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A lição que o Movimento Ecológico teima em ignorar

As ações realizadas por indivíduos ou pequenos grupos só fazem diferença em escala local, elas não possuem sinergia suficiente para influenciar a escala global. Portanto, o Movimento Ecológico precisa eliminar as inúteis “campanhas de conscientização” e a postura de pedinte perante empresas e governos, arregaçar as mangas e construir alternativas econômicas e políticas competitivas que permitam realizar aquilo que está há quarenta anos pedindo inutilmente que os outros façam.

No artigo “Protestos inúteis do Movimento Ecológico” a Carolina perguntou o seguinte:

Arthur, interessante seu artigo, é de se pensar. Mas vc acha mesmo que as pequenas ações não fazem diferença, ou você acha que até fazem, mas o que fará diferença mesmo é a sua conclusão escrita na parte “O que fazer”? (Carolina)

A conclusão a que ela se refere é a seguinte:

O Movimento Ecológico não pode mais esperar pelas empresas e pelos partidos políticos que já existem, precisamos oferecer à população alternativas viáveis em ambas as esferas, por um lado abrindo empresas ecologicamente responsáveis e competitivas, por outro lado nos organizando em torno de novas legendas em que não haja a possibilidade estatutária de a cúpula impedir a expressão da vontade das bases. (Arthur Golgo Lucas)

Vamos analisar minha assertiva tomando como exemplo um caso concreto como a questão do lixo.

Se alguém jogar lixo ao redor de sua casa, vai degradar o ambiente e torná-lo insalubre, prejudicando-se diretamente.

Se alguém recolher o lixo não separado e mandá-lo para outro lugar, como um aterro sanitário, os arredores de sua casa permanecerão hígidos, mas a insalubridade será transferida para o local do aterro sanitário.

Se alguém separar o lixo e enviá-lo para reciclagem, os arredores de sua casa permanecerão hígidos e o aterro sanitário continuará insalubre, pois outras pessoas continuarão mandando lixo não separado para lá.

A escala de atuação eficaz de um indivíduo, portanto, é bastante limitada, mal passa dos arredores de sua casa.

Para que o local do aterro sanitário se mantenha hígido, ninguém pode mandar lixo para lá. Ou seja, além de interferir nas ações dos outros, é necessário interferir nas ações de todos os outros.

Não basta nem sequer que 99% da população separe e recicle o lixo: se 1% mandar o lixo para um aterro sanitário, a área onde for localizado o aterro inescapavelmente será impactada.

Ou seja, é totalmente inútil tentar convencer as pessoas a “fazer sua parte” separando o lixo para reciclagem.

“Ah, mas o impacto será muito menor se muita gente fizer a sua parte”, dirá um espertinho.

Por um lado é verdade: demoraria muito mais tempo para preencher a área do aterro sanitário se ele recebesse somente 1% do lixo que hoje recebe.

Por outro lado é mentira: de qualquer modo, a área seria degradada, pois 1% da população de uma cidade jogando seu lixo diariamente no mesmo local já é uma quantidade de lixo muito maior que a quantidade que o ambiente é capaz de decompor e absorver.

“Conscientização” não funciona

O Movimento Ecológico precisa entender que nenhuma solução baseada em conscientização é viável, porque sempre haverá aquele 1% que mandará lixo para um aterro sanitário e destruirá o ambiente.

Temos que mudar o funcionamento do sistema, criando alternativas mercadológicas e políticas viáveis e competitivas.

Mantendo o foco no exemplo do lixo, precisamos que 100% dos produtos e de suas embalagens sejam reciclados (eu não disse “recicláveis”, eu disse “reciclados”).

Fazer isso requer pesquisa científica, empreendedorismo e organização política, coisas que o Movimento Ecológico há quarenta anos quer que os outros façam, limitando-se à função de “conscientizador”.

O Movimento Ecológico tem que arregaçar as mangas e fazer o que tem que ser feito ao invés de continuar bancando o pedinte e se contentando com as migalhas jogadas pelos políticos tradicionais e as grandes empresas.

As objeções

Neste ponto eu quase posso ouvir a grita dos arautos da irresponsabilidade e das vítimas de sua lavagem cerebral: “isso não é possível”, “isso é uma utopia”, “não existe viabilidade econômica”, etc.

É óbvio que esse discurso continuará sendo repetido incessantemente pelos arautos da irresponsabilidade e pelas vítimas de sua lavagem cerebral, pois infelizmente a maior parte das pessoas não possui cultura científica nem senso crítico suficiente para detectar as mentiras que o discurso ambientalmente irresponsável contém, travestindo interesses inconfessáveis de conhecimento especializado. Mas os arautos da irresponsabilidade estão mentindo.

