas deveriam ser todas legalizadas com a finalidade de promover a paz social definitiva.
Você toca realmente na problemática: embora causando os malefícios que causa e optando pelo caminho do crime, muitos jovens preferem ir por esse lado porque a eles não restou alternativa melhor. Essa campanha, como outras, mantém sim um viés fascista, excludente e de demonização do viciado, do traficante e da droga. É revoltante que a grande mídia tenha se resumido a uma midia de mercado, pelo pague-e-manipule e desinformação. Já não vemos uma campanha nesse mesmo viés com os políticos, talvez pelo medo de um represália legislativa.
Por fim, concordo plenamente com os propósitos de uma legalização consciente, cujos objetivos seriam informar e discutir a problemática.
Abraço!
Marcus, muito obrigado. Ajuda a divulgar este texto, quanto mais gente deixar de “nem pensar”, melhor. Se tem algo que precisamos urgentemente neste campo é de debate qualificado, o que a doutrinação dessa campanha tragicamente desestimula.
Cara se toca meu tu que pelo geito se acha o melhor ñ se toca no que escreve ai você até diz q o crack é atraente!!!!Isso sim estimula o uso do Crack você deve conscientizar as pessoas que o crack é um caminho sem volta!!!!!
Pablo, antes de criticar aprende a pensar um pouco: é óbvio que o crack é atraente. Se não fosse, não seria problema. E se achas mesmo que o meu artigo pode “estimular o uso do crack”, é porque estás opinando sobre um assunto que não conheces.
você é contra repreender o tráfico? a favor das drogas? sim com as drogas legalizadas vai acabar com trafico, diminuir a violência nas favelas entretanto as drogas fazem mal a saúde vicia é um caminho sem volta para grande maioria do usuarios(sendo assim esse é ou será seu futuro
um jeito mas simples e menos perigoso seria repreender usuários de drogas com penas rígidas e invés de direcionar a polícia as “vítimas da sociedade”(haha eu ri) direcione pra os drogados como você que sabem os malefícios, incentivam ou outros a usarem e ainda acham que estão fazendo uma coisa correta(um absurdo eu sei) e principalmente finaciam o tráfico.
Então essa minha ídeia é mais barata pra o governo, mais eficaz e além de tudo não machuca as “vítimas da sociedade”.
Paulo, 100% dos defensores da legalização das drogas sabem muito bem que as drogas fazem mal à saúde. Não há nenhuma novidade nisso.
Se tu achas que eu uso drogas, ou se achas que eu não uso, ou se não achas nada, o problema é teu, não meu. Isso não faz a menor diferença para a causa que eu defendo.
Penas mais duras para o usuário já foram tentadas em inúmeros países, até mesmo com prisão perpétua e pena de morte, sem resultado. Estratégia falida, além de absurda: é absolutamente irracional punir alguém por achar que esse alguém está fazendo mal a si mesmo.
E não há graça alguma em reconhecer que muitos traficantes são vítimas da sociedade, pois isso é exatamente o que acontece, como está claro no texto.
pq vc acha que vai ser barato para o sus banca com as consequencias da maconha, cocaina, crack, lsd (e outras ai que vc concerteza conhece)? caso você não saiba só o álcool e o cigarros já dão um rombo nele, você acha que o imposto do cigarro é tão alto pq?
Até parece que o SUS teria algum novo custo…
A propósito, aí no teu planeta o SUS não arca com as piores conseqüências da proibição das drogas, que é lidar com os feridos pela “guerra contra as drogas” e todos os demais envolvidos nas guerras internas pelo poder no tráfico de drogas?
Olá, Arthur! Gostei do que vi no seu blog e espero que as discussões sobre este assunto consigam provocar ações concretas para uma organização melhor desta sociedade tão conturbada. Achei interessante que a legalização das drogas tenha chamado mais a atenção dos comentaristas do que a promoção da educação de alta qualidade. Para mim fica claro o quanto ainda teremos que nos voltar para a educação, a começar por nós mesmos, e brigar para melhorar aquilo que realmente terá um significado positivo sobre as drogas. Mas o que vejo é um comodismo muito grande de todos e muitas vezes é preferível falarmos em campanhas infundads, do que realmente arregaçarmos as mangas e botar a mão na massa. Concordo que a educação é o meio para conseguirmos melhorar esse caos,e a discussão é válida, mas sinto falta de atitudes verdadeiras. Exemplos a serem seguidos.
Ariana, obrigado pela visita e pelo elogio. Volta sempre.
O problema de tomar “atitudes verdadeiras” é que as atitudes que devem ser tomadas em relação a alguns temas são dependentes de legislação e de estrutura e funcionamento do Estado. E nessa história o Estado só tem atrapalhado.
Por exemplo, se um professor levar este texto aqui para discutir em sala de aula com seus alunos, qual achas que será a repercussão? E qual achas que será a postura do Estado ao avaliar o caso?
