O mal que o Programa Bolsa-Família causará ao Brasil
Governo e oposição, movidos por interesses eleitorais, disputam a paternidade do Programa Bolsa-Família e fazem propaganda de seu lado positivo: ele tirou muita gente da miséria e trouxe estas pessoas para o mercado consumidor. Governo e oposição, movidos por interesses eleitorais, silenciam perante o lado negativo do Programa Bolsa-Família: ele perpetua a dependência de um imenso contingente de miseráveis ao auxílio governamental para manter um padrão aquisitivo mínimo sem exigir dos beneficiários contrapartidas que efetivamente os qualifiquem para deixarem de depender do benefício, pois isso não dá voto. Os danos culturais e as conseqüências sócio-econômicas de longo prazo que essa visão eleitoreira de curto prazo trará ao Brasil serão imensos.
Você é um náufrago em uma ilha paradisíaca onde em se plantando, tudo dá. Seu companheiro de aventura é um selvagem nativo chamado Cidadão de Bem, uma companhia agradável quando tudo vai bem mas que muda de comportamento quando as coisas vão mal (Sexta-Feira é o companheiro do Robinson, não misture as histórias).
Num belo sábado, você e Cidadão de Bem estão a passear pela praia, entretidos em um colóquio sobre o ângulo mais fotogênico dos orangotangos, quando encontram um sujeito caído na beira da praia, quase morto de cansaço. É outro náufrago. Está tão debilitado que não consegue nem erguer a cabeça e mantê-la na mesma posição por muito tempo. Sua situação é crítica.
Depois de batizar o sujeito de “Sábado” – ora, que criatividade a minha – você e Cidadão de Bem tratam do coitado, tentando garantir sua sobrevivência. Dão-lhe água de coco para hidratá-lo e para que comece a recuperar suas forças, dão-lhe um banho de água doce, colocam nele roupas secas, levam-no para um abrigo e alimentam o sujeito por alguns dias.
Sábado começa a se recuperar, mas não mostra interesse em nenhuma das atividades neecssárias à manutenção de sua própria sobrevivência. Ele não busca água na bica, não quer aprender a pescar com lança, não acompanha Cidadão de Bem em busca de frutos silvestres e não chega nem perto da área em que você cultiva batatas e bergamotas, os dois únicos gêneros alimentícios que você conseguiu salvar do seu naufrágio.
No início você e Cidadão de Bem toleram a atitude dele – afinal o coitado sofreu tanto – mas logo começam a se sentir incomodados. O sujeito come uma parcela significativa da produção de alimentos, passa o dia sentado embaixo de um coqueiro esperando os cocos caírem e ainda reclama que os cocos não caem com regularidade adequada e em quantidade suficiente para satisfazer suas necessidades. Tudo bem que ele chegou à praia fraco, debilitado e sem saber como sobreviver naquele mundo estranho, mas ele pode aprender a cuidar um pouco melhor de si mesmo e também a contribuir para a produtividade, o progresso e o bem-estar do grupo, não pode? Não, não pode.
Quando você explica a Sábado que ele já está alimentado e agora precisa aprender a pescar e começar a colaborar com a produção de alimentos, ele se revolta.
“- Eu me chamo Lúmpem! E eu não pedi para estar aqui, fui despojado de meus pertences e lançado em uma condição de vida miserável que eu não desejo. No meu país, os políticos diziam que as classes dominantes tinham uma dívida histórica comigo, então o governo me dava dinheiro todo mês e não me exigia nada em troca. Agora vocês têm obrigação de cuidar de mim!”
Você e Cidadão de Bem olham pasmos um para o outro e depois para Lúmpem, que depois de seu discurso cruzou os braços e ficou olhando enraivecido para os dois. Então Lúmpem diz: “E vão pescar de uma vez, que já está na minha hora de jantar!”
Desta vez é Cidadão de Bem que fala primeiro. Ou melhor, fala e age: “Vai botar um trabalho nesse corpo, vagabundo!” e sai esbolachando a cara de Lúmpem, que depois de levar meia dúzia de bofetadas corre para o mato jurando vingança.