Viabilidade técnica existe, o que não existe é interesse.

Capitalistas e socialistas se igualam em irresponsabilidade ambiental

A ideologia capitalista é virulenta e destrutiva. Seu foco – como diz seu nome – é o capital, não é o ser humano, não é o meio ambiente. A ideologia socialista é igualmente violenta e destrutiva. Seu foco – como diz seu nome – é uma abstração coletivista, não é o ser humano, não é o meio ambiente. Ambas só podem trazer violência e destruição para a maioria.

No capitalismo, a maioria é esmagada por uma minoria detentora do poder econômico. No socialismo, a maioria é esmagada por uma minoria detentora do poder político. Em ambos os regimes, só haveria justiça social se os recursos utilizados para gerir a sociedade – em um caso poder econômico, no outro poder político – fossem igualmente distribuídos por toda a população. Como isso é irrealizável, o máximo que se pode fazer em cada um desses regimes é tentar estabelecer limites para as desigualdades. A ironia é que o gestor destes limites em ambos os casos é justamente quem não tem interesse na observância dos limites. Mas divago, voltemos à questão da organização do Movimento Ecológico dentro das possibilidades da presente situação política, econômica e social da atualidade em nosso país.

O funcionamento do sistema só poderá ser conseguido por via mercadológica e legislativa. Será uma batalha imensa, pois os arautos da irresponsabilidade são extremamente ativos e investem fortunas para convencer as pessoas que isso não é possível. Quando provamos que é possível, eles passam a dizer que não é desejável, passando também a investir em terrorismo emocional: as empresas vão falir, os empregos vão acabar, vamos voltar para a idade da pedra e morar em cavernas, etc. E muita gente acredita. Mas isso pode ser feito.

Como começar?

- “Tá , Arthur” – dirá alguém – “suponhamos que estejas correto. Na prática, como podemos começar a realizar a mudança de rota que sugeres?”

A primeira coisa a fazer é abandonar as ilusões. Temos que mudar a rota do Movimento Ecológico e torná-lo realizador ao invés de conscientizador.

- “Tá, Arthur, mas como fazer isso? Não enrola, dá exemplos!”

Certo. Vejamos o caso do lixo, que foi nosso exemplo até aqui.

Ao invés de pedir que o lixo seja reciclado, pode-se criar uma empresa para reciclar o lixo. Essa empresa terá que competir com a coleta pública, portanto terá que contornar o problema legal de coletar sacos colocados na rua.

Uma possibilidade é comprar o lixo das pessoas para reciclá-lo, afinal a coleta pública é paga, muita gente se interessaria em ganhar dinheiro com seu lixo ao invés de pagar para coletá-lo. Existem inúmeras maneiras de comprar os materiais que iriam para o lixo, desde anunciar que compra latinhas até montar uma coleta alternativa completa. Posso detalhar isso em outro artigo, se houver interesse.

Criada uma empresa com esta finalidade, ela pode prestar assistência jurídica para a comunidade lutar pela isenção das taxas de lixo, que hoje são obrigatórias. Afinal, a alegação de que “o serviço está disponível, você não usa porque não quer” é incompatível com a natureza jurídica das taxas. Dá pra criar muita confusão por aí, até com mobilização social para impedir a entrada do caminhão do lixo em algumas localidades.

Recolhidos lixos impossíveis de reciclar, é hora da batalha jurídica para devolver estes materiais a seus fabricantes, como já exige nossa legislação mas na prática é letra morta. Quem junta pilhas e baterias para devolver ao fabricante? Zero vírgula zero, zero, um por cento da população? Se isso passasse para dez por cento da população, as grandes empresas teriam que ter departamentos de reciclagem pra valer – o que hoje nós pedimos seria tornado necessário por força da atuação no mercado.

Se isso acontecer em diversas cidades do país, surgirá um mercado de tecnologias de reciclagem que hoje é marginal. Empresas maiores se interessarão por este mercado. Daí a surgir nova legislação sobre o setor é um passo pequeno.

Paralelamente, os ambientalistas devem atuar politicamente. Não fazendo lobby, mas ocupando cargos eletivos. Ao invés de pedir “por favor, bando de políticos corruptos e interessados só em se locupletar, aprovem um projetinho para evitar que haja contaminação do solo”, os ambientalistas devem compor a linha de frente política que têm a possibilidade de apresentar os projetos que definem os rumos do desenvolvimento nacional.

