Siga-me no Twitter: @arthur_bio_br

Links diversos

Como qualificar o ensino público

Recompensa pela eficiência e obrigatoriedade de compartilhamento do know-how para que os outros possam adotar as metodologias mais eficientes, eis uma fórmula de incentivos que geraria busca de qualificação ao invés de greves para remuneração da ineficiência. 

Pague-se um bônus escalonado aos professores de escolas públicas que percentualmente tiverem mais alunos aprovados em vestibulares de universidades públicas, condicionando também este bônus à manutenção de uma página na internet com a descrição de sua metodologia de ensino. Esta página seria hospedada gratuitamente em um portal de educação bancado pelo Ministério da Educação e aberta universalmente a consultas e comentários.

Idealmente a página conteria uma listagem com o nome dos duzentos professores com melhor aproveitamento no país e suas respectivas escolas. Denúncias de que os métodos e equipamentos realmente utilizados diferem dos descritos seriam apuradas in loco e se verdadeiras seriam punidas com demissão do serviço público por fraude e crime contra a economia.

Evidentemente eu não acho que o único fator de qualificação do ensino público seja este, é bom registrar antes que alguém me acuse de supersimplificar a questão. Entretanto, esta pode perfeitamente ser a única política inicial a ser implementada no setor da educação pública.

Quando começarem a surgir as listas no portal do Ministério da Educação mostrando quem são os duzentos professores com melhor aproveitamento no país – e portanto com maior bônus – a grita pela disponibilização dos mesmos recursos de que eles dispõe será imensa, fazendo os professores a finalmente lutarem por metas concretas ao invés de pedirem “melhores condições de trabalho” hipotéticas, baseadas em autores preferidos por afinidade ideológica ao invés de resultados comprovados.

Se alguém tiver coragem para implementar algo assim, vamos finalmente parar de ouvir aquelas reclamações e chorumelas no estilo “o professor não pode se apresentar como detentor do saber, ele é apenas um facilitador de aprendizado para o aluno, que tem que construir seu próprio conhecimento de acordo com sua realidade específica blá-blá-blá cidadania blá-blá-blá esquerdismo rasteiro blá-blá-blá pombo” e similia similibus enrolandur.

Detalhes técnicos

Método de cálculo do bônus: encontra-se a mediana da distribuição percentual de aprovação entre todos os professores de escolas públicas do país, atribui-se 1% de bônus a este e traça-se uma linha reta entre este ponto e um hipotético professor com 100% de alunos aprovados com 100% de aproveitamento em sua matéria, que recebe um bônus equivalente a 200% do seu salário ao longo do ano seguinte, inclusive 13° e férias. Os demais entre a mediana e o máximo teórico recebem bônus linearmente proporcionais a seus percentuais de aprovação e ponderados segundo o aproveitamento dos alunos em sua matéria. Zera-se a tabela e refaz-se o cálculo anualmente.

Quem entra no cálculo: somente alunos que permaneceram durante todo o ensino médio na escola pública e os professores que de fato deram aulas diretamente a eles nos anos em que tenham sido aprovados.

Ponderação dos resultados: para evitar parasitismo de um mau professor sobre os resultados obtidos pelos outros da mesma escola, o bônus é calculado pela proporção da média de acertos em sua disciplina de todos os seus alunos aprovados no vestibular.

.
Aviso anti-aporrinhação:

Isso aqui é um artigo escrito em uma hora e pouco, com o propósito de apresentar o princípio geral de uma estratégia de qualificação do ensino púbilco. Eu tenho plena consciência de que uma proposta completa ocuparia algumas semanas de trabalho e que obviamente há inúmeros detalhes que não foram pensados, como a questão das licenças-saúde, licenças-prêmio e licenças-maternidade, só para citar um exemplo óbvio. Atire suas pedras na vidraça certa, que é o mérito da proposta, não em picuinhas técnicas facilmente contornáveis.

E antes que alguém questione o fato de eu ter focado somente no ensino médio, ora, a mesma técnica é aplicável ao ensino fundamental, basta inventar um modo de ordenar os alunos por aproveitamento em nível nacional. Assim como existe o ENEM, cujo resultado tem algum peso para ingressar na universidade pública, poderia haver um ENEF, cujo resultado teria algum peso para o estudante escolher uma escola pública de melhor qualidade em que se matricular para cursar o ensino médio. Mas isso é picuinha técnica facilmente contornável.