Você então prevê problemas. Lúmpem pode estar em qualquer lugar. Como você vai dormir tranqüilo, sabendo que Lúmpem pode surgir a qualquer momento para tomar seus mantimentos, suas ferramentas e talvez até matar você? Agora você precisa de um sistema de segurança para se proteger de Lúmpem.
Você e Cidadão de Bem passam a sofrer limitações em seus deslocamentos, pois Lúmpem está à espreita. Passam a gastar uma boa parte de seu tempo vigiando seus pertences. Outra parte do seu tempo útil – e muito esforço – precisa ser gasta para recompor os danos causados por Lúmpem nas cercas de proteção e para repor os mantimentos e ferramentas roubados por Lúmpem. Definitivamente, a chegada de Lúmpem deteriorou a sua qualidade de vida e a de Cidadão de Bem.
Até que um dia você consegue capturar Lúmpem.
Cidadão de Bem, voltando de uma pescaria, vê Lúmpem amarrado e já desce a bordoada. Você impede o espancamento e explica que não é certo agredir quem não pode se defender. Cidadão de Bem reclama que isso é o que Lúmpem fazia roubando mantimentos na calada da noite e é o que ele pretendia fazer emboscando vocês em momentos de descanso ou desatenção. Você diz que não pode se rebaixar ao mesmo nível, que o erro do outro não justifica o seu erro. Então Cidadão de Bem diz que então é problema seu lidar com Lúmpem, porque ele não tem que ser responsabilizado pelas decisões dos outros e muito menos tem que sustentar vagabundo, e sai juntando suas ferramentas.
Oh, céus! E agora?
Você pessoalmente não é culpado pelo surgimento de Lúmpem. O naufrágio que levou Lúmpem a surgir em sua vida é um fato pretérito que ocorreu independentemente de sua vontade ou de seu poder de decisão. Mas você precisa lidar com Lúmpem agora.
Cidadão de Bem, que era seu aliado quando tudo estava funcionando bem ou quando estava protegendo apenas os próprios interesses, lavou as mãos, reuniu seus pertences e tirou o corpo fora, eximindo-se da responsabilidade de lidar com Lúmpem.
Você não tem recursos suficientes para lidar com Lúmpem sozinho. Você até pode exigir de Cidadão de Bem um pouco de “solidariedade forçada”, pois você provê batatas e bergamotas, mas isso coloca você e Cidadão de Bem em atrito e não resolve o problema de ambos terem que sustentar Lúmpem, que continua se negando a aprender a pescar, preferindo ser sustentado ou roubar. Afinal, Lúmpem estava acostumado a ganhar tudo sem ter qualquer obrigação em contrapartida.
E aí, o que você vai fazer? Como você vai convencer Lúmpem que ele não tem mais direito a ser ressarcido por nenhuma “dívida histórica” e que agora precisa aprender a se tornar produtivo?
Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 29/07/2010
Related posts:



Programas de assistência social (welfare state) existem no mundo todo, principalmente em países desenvolvidos, e não me consta que na Europa ocidental, por exemplo, haja uma “horda de Sábados” a mamar nas tetas governamentais e, MUITO MENOS, que isso transformou esses países num inferno na Terra. E veja que, por aquelas bandas, a tal da bolsa família e diversos outros programas assistenciais são incomparavelmente superiores aos daqui.
Esta tese de que alguém possa se tornar um vagabundo em troca de míseros R$ 50 mensais (ou mais, não importa!) é uma das coisas mais odiosas e PREJUDICIAIS ao necessário combate à miséria reinante nos países subdesenvolvidos E AO DESENVOLVIMENTO DESSES MESMOS PAÍSES que eu ouço dos amigos de Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho (que, por sinal, vive de uma espécie de “bolsa-família privada” nos EUA) e quejandos.