A luta política pode começar desde a tradicional organização de ONGs que revelarão lideranças comunitárias até a conversão de poder econômico em poder político, do mesmo modo que hoje acontece sem a participação de ambientalistas. Só é preciso deixar o purismo de lado e aprender a lutar de modo eficiente, como as regras do jogo exigem. O difícil – podem apostar – é manter os princípios depois que se está no jogo. Aí é que se vê quem realmente acredita no que dizia e quem no fundo é apenas mais do mesmo.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 12/01/2010

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Pensar Não Dói: você tem competência para abrir uma empresa ambientalmente correta, ou para disputar um mandato eletivo com uma plataforma ambientalmente correta, ou é mais um dos “conscientizadores” que querem que os outros façam tudo enquanto você fica só criticando e justificando sua omissão dizendo que não tem tempo ou dinheiro para fazer o que deve ser feito?

38 comments to A lição que o Movimento Ecológico teima em ignorar

  • Deixando o terrorismo de lado, heheh…
    Eu to formando um grupo de trabalho para fazer o programa de governo do PVRS. Vou me concentrar nos temas de transportes e energia. Infelizmente há uma certa truculência no ar, estamos trabalhando em cima de “consensos” nas reuniões, não consegui incluir a geração de energia nuclear em reatores de pequeno porte :(

    Segue as linhas gerais iniciais, incipientes e prematuras pra energia:

    I. PELO ALÍVIO DA MATRIZ ENERGÉTICA

    As Usinas Termoelétricas a carvão, já construídas, deverão ter viabilizados os ciclos de regeneração, de modo a se aumentar a eficiência do ciclo termodinâmico, para que seja evitada ao máximo a construção de novas termoelétricas poluentes e aproveitado ao máximo a energia despendida pelo carvão.

    II. Diretrizes para energia mecânica

    Incentivar a utilização e viabilização de rolamentos magnéticos em eixos girantes de alta rotação, modo a reduzir drasticamente as perdas de energia por atrito, dispensando o uso de lubrificantes;

    III. Diretrizes para energia térmica

    1- Incentivar empresas a produzirem coletores solares e armazenadores de água quente, de alta eficiência;

    2- Financiar e até subsidiar a troca de sistemas de aquecimentos de boilers e resistência elétrica, por sistemas de coletores solares composto pela tubulação do circuito, os sistemas de bombeamento e o reservatório;

    3- Incentivar empresas a utilizar resfriadores de líquido do tipo “chiller de absorção”, de modo a se aproveitar a água quente, gerada pelos coletores de alta eficiência, para fazer o que se convencionou chamar de “refrigeração solar”. Essa aplicação deve ser incentivada e ;

    IV. Combustíveis
    Obrigar as empresas fornecedoras de combustíveis fluídos a apresentar a sua tarifa também em unidade de entropia específica, ou seja, em Unidade de Energia por Unidade de massa X Unidade de Temperatura, kJ/(kgX K), sendo auferido por lote, na CNTP. Essa medida facilitaria a comparação direta entre combustíveis fósseis e biocombustíveis.

    V- Lixo
    Incentivar a biocompostagem de modo a produzir adubo orgânico e converter o gás metano, proveniente da decomposição do lixo orgânico, em dióxido de carbono, como ação de minimização de danos ao meio ambiente, aproveitando o calor gerado.

    Diretrizes para emissões de Carbono

    1- Incentivar empresas que gerem Créditos de Carbono investindo em produção de energia renovável (Usinas de Biomassa, Pequenas Centrais Hidrelétricas, Parques Eólicos);

    2-Incentivar pesquisas de seqüestro e reciclagem de Carbono;

    3- Incluir, na constituição do Estado do RS, a exigência de um Orçamento Plurianual de Carbono com vistas a quantificar, mensurar, comprovar e planejar as emissões de carbono a curto e longo prazo;

    4- Promover uma Reforma Tributária que traga mecanismos fiscais de modo a:

    · inibir emissões e desperdício de energia;

    · incentivar investimentos em fontes alternativas, eficiência, cogeração, acumulação e regeneração de energia;

    · desincentivar o consumo de produtos poluentes, bioacumulativos e não-degradáveis, ou cuja fabricação gere poluição;

    · desonerar empresas que invistam em tecnologia limpa;

    • Juro que pensei que o papo sobre geradores nucleares de pequeno porte era brincadeira. Aliás, ainda espero que seja…

      Comentando por alto as linhas gerais: detalhes à parte, o mais importante é incentivar ao máximo a produção energética que não utilize carbono fóssil e evitar ao máximo o consumo de combustíveis fósseis. Se isso for feito, qualquer matriz energética é válida, os detalhes podem ser amplamente negociados. (Só não vale incluir energia nuclear no pacote!)