::

Artigos Relacionados:

  1. Educação doméstica (homeschooling) versus a péssima qualidade de ensino no Brasil
  2. Meus filhos não irão à escola!
  3. Como privatizar os presídios e penitenciárias com ótimo resultado!
  4. Como trazer de volta o futebol da década de 1970

9 comments to Como qualificar o ensino público

  • ACC

    Muito bom artigo, muito boa idéia!
    Que tal enviar para a câmera de deputados para ver se alguma alma iluminada de lá abraça?

    Para quem não entendeu ao ler, os valores são hipotéticos e precisam de serem trabalhados e respeitados todas as variáveis e situações possíveis.

    Parabéns Arthur!

    • ACC, muito obrigado!

      Pensei em sugerir o envio do link aos parlamentares e divaguei… imagina se o Congresso Nacional tivesse um blog em que cada deputado e senador pudesse postar como autor de artigos, aberto aos comentários da população… :)

      Grato pelo acréscimo do alerta!

  • asnalfa

    Tb adorei a ideia. Poderiam dar prêmio em dinheiro pros melhores alunos no final do ano/mês. Isso daria incentivo pros outros.
    Mas se depender do governo e do povo que temos, sempre seremos lanterninha nas provas do Pisa.

    • Prêmio para os melhores alunos seria uma idéia se pudéssemos evitar distorções como pagar bons prêmios para alunos com ótimas condições financeiras que estejam matriculados em escolas públicas. Será que seria possível organizar um sistema tão grande assim sem dar margem a muita corrupção? Eu duvido.

      (Não é um inferno que uma ótima idéia não possa ser implementada porque previsivelmente vai estimular a corrupção?)

  • Uma sistemática complexa mas analisável para aplicação também em outros setores. O paciente que sai de uma consulta, em um serviço público, pode dar uma nota ao atendimento que acabou de receber. O médico seria pago segundo uma fórmula proporcionada pelo número de consulta e pela média da avaliação recebida. O médico se sentirá estimulado a cumprir horários e a atender melhor os seus paciente. Com um melhor atendimento melhora a resolubilidade dos problemas e minimiza o retorno por não solução. Claro que o padrão dos medicamentos oferecidos pelo serviço público deve corroborar este método. Aqui há um ladrão (figurado e explícito)que não tem interesse que os medicamentos similares sejam banidos. Definições e diferenças vide no Cágado: http://romacof.wordpress.com/2009/10/30/o-que-voce-deve-saber-sobre-os-medicamentos-que-consome/

    • Romacof, tomei a liberdade de editar os últimos parênteses e de transformar seu conteúdo em uma frase, porque o parêntese final estava sendo considerado parte do link, quebrando-o. Agora o link está direcionando para o teu artigo corretamente.

      Qualquer atividade econômica – e portanto qualquer exercício profissional – está sujeito a incentivos e desincentivos de mercado. Eu dei o exemplo do ensino público, mas poderia ter escrito algo semelhante sobre a medicina, claro. Basta identificar qual exatamente é o comportamento efetivamente estimulado pelo incentivo. Em muitos casos pode acontecer algo surpreendente e contraproducente se não implementarmos um conjunto coerente de incentivos e desincentivos. (É o caso da política, em que os incentivos e desincentivos promovem aos mais altos cargos o pior material humano que há, disposto a todo tipo de imoralidade para locupletar-se.)

  • Victor

    O pior é ter a certeza de que isso nunca vai acontecer.
    Os governantes se fazem de cegos à sujestões como estas. Afinal, estão muito ocupados trabalhando duro para aumentar os próprios salários.

  • Interessante assistir o biólogo que vive malhando os economistas apresentar um artigo em que propõe a utilização da mais fria e insensível lógica econômica e o estímulo à competição acirrada nos moldes liberais imposta de modo vertical e tecnocrático para resolver um problema que a maioria procura resolver através de investimento em qualificação profissional e geração de oportunidades, com diretrizes democraticamente construídas através da participação popular. :)

Leave a Reply

 

 

 

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>