Posso engolir muito papo-furado desses caras, com alguns até me divirto, mas isso aí é de uma desonestidade intelectual, pobreza argumentativa e desprezo a conhecimentos básicos de macroeconomia que eu não suporto.
E, com todo o respeito, “Cidadão de Bem”… Deixa pra lá.
Pois é, Vinícius, “por aquelas bandas, a tal da bolsa família e diversos outros programas assistenciais são incomparavelmente superiores aos daqui”, e este é precisamente o motivo pelo qual não acontece “que na Europa ocidental, por exemplo, haja uma “horda de Sábados” a mamar nas tetas governamentais e, MUITO MENOS, que isso transformou esses países num inferno na Terra”.
Se bem que eu não tenho dados para afirmar que isso não ocorra na Europa, afinal a gente sabe que existe nos EUA porque o cinema deles mostra, enquanto o cinema europeu… produz o que, mesmo? Mas deixa o cinema pra lá, vou manter o foco.
Eu adoraria que a “tese de que alguém possa se tornar um vagabundo em troca de míseros R$ 50 mensais (ou mais, não importa!” fosse falsa, mas infelizmente não é. Eu conheço gente que ganha bolsa-família e que não mexe um dedo para melhorar de vida.
Fiquei com a impressão que a equivocadíssima identificação do meu texto com a cambada dos Reinaldos Azevedo e Olavos de Carvalho da vida nublou teu julgamento sobre meu texto: eu não sou contra a existência de programas sociais, eu sou contra o formato deste programa específico, porque ele não exige qualquer contrapartida razoável para estimular o beneficiário a fazer algo por si mesmo a longo prazo.
O Programa Bolsa-Família só faz duas exigências ao miseráveis que se encaixam nos critérios para receber a esmola oficial: freqüência às aulas e cadastro na saúde. Não faz exigência alguma de aproveitamento, não implanta nenhum sistema profissionalizante novo, não faz convênio com os já existentes (SENAC, SENAI, SEBRAE, etc.), não promove convênios com empresas para direcionar os beneficiários para o mercado de trabalho, não implanta incubadoras empresariais, nada. Só dá uma esmolinha.
Essa é minha crítica: um programa assim só tira o desgraçado da miséria enquanto ele recebe o benefício. Se o benefício cessa, o beneficiário volta à miséria de sempre.
Portanto, onde está a “desonestidade intelectual”? Onde está a “pobreza argumentativa”, fora o fato de não concordares com a crítica a um programa que parece bom a curto prazo mas que a longo prazo só mantém cativo o eleitorado miserável? Qual é o “conhecimento básico de macroeconomia” que falta na constatação de que a esmola mantém o esmoleiro na miséria?
Quanto ao “cidadão de bem”, a frase que o apresenta deixa claro que eu não estou usando este termo no bom sentido.
[...] This post was mentioned on Twitter by viniciusduarte, arthur bio br, arthur bio br, arthur bio br, peladista and others. peladista said: O mal que o Programa Bolsa-Família causará ao Brasil http://ping.fm/e52wC [...]
Arthur,
Que bobeira esse seu texto, foi um dos únicos textos seus que tive que me esforçar para chegar até o final.
Estou de pleno acordo com o Vinicius Duarte. Os países que alcançaram os maiores níveis de IDH já vistos na humanidade chegaram a esse estado promovendo políticas sociais que, entre outras coisas, limitaram a capacidade de lucro de indivíduais em prol de um equilíbrio social.
No mais, tratar como uma ilha com 3 pessoas um contexto social que perdura por, pelo menos, 500 anos e que extinguiu diversos povos indígenas, matou escravos, plantou com sangue uma realidade em que apenas 1% da população detém 60% da riqueza do país, com todo respeito, é mesmo muita desonestidade intelectual. Pensamento paupérrimo de classe média.
Marcus, como é que o Programa Bolsa-Família “limita a capacidade de lucro de indivíduos em prol de um equilíbrio social”? Tens certeza que estás falando do mesmo programa que eu estou criticando?