  • Iniciei uma luta,na RedePV e no grupo de emails, pela desmistificação da energia nuclear e pela desilusão de que o mundo pode ser movido 100% com fontes “alternativas”. O esforço tem valido a pena:

    http://redepv.ning.com/forum/topics/opcao-nuclear-opcao-economica

    • Marcus, nessa causa eu não posso te auxiliar: sou 100% contra a utilização de energia nuclear. Nós vivemos 3,5 bilhões de anos sem usar combustíveis fósseis e sem usar energia nuclear. Como o mundo não poderia ser movido somente com fontes limpas e renováveis? É claro que poderia – na verdade, deveria.

      Uma usina nuclear tem cerca de 40 anos de vida útil e produz rejeitos que possuem mais de 40.000 anos exigindo manutenção. Nenhum empreendimento que exigem mais de mil vezes mais tempo de manutenção do que sua vida útil é economicamente viável, a não ser que não nos preocupemos com a economia das próximas gerações.

      Digamos que nós fôssemos os herdeiros de um mundo em que há milhares de usinas desativadas e milhares de depósitos de rejeitos radiativos que exigem manutenção para evitar contaminação do solo e da água percolada no solo, para evitar roubo de materiais radiativos para a produção de bombas sujas, para evitar ataques terroristas de altíssima tecnologia que aproveitem o fato de estarmos sentados sobre nossas próprias bombas sujas, etc. O que pensarias do teu tatatatatatataravô e dos políticos da época dele, hein?

  • Oi Arthur, que bom poder provocá-lo!:)
    A conversa vai ser longa. Quem sabe você abre um novo tópico e você me retribui a divulgação que venho fazendo hahahah!!
    Quanto ao plano de governo eu vou precisar da sua ajuda!

    • Eu estou em plena mudança para um município muito distante (parece a abertura de Star Wars), então não terei muito tempo livre, mas prometo ajudar no que puder.

      Queres sugerir alguma pauta para o Pensar Não Dói? Eu avalio todas as sugestões com o maior carinho. Só não espera de mim que eu argumente pró-nuclear porque eu comecei minha militância ecológica pela leitura do livro “Pesadelo Atômico” do Lutzemberger. Nem nos meus sonhos mais delirantes eu compactuaria com uma proposta destas, camarada!

  • A reunião do PV será neste sábado, às 9hrs da manhã, na Assembléia Legislativa!
    Um abraço.

  • A informação sobre qual sala será eu ainda não tenho. Qualquer um pode participar, você pode me ligar no meu celular:(51) XXXX-YYYY.

    • Marcus, editei o número para não receberes trotes. Na próxima vez que quiseres me enviar uma informação privada, usa o código “xxx-privado-xxx” no texto que ele será automaticamente enviado à fila de moderação de comentários, assim só eu lerei.

  • Quanto ao assunto nuclear, não precisa ser a favor, é importante que você exponha o que pensa a respeito. Procurei algo do gênero em seu blog e nada encontrei. Vamos seguir debatendo. Apesar de você ter, de antemão, acabado com as minha ilusões de trazê-lo ao grupo de defensores do reator FBNR, gente vai trocando ideias… hehehe
    Aliás, parte da sua opinião eu compactuo: grandes reatores são extremamente indesejáveis.

  • Calce bem o seu futuro artigo heheheh!!!

  • Qual é a alternativa “mercadológica” ou “política” que você vai criar, Arthur?

    • A alternativa de mercado em que eu vou trabalhar será na área de produção de alimentos orgânicos: nada de fertilizantes, nada de agrotóxicos, nada de hormônios, nada de vacinas, alta qualidade nutricional e alta produtividade. O empreendimento já está em curso e quando estiver em pleno funcionamento (daqui a mais ou menos um ano) eu postarei umas fotos aqui.

      A alternativa política bem que eu queria poder revelar agora, mas é cedo demais. Quando estiver pronta (o que também deve acontecer daqui a mais ou menos um ano) ela será lançada aqui no blog.

      Ninguém poderá dizer “o senhor é um fanfarrão, seu Arthur”. Eu mato a cobra e faço uma sopa. :P (Pra que desperdiçar recursos, né?) :)

  • “GAIA: ALERTA FINAL” – JAMES LOVELOCK
    Postado por Eduardo Sejanes Cezimbra em 15 janeiro 2010 às 10:00
    Exibir blog de Eduardo Sejanes Cezimbra
    http://transnet.ning.com/profiles/blog/show?id=2018942:BlogPost:40959&xgs=1&xg_source=msg_share_post

    A hipótese da Terra (Gaia) como um gigantesco Organismo Vivo foi para mim – na década de 80 – uma magnífica, indescritível e inimaginável experiência de quebra paradigmática. Naqueles anos eu mergulhei em leituras impensadas, que vagavam da física quântica às fundamentações antropológicas e ecossistêmicas de nossas mais radicais realidades humanas e planetárias…de fato foram tempos de muita introspecção e de duros ajustes em minhas sinapses e na compreensão consciente das coisas deste Universo!!

