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Aquilo que o Estado não regula o crime organizado regula

Eu tenho dito nos últimos anos que “é necessário legalizar e regulamentar de modo inteligente todas as drogas, desde a produção até o consumo, passando obviamente pela distribuição”. Volta e meia alguém rebate: “mas, Arthur, espera aí, você quer legalizar e regulamentar as drogas ao invés de combatê-las? Você ficou doido?” Não, nem um pouco. Loucura é insistir no atual sistema proibicionista, que já demonstrou sua completa falência e perniciosidade, que gera violência, corrupção e sofrimento.

Olhe em volta e me diga se a proibição está promovendo algum benefício. Olhe em volta e me diga se a situação está melhorando ou se cada vez mais estamos todos acuados pela violência e pela corrupção. Olhe em volta e me diga se parece que estamos indo no caminho certo.

Se nós não fizermos leis inteligentes para regular a produção, a distribuição e o consumo das drogas recreativas – e eu estou falando de todas elas, da maconha ao crack, da ayahuasca ao ecstasy, do peyote à heroína – quem continuará regulando este mercado será o crime organizado. Onde falta o Estado surge um Estado.

Que Estado queremos?

O ranço autoritário há muito permeia o trato da questão das drogas no Brasil. Como eu mostrei no artigo “O Jogo dos Sete Erros: campanha “Crack Nem Pensar” da RBS vai aumentar a violência no RS e em SC“, a criminalização do uso e do comércio de drogas se sustenta sobre um ideal fascista. A maior parte das pessoas reproduz este discurso sem sequer perceber: todos querem definir o que o outro deve achar certo ou errado. Porém, por trás do discurso de que “não pode porque faz mal” não existe uma legítima preocupação com o bem-estar alheio e sim uma simples imposição moral.

Se estivermos realmente preocupados com o bem-estar das pessoas vitimadas pelas drogas, temos que lembrar que não é das drogas que elas são vítimas em primeiro lugar e sim do desamparo familiar e estatal, de um sistema econômico desumanizante, de uma ideologia abominável e de uma sociedade sem valores solidários.

Temos que parar de fechar os olhos para as questões feias e perturbadoras, deixar de negar a realidade e assumir responsabilidades.

A principal urgência hoje é reassumir o controle do mercado de drogas recreativas através de uma legislação inteligente, que altere a racionalidade econômica do tráfico de drogas, feita sem a interferência de ideologias fascistas que pretendem ditar a moralidade que o cidadão deve seguir.

Paralelamente à retomada do controle deste mercado temos que repensar o gerenciamento que damos à economia e à educação, em grande profundidade, para eliminar as causas que levam grandes contingentes de nossa juventude a interessar-se pelo consumo ou pelo comércio de drogas.

É absolutamente impossível construir uma sociedade simultaneamente livre e sem drogas. Ou investimos na liberdade, na justiça social, na qualidade de vida e na educação, construindo uma sociedade em que cada cidadão terá sua dignidade afirmada e aprenderá a decidir de modo consciente e bem informado o que é melhor para si, ou investimos na repressão onipresente, na intolerância, no controle sufocante do Estado e na subserviência da população, confiando que nossos honestíssimos, altruístas e incorruptíveis políticos definam sabiamente o que é melhor para cada um de nós em todas as esferas de nossas vidas. O que você prefere?

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 06/11/2009

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5 comments to Aquilo que o Estado não regula o crime organizado regula

  • Já que o Estado se sente incompetente para administrar a questão das drogas, poderia terceirizar o problema! Contrata a traficália! Já está organizada, obedece a uma hierarquia, dispõe de armas de última geração, tem uma rede eficaz para distribuição de seus produtos, absorve no peito os prejuízos ocasionais nas investidas da PF, dá amparo a seus protegidos, e até faculdade de direito se o neguinho quiser. Só falta todos sentarem em volta de uma mesa para definirem as regras, determinar os impostos, abrir um fórum para discutir os casos que possam gerar violência, determinar as cotas que devam ser aplicadas em questões sociais, os limites etários dos usuários, e as multas pelo não comprimento de partes do acordo. Logo teríamos o PMTL (Partido Moderador do Tráfico Legalizado) que auxiliaria o governo no combate contra as minorias que insistissem em permanecer na ilegalidade. Depois seu peso na representatividade parlamentar seria determinante nas alianças que permitiriam a governabilidade. O presidente poderia posar ao lado do Senador Zé do Pó, fumando um baseado, tudo numa boa. Isto, Arthur, de educação, investir nesta coisa, criar caras muito esclarecidos… não sei não! Isto além de sair caro e dar trabalho, pode fazer que os carinhas estudem, comecem a pensar, fiquem perigosos, e com certeza isto vai gerar violência. Sabe! Massa burra é mais maleável. Cabe em qualquer formato. Acredita em tudo! Até vota!

  • Impressionante só uma pessoa ter comentado este post, deve ter muita gente praticando a filosofia do avestruz.

    Quem sabe se alguém transformar o post do Arthur em letra de funk os comentários se multiplicam?

  • uahuhauhauha,

    em uma ilha deserta a gente poderia fazer as nossas leis pelo menos!

    Muito bom o texto apesar da baixa repercussao, é um texto para fazer os tao decididos a favor do proibicionismo na parede, pensando se a moral deles vale mais que a vida de um monte de gente que morre no Brasil com vicio na mao de traficante.

    O traficante em si nao eh o pior ser do mundo, na verdade ele vende aquilo que eh ilegal… o sistema o transformou em uma entidade violenta devido a nao regulamentacao do comercio presente…

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