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Darwin explica

O Vinícius, no post “A Cizânia“, relatou um bate-boca chulo que quase acabou em pancadaria entre dois motoristas que se encontraram no trânsito em frente à casa dele. Acho que o episódio é tão representativo dos resultados do “progresso” que merece uma análise mais profunda. 

Comparando seu outrora pacato bairro residencial a uma aldeia gaulesa invadida pelos romanos, o Vinícius diz assim:

O cenário é aterrador: uma fila monstro de bigas, de uns 200 metros. Todos aguardando a abertura do semáforo. E os dois – um senhor de barba branca e um rapaz de uns 30 anos – ali, se xingando, bem na porta da minha casa. O velho faz menção de sair e partir pra agressão; buzinas são acionadas, e me sinto como se minha casa tivesse sido transplantada para a Vinte e Três de Maio.

O último reduto caiu. Ainda sou acordado ao som de um galo velho (desafinado como Chatotorix), mas os romanos estão por toda a parte: invadiram a vila gaulesa com suas bigas enormes e edificações monumentais. Estamos cercados. Obelix foi morar no Campo Limpo – ele diz que é “Morumbi Sul” -, depois de vender sua fábrica de menires a César. Este, cansado de apanhar, encontrou a fórmula para nos destruir: infiltrando-se, tornando-se “um dos nossos”, comprando nossa tranquilidade com seu dinheiro, jogando-nos uns contra os outros. “É o progresso”, ele diz.

Aí estão dois parágrafos que eu gostaria de ter escrito. O Vinícius captou com precisão e relatou com maestria a degradação do ambiente urbano – e ironicamente da “urbanidade” – decorrente do próprio “desenvolvimento” urbano. O “progresso”, como ele reconhece na voz de César.

Eu lancei esta réplica:

Mas nem tudo está perdido. Alguns de nós já estão fazendo o caminho inverso, abandonando as metrópoles para ir morar nas aldeias, em busca de espaço para assar seus javalis na fogueira, para as crianças correrem soltas pelo meio das ruas sem risco de atropelamento, para convidar o vizinho que passa carregando as compras a sentar e tomar um chimarrão e ter o prazer de sua companhia por meia hora, pois ele realmente aceita o convite.

O Vinícius lançou esta tréplica:

O problema nem é tanto o tamanho da aldeia, mas o desequilíbrio e a selvageria que chega junto com os romanos.

Então, quando eu estava no meio do comentário seguinte, percebi que tinha abandonado o assunto do post, derivado para uma discussão sobre a influência da biologia evolutiva no comportamento do homem moderno, lembrei da pergunta que o Vinícius fez sobre eu estudar sociologia observando ratinhos em uma gaiola e achei melhor viajar na maionese aqui no Pensar Não Dói para não ser confundido com os romanos… :)

Finda essa brevíssima introdução, o que eu queria dizer ao Vinícius é que o desequilíbrio e a selvageria que chegam junto com os romanos têm uma forte correlação com o tamanho da legião, pois em geral uma decúria faz muito menos estrago que uma centúria. Mas tinha que ter mais uma explicaçãozinha para o artigo valer a pena…

A influência da escala de organização nos padrões de comportamento

A influência do tamanho das aglomerações urbanas nos níveis de estresse e violência tem muito a ver com nossa herança evolutiva, criaturas biológicas que somos. Durante muitas centenas de milhares de anos nós Homo sapiens evoluímos como caçadores tribais. Nossos cérebros foram selecionados para colaborar com aqueles que reconhecemos como colaboradores próximos e para reagir com violência à presença de desconhecidos.

O caçador tribal que visse um estranho, largasse a lança, mandasse beijinhos e partisse pro abraço terminaria esquartejado e seu crânio seria usado como tigela de sopa. É por isso que nós temos naturalmente a tendência de desconfiar de desconhecidos e ter pouca tolerância com seus atos, o que a educação e a cultura não conseguem abafar com eficiência. E talvez seja por isso que a Mafalda não gosta de sopa, mas divago.

Babacas no trânsito, desacostumados a exercitar as regiões mais nobres do neocórtex, rapidamente regridem ao comportamento de um neandertal ao se encontrarem com desconhecidos em situação de conflito. O mesmo ocorre nos encontros entre “tribos rivais”, como torcidas de clubes distintos.

Você nunca parou para se perguntar por que raios fazemos “amizade instantânea” com pessoas de nosso país que encontramos aleatoriamente em outros países? Pois bem, saiba que isso é resultado do mesmo fenômeno que gera as brigas de trânsito: é o velho neandertal dentro de nosso crânio falando “groof, grunf, graaagh”, o que em tradução livre significa “ei, esse cara é da minha tribo”.

Quanto maior a aglomeração urbana, maior a pressão para exteriorizar os comportamentos arquetípicos de colaboração com os colaboradores mais próximos e violência contra os desconhecidos, pois maior é a proporção de desconhecidos ao redor e mais tenso se sente o neandertal que ainda vive em nossos genes e dentro de nosso crânio.

É portanto perfeitamente esperável que aquele mesmo babaca do trânsito, cuja cabeça queríamos remodelar com uma chave de roda, ou o sujeito com a camisa do time rival, cuja simples presença seria irritante nas arquibancadas, pareçam as pessoas mais amigáveis do mundo quando os encontramos no trânsito, a caminho de um jogo da seleção brasileira, em outro país.

Esqueçam Freud. Darwin explica.

13 comments to Darwin explica

  • Ponchinho

    A que ponto chega o besteirol cientificista substituto da ignorância sócio-histórica típico de um país “neandertálico” em termos culturais.