    James Lovelock
    Mais uma vez o mesmo mestre de outrora e pai da teoria de Gaia, James Lovelock – hoje com os seus 90 anos – publica um novo livro, na verdade mais um de uma série de alertas, que foi lançado no Brasil no próximo dia 12/01/2010, e nos convida, na verdade nos convoca, nos recruta, para travar duras reflexões sobre o agora da Humanidade e do Planeta Terra : “GAIA: ALERTA FINAL”!!!

    Com fortes críticas aos movimentos verdes da atualidade e às decisões políticas das nações frente os desafios inadiáveis das mudanças climáticas inevitáveis, o autor vai fundo na questão da sobrevivência e do prosseguimento da humanidade num mundo instável e caótico, onde o modelo de conforto urbano está com os dias contados e será levado a cabo nos próximos anos e décadas…veja abaixo alguns pequenos trechos do Primeiro Capítulo:

    ” [...] No Reino Unido, sobrou pouca terra para cultivo e para nos alimentar, mas nós e os refugiados poderemos, de qualquer forma, não ser capazes de o fazer, porque a maioria absoluta de nós é urbana, e praticamente ignora a vida além da cidade, não entendendo que todas as nossas vidas dependem dele. As visões tão íntegras e bem-intencionadas da União Europeia para “salvar o planeta” e promover o desenvolvimento sustentável com o uso apenas de energia “natural” poderiam ter funcionado em 1800, quando havia apenas um bilhão de seres humanos no mundo, mas agora não podemos nos dar a esse luxo. De fato, à sua própria maneira, a ideologia verde que agora parece inspirar o norte da Europa e os Estados Unidos poderá, afinal, ser tão prejudicial ao meio ambiente real quanto o foram as ideologias humanistas anteriores. Se o governo do Reino Unido persistir em forçar os esquemas dispendiosos e nada práticos da energia renovável, em breve descobriremos que quase tudo o que resta da nossa região rural será usado para a produção de biocombustível, geradores de biogás e parques eólicos de escala industrial – tudo isto no exato momento em que precisaremos de todo o campo existente para o cultivo de alimentos. Não se sinta culpado por optar por essa bobagem: um exame mais profundo revela que ela é um elaborado embuste criado pelo interesse de algumas nações cujas economias se enriquecem a curto prazo pela venda de turbinas eólicas, usinas de biocombustível e outros equipamentos energéticos supostamente verdes. Não acredite por um momento sequer na conversa de vendedor de que isso salvará o planeta. A conversa mole dos vendedores tem a ver com o mundo que eles conhecem, o mundo urbano. A Terra real não precisa ser salva. Pôde, ainda pode e sempre será capaz de se salvar, e agora está começando a fazê-lo, mudando para um estado bem menos favorável a nós e outros animais. O que as pessoas querem dizer com o apelo é “salvar o planeta como o conhecemos”, e isso agora é impossível.

    .
    Os Estados Unidos entendem a ameaça do aquecimento global? Poucos duvidariam de que, no presente momento, os Estados Unidos sejam a nação mais destacada em termos de ciência e invenção – e não há maior prova disso que o computador que está sobre todas as nossas mesas e que, no mínimo, realiza o trabalho outrora feito por um datilógrafo. Os Estados Unidos tiveram um papel importante em sua evolução. Como se não bastasse, temos os pousos na Lua, a exploração de Marte e as frotas de satélites assombrosamente complexos, desde o telescópio Hubble até aqueles que lhe informam exatamente onde você se encontra em qualquer lugar do mundo. Tudo isso e muito mais é um tributo ao know-how americano e sua atitude dinâmica. Mesmo a teoria de Gaia foi descoberta no fértil ambiente do Laboratório de Propulsão a Jato da Califórnia, e o único biólogo que a entendeu e continuou a desenvolvê-la foi a destacada cientista americana Lynn Margulis. Obviamente, avanços em ciência e tecnologia emergiram na Europa na Idade Média e seu centro de excelência se moveu entre as nações. Em tecnologia e teoria computacionais, Babbage, Ada Lovelace e o mais trágico entre os homens, Alan Turing, fizeram, todos, o trabalho de base aqui, no Reino Unido. Turing foi aquele que, com seu grupo, construiu o primeiro aparelho computacional sério e o utilizou para decifrar o código inquebrável dos nossos inimigos de tempo de guerra. Mas isso foi naquela época. Agora, os Estados Unidos são o centro da ciência.