E essa de jogar pedra na metáfora é dose, hein? Estarias disposto a ler um texto que descrevesse a mesma situação dois milhões de vezes, sem acrescentar qualquer informação útil em relação à primeira vez?
Blá-blá-blá povos indígenas blá-blá-blá escravos blá-blá-blá sangue blá-blá-blá homem branco machista católico blá-blá-blá patriarcado opressor blá-blá-blá pombo… que raios tem isso a ver com o Programa Bolsa-Família exigir ou não exigir contrapartidas do beneficiário para que não se torne um dependente eterno da esmola oficial?
Concordo contigo.
Um programa sério daria ensino profissionalizante e faria cooperativas auto-sustentáveis….para que o cidadão não ficasse refém da esmola do governo.
Dar comida para quem tem fome…é bom,mas ensiná-las a ganhar sua própria comida é melhor ainda.
Exato, Lya. Eu não vejo problema em dar o peixe para quem está sem forças para pescar, mas isso tem que ser feito já tendo em mente que o sujeito deve aprender a pescar e que ele deve ter garantido o acesso a uma vara de pesca, uma rede ou uma tarrafa.
Não nego a presente necessidade do “Bolsa Esmola”
Não nego também que ele facilita as coisas a quem não deve.
A meu ver, o programa não deve ser apagado, ou os direitos a quem faz juz a ele cerceados. É a vida, comunidades sertanejas e ribeirinhas se fodem sem muita perspectiva.
Mas por que não investir mais em maneiras de tornar essas culturas melhor sustentáveis e sustentadas? Investimentos para que eles mesmos possam sair desse mar de miséria naturalmente não fariam nada mal.
No fim das contas, concordo com o Vinícius(texto com muito feelling e pouca técnica mode on).
Não, tu não concordas com o Vinícius, tu concordas comigo.
Se não tivesses escrito o penúltimo parágrafo, estarias concordando com o Vinícius. Tendo escrito o penúltimo parágrafo, adotaste a minha tese.
Qual é a parcela da população sueca que vive abaixo da linha da miséria? Pois é, não tem!
No entanto, o governo sueco garante que a diferença de renda entre um faxineiro e um médico, por exemplo, não passe de 30%. Na Suécia você só irá para a universidade se tiver muita vontade de desenvolver algo. E o incrível é que as pessoas vão para as universidades! Não se perpetua a dependência de um imenso contingente de miseráveis ao auxílio governamental para manter um padrão aquisitivo mínimo… Deve ser porque as pessoas têm ambição e senso de dignidade, não fosse isso mamaríamos no peito por toda a nossa vida.
Na Inglaterra, se um cidadão inglês tem um filho e não têm profissão, ele recebe um cheque de 250 pounds por filho fora uma porção de regalias, abonos, descontos, ajudas de custo -SEM QUALQUER EXIGÊNCIA DO ESTADO.
No Brasil, pelo modo de colonização que tivemos, pelos confrontos vividos entre os povos, pelo modo de produção agrícola latifundiário que temos, uma parcela muito ignorante da classe média não quer que o Lúmpem pesque, nem que ele coma. Querem ele como o escravo que ele sempre foi. Afinal, quem vai cuidar dos carros? Roçar os jardins? Catar o lixo reciclável?
Fico chateado pela sua resposta ao outro comentário e um pouco decepcionado com sua visão de mundo. Esperava mais pelo conteúdo dos outros blogues.
Marcus, se o próprio Criador no Paraíso resolver distribuir tudo sem cobrar nada em troca, eu vou achar ótimo. Em um mundo onde there is not such thing as free lunch não faz sentido manter os desgraçados dependentes do auxílio governamental ao invés de estimulá-los a fazer alguma coisa por si mesmos.
Eu não conheço os demais detalhes da sociedade sueca nem tenho qualquer informação sobre este auxílio que dizes existir na Inglaterra, muito menos sobre outras políticas que se relacionem com estas promovendo sinergia ou compensação, então não posso opinar sobre o que acontece por lá. Mas sobre o que acontece aqui eu posso opinar muito bem.