Então, o que fazer? Cruzar os braços e abafar a situação? Ou levar esse texto para a sala de aula, sala da comunidade, sala de casa, sala do trabalho e começar a incomodar o Estado diante de um problema que não vai poder ficar debaixo do tapete por muito tempo, pois a sujeira está se acumulando e crescendo? A insatisfação é importante para que seja mudada a realidade, que neste momento é vergonhosa. Eu estou insatisfeita, acredito que outras pessoas também. E isso é o começo, podendo ser uma atitude verdadeira.
Não, nada de cruzar os braços, só que devemos estar preparados para lutar contra um leviatã (o Estado) apoiado por uma turba acéfala incapaz de pensar criticamente e manipulada por uma mídia que em sua busca de lucro só diz o que o povo quer ouvir. (Duvido que desde a publicação deste artigo ninguém tenha enviado o link a alguém da RBS.)
Muito bom o texto…um dia eles caem na real….afinal enxugar gelo nunca foi uma atitude inteligente…ja passou da hora de tentar novas alternativas
o grande problema do nosso pais é esse povo ignorante e facilmente manipulado pela midia
José, muito obrigado pela visita e pelo elogio. De fato, o nosso sistema pode muito bem ser definido pela expressão que usaste: “enxugar gelo”. O terrível é que tem muita gente que acredita piamente que um dia o gelo ficará seco através dos atuais métodos. É triste.
Gostei!
não conhecia o blog, descobri pelo twitter…
só na internet mesmo pra encontrar informação de qualidade.
Luna, obrigado pela visita e pelo elogio, mas lembra que o que eu digo também está aberto a críticas (de preferência construtivas).
Volta sempre!
Arthur, gostei da maneira como escreveste o texto.
Por curiosidade, pra entender teu ponto de vista, gostaria de saber que tipo de trabalho tu realizas com a populaçao “de baixa renda” ? Li que és biólogo, e `pelo texto acredito que tenhas algum tipo de compromisso pela área da saúde.
Só gostaria de dizer aqui que abuso de drogas E drogadiçao (uma vez que abuso de drogas nao se refere necessariamente ao vício) sao sim tratados como assunto de saúde pública.
E que se investe em prevenção, redução de danos e programas de reinserção sócio-econômica para os usuários. No entanto, devido a violência que jà existe, é necessário, para a própria segurança dos agentes da saúde, a intervençao da polícia em muitos casos.
E no caso da legalizaçao, que poderia ser a chave para combater a violencia, como sugeres trabalhar com a conscientizaçao (ou seja prevençao, reduçao de danos e programas de reinserçao, que sim, FUNCIONAM)de jovens contra o uso de drogas?
Janice, obrigado pela visita e pelo interesse manifesto.
Eu estou funcionário público na área da saúde, mas não pretendo permanecer assim por muito tempo. Estou cansado da burocracia, da politicagem, do desperdício de recursos, da falta de resolutividade, do descaso generalizado. Cansei de vender minha alma por um salário de subsistência.
Não foi via serviço público que entrei em contato com a questão das drogas, mas vendo diversos conhecidos morrerem, irem presos ou simplesmente desaparecerem sem nunca mais ter notícias deles. Decidi escrever um livro sobre o mundo das drogas, mas achei que precisava pesquisar um pouco mais… e passei cerca de uma década fazendo isso.
Parei com a pesquisa quando fui surpreendido por dois tiroteios em dois dias seguidos e percebi que estava investindo todo meu tempo livre e correndo riscos absurdos para escrever um livro que seria rapidamente contestado por algum “especialista” que espertamente proclama quaisquer os absurdos que as pessoas queiram ouvir para reforçar uma visão de mundo preconceituosa. Decidi cuidar melhor de mim mesmo para poder continuar a trabalhar pelo que acredito.
Sugiro trabalhar sempre com a verdade. Cadê as campanhas dizendo que a droga causa prazer? Sem essa informação básica, tudo perde completamente o sentido.
Quem não entende que o uso de drogas é uma atitude muitas vezes desesperada em busca de alívio ou prazer não tem condições de entender o mundo das drogas e sai por aí dizendo as besteiras que normalmente ouvimos sobre “penas mais duras para o usuário”, “implantação da pena de morte” e quejandos.
Recomendo a leitura deste artigo: http://arthur.bio.br/2009/07/23/drogas/maconha/por-que-as-reportagens-sobre-a-maconha-sao-tao-tendenciosas-parte-1 (Ih… acabo de perceber que nunca publiquei a segunda parte da análise. Vou ver se faço isso esta semana.)
E qual é a grande verdade sobre as drogas? É que as drogas não são nada mais que substâncias que podem ser bem ou mal utilizadas, inclusive para propósitos lúdico-recreativos, dependendo de uma série de fatores psicológicos, sociais e econômicos, não correspondendo de modo algum à imagem de “instrumento do demônio” que a maioria dos “formadores de opinião” tenta passar.
Enquanto o assunto “drogas” for tratado com base no preconceito e enfrentado com fundamento em idéias fascistas (como explicado neste artigo), não vejo a menor possibilidade de encontrar uma solução para todo o sofrimento a ele associado.
Acabo de descobrir que o pessoal do site psicotropicus.org disponibilizou uma parte deste artigo e indicou a leitura com um link: http://www.psicotropicus.org/publicacao/181 Agradeço a indicação.