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    Faço este elogio solene aos Estados Unidos da América por estar perplexo: apesar de sua excelência científica, eles, entre todas as nações, foram os mais lentos em perceber a ameaça do aquecimento global. Duvido que essa ignorância inesperada tenha alguma ligação com o fato de o uso per capita americano de combustível fóssil, uma fonte de dano climático, ser maior que em qualquer outro lugar. Considero-a mais uma consequência de a maioria dos cientistas americanos, à sua maneira francamente bem-sucedida e reducionista, considerar a Terra algo que eles poderiam melhorar ou controlar; parece que eles a veem como nada mais que uma bola de rocha umedecida pelos oceanos e situada dentro de uma tênue esfera de ar. Até parece que consideram Marte um planeta a ser desenvolvido quando a Terra não for mais habitável. Não veem a Terra como um planeta vivo que regula a si próprio.
    .

    Políticos do mundo desenvolvido reconhecem a mudança climática, mas suas políticas ainda estão no século XX, fundamentadas nos conselhos de lobistas dos ambientalistas e daqueles da comunidade empresarial, que enxergam um enorme lucro no curto prazo vindo de planos energéticos subsidiados. Eles raramente parecem agir sob as recomendações de seus consultores científicos. Em Bali, líderes políticos acordaram em cortar as emissões de carbono em 60% até 2050. De onde é que eles tiraram a ideia de que poderiam fazer uma política para um mundo com mais de quarenta anos de antecedência? É improvável que políticas baseadas em extrapolação injustificável e dogmas ambientais evitem a mudança climática, e não deveríamos sequer tentar implementá-las. Em vez disso, nossos líderes deveriam se concentrar imediatamente na sustentação de suas próprias nações como um habitat viável; poderiam ser inspirados a fazê-lo não apenas por causa de um interesse nacional egoísta, mas como capitães dos botes salva-vidas que suas nações poderiam vir a ser. No início de 2008, o governo do Reino Unido finalmente anunciou um programa para a construção de novas centrais energéticas nucleares. Certamente espero que essa não seja outra das falsas promessas que caracterizaram tantas das eloquentes declarações do governo Blair. Energia nuclear é, de longe, o meio mais efetivo de reduzir a emissão de dióxido de carbono, mas não é esse o motivo mais importante para que rivalizemos com a França e passemos a produzir eletricidade a partir de urânio. O importante é que as cidades exigem um fornecimento constante e econômico de eletricidade que até recentemente veio do carvão e do gás, mas esses recursos estão agora em declínio e não deixam nenhuma alternativa além da energia nuclear. As megacidades que estão começando a emergir demandarão enormes fluxos de eletricidade e somente uma vigorosa e rápida expansão da energia nuclear poderá satisfazê-los num futuro próximo. Essa necessidade se intensifica por termos pouca terra para cultivar alimentos – e a agricultura intensiva exige energia abundante. Com o esgotamento do petróleo, precisaremos sintetizar combustível para a maquinaria móvel de construção, transporte e agricultura. Não é algo difícil de fazer a partir do carvão ou da energia nuclear, mas precisamos começar a nos preparar para isso agora. Poderemos até ter de considerar a síntese direta de alimento a partir de dióxido de carbono, nitrogênio, água e cultura de células.
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    Talvez, por sermos tão adaptáveis, não estejamos cientes da velocidade com que o mundo está mudando. Se a temperatura média no Reino Unido em janeiro for 7°C, temos a sensação de frio a maior parte do tempo e nos agasalhamos nas manhãs geladas quando sopra um deprimente vento noroeste. Resmungamos: onde está o aquecimento global agora? No verão, a média é de 20°C em julho e desfrutamos uma semana com temperaturas máximas de 30°C, mas grunhimos se cair a 15°C por um mesmo período. Ainda assim, há apenas vinte anos, essas temperaturas de inverno e de verão teriam sido registradas como anormalmente quentes para essas épocas do ano. A precipitação pluvial nos condados orientais do Reino Unido sempre foi baixa, na faixa de 500 milímetros por ano, mas a zona rural sempre foi exuberante e verde, porque permanecia fresca durante o verão. Em comparação, o Arizona, que tem uma precipitação pluviométrica semelhante, é quase inteiramente cerrado e deserto simplesmente por ser bem mais quente e pelo fato de a chuva que cai secar inteiramente ou escorrer para dentro dos canais antes que as plantas possam aproveitá-la. Nosso condado mais ao sudeste, Kent, já está com escassez crescente de água, e o sul da Europa é agora quase um deserto. A adaptação, como animais individuais, não é tão difícil: quando uma tribo muda das regiões temperadas para as tropicais, leva apenas algumas gerações para que os indivíduos se tornem mais escuros à medida que a seleção elimina os de pele clara. Também é assim com todos nós: nosso mundo mudou para sempre, e teremos de nos adaptar a muito mais que a mudança climática. Mesmo durante meu tempo de vida, o mundo encolheu em relação àquele que era bastante vasto para fazer da exploração uma aventura e incluía muitos lugares distantes onde ninguém tinha jamais caminhado. Agora, tornou-se quase uma cidade interminável, encravada numa agricultura intensiva, mas domesticada e previsível. Em breve, poderá reverter novamente a uma selva. Para sobreviver nesse novo mundo, precisamos de uma filosofia Gaiana e precisamos nos preparar para combater um chefe militar bárbaro disposto a nos capturar e a se apoderar de nosso território.