    • Saudações Ponchinho! Até que enfim aparece alguém que não é da turma para descer a ripa. Só saudo e acho graça, as respostas deixo com o Arthur que não paga imposto quando as elabora. Um abraço!

  • Arthur! Esta história de amizade instantânea com brasileiros quando no exterior não bem assim: nos eua o único que tentou me sacanear foi um carioca…bem está certo que este era do brazil (céu cor de anil).
    Tenho algumas ressalvas quanto as implicações darwinianas mas isto não caberia num comment.
    E não me consta que o avesso da calota craniana tenha utilidade como tijela de sopa, pois a junção entre os parietais se degrada com líquidos quentes… talvez Mafalda não goste de sopa por ter queimado os dedos, tomando-a num crânio.

    • Ou talvez tenha pingado uma gota de sopa no seu vestidinho novinho de pele de mamute. Teremos que perguntar o real motivo ao Quino para resolver este mistério.

      Mas eu fiquei curioso com as implicações darwinianas que “não caberiam em um comentário”, são tão grande assim? Até 2 MB acho que o blog agüenta sem problema. :)

      Seria o caso de responder com um post no Cágado Xadrez e colocar o link aqui?

      Ou deixo quieto porque é só falta de vontade de enfrentar a masturbação neurológica de discutir as implicações etológicas de nossa evolução como caçadores-coletores tribais? :)

  • ok… me senti muito da sua tribo agora… belo texto…

  • Sorry… mas tive que vir aqui pra te dizer que morri de rir com teu comentário no blog da Mônica “peru meta na chechênia”, HAHAHAHAHAHAH, tô rindo até agora.

    Adorei o que tu escreveu lá no blog! Gostei muito.

    E concordo, como a gente faz amizade com brasileiros facilmente quando estamos em outro pais. Muito interessante isso, não tinha me dado conta.

    Bjos e boa semana!

    • Rê, no dia que acontecer a primeira partida “Peru X Chechênia” numa Copa do Mundo eu farei questão de assistir futebol. Desmarcarei qualquer compromisso, adiarei a lua-de-mel, mandarei atrasar um enterro, sei lá, mas essa partida histórica será imperdível só pela narração! :)

  • Ponchinho

    [Comentário deletado porque imbecis que se escondem covardemente no anonimato para postar ofensas não merecem voz.]

    • Ponchinho

      [Comentário deletado porque imbecis que se escondem covardemente no anonimato para postar ofensas não merecem voz.]

  • Eu fico impressionado com o nível de doença mental de algumas pessoas. :o O cara veio ao meu blog postar ofensas gratuitas, foi – merecidamente – recebido a pedradas, voltou postando ofensas, foi calado pela primeira vez, voltou postando ofensas e jurando que não ia voltar mais ao blog, foi calado pela segunda vez, não cumpriu sua palavra e voltou mais uma vez postando ofensas, foi calado pela terceira vez… e é capaz de voltar de novo. :P

    Ô Ponchinho, vai tomar teu gardenal e um pouquinho de vergonha na cara, que só pode te fazer bem! :)

    A participação no Pensar Não Dói é voluntária, o respeito é obrigatório. A divergência é livre, as ofensas pessoais não são.

    Debates duros já aconteceram aqui nas caixas de comentários do Pensar Não Dói. Teve gente que bateu em mim firme e repetidamente e continua sendo bem-vinda, casos por exemplo do Matthias, do Economista Realista e do NRA.

    Eu e o Matthias até nos adicionamos como amigos no Orkut, prova maior que nossa radical divergência em relação a um assunto acabou nos aproximando pelo respeito que reconhecemos um nas atitudes do outro – e olha que trocamos sopapos fortes, com umas ironias pesadas e até umas cotoveladas na hora do clinch.

    Depois de três anos e meio de meditação com a sangha do Lama Samten, eu não me abalo facilmente. Meus leitores e interlocutores de boa fé serão sempre protegidos dos abusos. Gente como o Ponchinho, que chega na maldade, postando ofensas gratuitamente, agredindo ao invés de divergir numa boa, só vai conseguir estressar a si mesmo.

  • Romacof, eu gosto do debate e não me ofendo nem me incomodo com divergências, venham elas dos amigos, dos adversários ideológicos ou dos paraquedistas digitais. Por exemplo, o “Economista Realista” é mais ou menos anônimo, vive me jogando pedras, divulga insistentemente um vídeo furado com conteúdo diametralmente oposto ao que eu defendo e nem por isso eu me estresso com o sujeito, porque apesar de não perder uma oportunidade de implicar comigo ele dialoga com respeito e com conteúdo, tendo inclusive se desculpado quando percebeu que extrapolou.

    Comentários como o do “Ponchinho”, entretanto, não configuram “debate”, são pura trollagem. O sujeito é um paraquedista anônimo, se identifica com um e-mail falso, é agressivo e totalmente vazio de conteúdo. O comentário dele se resumiu a “não concordo com você, logo você é ignorante”, sem qualquer fundamentação. O que eu poderia responder? “Bobo é você”? :P

    Quando o Ponchinho evoluir intelectualmente acima do nível da ameba, abandonar a pusilanimidade do anonimato, desenvolver a hombridade de assumir o que diz e postar um comentário com um mínimo de substância, então eu responderei os comentários dele com prazer. :)

  • Ponchinho

    [Comentário deletado porque imbecis que se escondem covardemente no anonimato para postar ofensas não merecem voz.]

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