    .
    Em um pequeno grau, a difícil situação dos britânicos em 1940 lembra o estado do mundo civilizado agora. Naquela época, tínhamos quase uma década da crença bem-intencionada, mas inteiramente equivocada, de que a paz era tudo o que importava. Os seguidores dos lobistas da paz dos anos 1930 eram parecidos com os movimentos verdes agora; as intenções eram mais que boas, mas inteiramente impróprias para a guerra que estava prestes a começar. A falha fundamental dos lobistas verdes de agora se revela no próprio nome Greenpeace; por aglutinarem o humanismo dos movimentos pela paz com o ambientalismo, eles inconscientemente antropomorfizam Gaia. Está na hora de despertar e perceber que Gaia não é nenhuma mãe acolhedora que acalenta os seres humanos e que pode ser aplacada por gestos como comércio de carbono ou desenvolvimento sustentável. Gaia, mesmo que façamos parte dela, sempre dita os termos da paz. Em maio de 1940, despertamos para descobrir, encarando-nos do outro lado do canal da Mancha, uma força continental inteiramente hostil prestes a nos invadir. Estávamos sozinhos, sem nenhum aliado efetivo, mas tivemos a sorte de ter um novo líder, Winston Churchill, cujas palavras comoventes sacudiram a nação inteira de sua letargia: “Nada tenho a oferecer, senão sangue, trabalho duro, lágrimas e suor.” Precisamos de um outro Churchill agora, que nos tire do pensamento insistente, acomodado e consensual de fins do século XX e una a nação num esforço resoluto de travar uma guerra difícil. Precisamos de um líder que instigue todos nós, mas especialmente atice aqueles jovens ativistas verdes que tão bravamente protestaram contra todas as formas de profanação dos campos. Onde estão os batalhões de “Terra acima de tudo” e para onde foram Swampy* e seus amigos?

    .
    Desfrutamos 12 mil anos de paz climática desde a última mudança da era glacial para a interglacial. Não demorará muito e poderemos nos defrontar com uma devastação de alcance planetário pior até que uma guerra nuclear ilimitada entre superpotências. A guerra climática poderia matar quase todos nós e deixar os poucos sobreviventes com um padrão de vida comparável ao da Idade da Pedra. Mas em vários lugares do mundo, inclusive no Reino Unido, temos uma chance de sobreviver e, até mesmo, de viver bem. Para que isso seja possível teremos, neste momento, de deixar nossos botes salva-vidas em condições de enfrentar o mar. Mesmo que algum evento natural, como uma série de grandes erupções vulcânicas ou um decréscimo da radiação solar, nos dê uma trégua, ainda assim terá sido melhor gastar nosso dinheiro e nossos esforços tornando nossos países autossuficientes em alimentos e energia e, se quisermos nos tornar inteiramente urbanos, então, na criação de cidades nas quais tenhamos orgulho em viver.

    * “Pantaneiro”, apelido de Daniel Hooper, um dos mais conhecidos “ecoguerreiros”
    do Reino Unido. (N. do T.) ”

    “Gaia: Alerta Final”
    Lançamento: Previsto para 12/01/2010
    Autor: James Lovelock
    Editora: Intrínseca
    Páginas: 264
    Quanto: R$ 29,90
    Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha

    • Eu concordo com o James Lovelok em quase todo o diagnóstico que ele faz, mas discordo completamente da “solução” que ele sugere. Investir pesado em energia nuclear só iria piorar gravemente a situação a partir do século XXII.

      James Lovelock parece não ter lido A Tragédia dos Baldios de Garret Hardin. Os problemas que a Terra enfrenta hoje não são solucionáveis através da tecnologia. Pelo contrário, as soluções tecnológicas tendem sempre a tornar os problemas mais graves, embora os empurrem um pouquinho mais para a frente.

      O exemplo máximo de solução tecnológica que deu errado é o uso de combustíveis fósseis: o que pareceu ser uma solução maravilhosa ao longo de todo o século XX, que permitiu o aparente “desenvolvimento” da economia em níveis nunca antes sonhados na história do planeta, na verdade nos colocou em um beco sem saída, em alta velocidade, na direção de um paredão de pedra. E tem muita gente que ainda não se mancou que é necessário pisar no freio e dar meia volta se quisermos sobreviver.

      O que James Lovelock está propondo é pular de um veículo em movimento para outro igualmente desembestado na direção do mesmo paredão de pedras, substituindo apenas o combustível. Está errado. É a direção do movimento que tem que ser mudada, não o tipo de motor que nos acelera rumo à destruição.

  • Tá, só falta você explicar o porquê de “Investir pesado em energia nuclear só iria piorar gravemente a situação a partir do século XXII.”, estou aqui vigilante e a espera de argumentos!! :D

    • 1) Nos primeiros 40 anos a usina nuclear produz energia. Nos 40.000 anos seguintes é necessário gastar energia para armazenar os rejeitos dela. Mesmo que jamais aconteça um acidente significativo, um mundo que investe em energia nuclear precisa sempre de mais, e mais, e mais energia nuclear para lidar com os rejeitos da própria energia nuclear, em uma progressão geométrica infinita. Helloooooo termodinâmica?

      2) Nos próximos 40 anos, quais serão as tendências políticas? Teremos um mundo plenamente pacífico ou haverá guerras? Quais serão os atores dos conflitos, estados nacionais, fundamentalistas religiosos ou corporações belicosas alçadas a níveis de poder supra-estatais? podemos ter certeza que ninguém estará disposto a cometer terrorismo nuclear?

      3) E nos próximos 40.000 anos? Podemos fazer alguma previsão racional para um período desta magnitude? Se não podemos, então o que devemos fazer? Agir com cautela ou distribuir ao redor do planeta milhares de reatores que produzem rejeitos fatais biologicamente indetectáveis até que seus efeitos sejam sentidos?

  • Arthur,
    A reunião foi excelente. Apareceu a Ana Zimmermann, o Giba Giba, o Vandan (de Tapes)
    Eu vou te ligar ainda neste domingo pra te contar como foi. Desculpe não ter te respondido a mensagem, minha namorada levou meu celular, por engano, pro plantão dela e fiquei sem.
    Sobre o resposta acima, está em processamento e elaboração. Mas se quiser já pensar na tréplica, o canal da minha resposta passa por Fast Breed Reactors heehhe :D
    Forte Abraço!!

    • Não me liga antes do meio dia nos dias de semana e antes das 13h nos sábados e domingos que eu não falo línguas terráqueas nesse horário. Meu tradutor instantâneo intergaláctico estragou e a bateria solar demora para recarregar. :P

  • GreenDica: a década de 1970 já acabou faz tempo!

  • Concordo. Sempre teremos uma maioria desengajada e a reciclagem feita pelas classes conscientizadas mundo afora nunca sequer chegaria a 99%, portanto a única via realística para amenizar ou adaptar nossas vidas aos efeitos da mudança climática, dos lixos tóxicos e outras mazelas é a ciência. A cultura pode e deve ser trabalhada paralelamente, pelo menos para diminuir o impacto futuro de nossos atos, mas não é suficiente…

    • Fabiano, a ciência pode ajudar muito, mas o caminho passa pela política e pela economia. Sem um plano de desenvolvimento, o tecido social se torna canceroso. Sem uma força produtiva limpa, acaba contaminado. (Incrível como estas metáforas são realistas.)

      Antes deste artigo aqui eu já havia publicado outros sobre a inutilidade das malfadadas “campanhas de conscientização”. Lê o artigo Ecologia Política de Resultados não se faz com ambientalismo amador, lá deixo bem claro, com exemplos da vida real de um ativista ecológico, a magnitude das limitações da estratégia fracassada que o Movimento Ecológico insiste em manter.

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    O idioma do Brasil mudou?

  • Nelson

    “Não basta nem sequer que 99% da população separe e recicle o lixo: se 1% mandar o lixo para um aterro sanitário, a área onde for localizado o aterro inescapavelmente será impactada.”

    Apenas um chilete na engrenagem é necessário para parar um relógio suiço.

  • Nelson

    A melhor maneira ao meu ver por exemplo de acabar com o lixo é através de incentivos, privatizando a coleta publica de lixo, abrindo concorrência para várias empresas de reciclagem, isentando-as de impostos. Usar o desejo de lucro dos capitalistas em fazer dinheiro com lixo e tecnologias anti poluição.

  • Nelson

    Quando nego perceber que lixo é dinheiro, não vai sobrar uma lata e um saco plastico na rua pra contar a história.

  • Fechei temporariamente este artigo para comentários para ver se me livro de um BOT SPAMMER desgraçado que o AKISMET não está bloqueando.