Esse programa não ensina o Lúmpem a pescar. Esse programa atira uns peixes para o Lúmpem com o objetivo de fazer o Lúmpem votar no político que rouba, mas pelo menos divide uns farelos do saque.
Não estou entendendo a tua implicância comigo neste tema. Por que raios achas razoável dar dinheiro e não fazer qualquer exigência? Isso é defesa da perpetuação do “coitadismo histórico”, hein?
Arthur…vou ter que escrever em ingles, porque e mais facil para mim. Once again I am impressed. I used to think most Brasileiros subscribed to the idea of “helping” the poor. To me this is a foolish idea (not helping the poor but by having the government intervene). I then realized, I am the fool for believing all Brasileiros believed in that lie. It is wonderful to see a Brasileiro not buy this govt bullshit. Here in USA, Thomas Sowell (an economist) has explained how government welfare has worsened the situation of the American Blacks. The government assistance increased the amount of out of wedlock children since no father was needed….Government would save the day! Here is Thomas Sowell in 1980 describing welfare: http://www.youtube.com/watch?v=2GklCBvS-eI
Joseph, obrigado pela visita e pelo comentário. Eu entendo bem o inglês escrito, mas prefiro responder em português. Tudo bem?
Eu acho que minha opinião não ficou clara.
Eu não sou contra ajudar os pobres. Eu sou contra o Programa Bolsa-Família justamente porque na minha opinião ele não ajuda os pobres, ele mantém as coisas como estão.
Dar dinheiro evita que as pessoas passem fome e permite algum conforto, este é o lado positivo do Programa Bolsa-Família. Mas dar dinheiro sem exigir que as pessoas se esforcem para melhorar sua própria vida faz as pessoas se tornarem escravas das doações do governo.
Eu não sou sempre contra as intervenções do governo. Eu sou contra as intervenções do governo que não produzem tendências de melhoramento na estrutura social.
Se eu tivesse poder de decisão sobre o Programa Bolsa-Família, eu não eliminaria o programa, eu exigiria contrapartidas.
Ao invés de exigir apenas a matrícula e a freqüência na escola, eu exigiria aproveitamento (obviamente, nos casos em que não houvesse aproveitamento seria necessário avaliar os motivos adequadamente).
Ao invés de manter o benefício indefinidamente sem controlar se o sujeito está tentando obter emprego, eu formaria um grande cadastro de beneficiários e desligaria do programa quem fosse chamado para empregos e não quisesse assumir sem bons motivos.
Eu não acho justo deixar os miseráveis desassistidos. Mas também não acho razoável dar dinheiro sem exigir esforço algum de pessoas que têm capacidade para se tornarem produtivas e assumirem as rédeas do próprio destino.
Por partes
Concordo com quem diz que ensinar a pescar é melhor do que dar o peixe, mas nunca se esquecer que não adianta saber pescar defronte a um rio sem peixes.
Sobre o texto: Bom, o tal cidadão de bem tem o nome bem apropriado, dispensa comentários. Quanto ao lúmpen, eu tenho a solução, mas não vou expo-la onde politicamente corretos possam ler, trata-se da “regra 11″, que ja te mostrei uma vez. Caso nào se recorde, te mando por email.
No mais Arthur, continuo achando que se expõe com textos assim. Pelo menos serve pra mostrar pra Lya o porque não gosto do politicamente correto.
Inté
“não adianta saber pescar defronte a um rio sem peixes”
Ah, ainda bem que alguém lembrou disso! Quase que eu ia esquecendo de explicar algo importante. Este gancho foi perfeito.
“Ensinar a pescar” não significa “ensinar um ofício”.
Ensinar a pescar significa ensinar um ofício realmente útil e com demanda efetiva capaz de promover o sustento do trabalhador, inclusive com programas de inserção do mercado de trabalho ou de promoção do empreendedorismo.
Não é o caso, por exemplo, do programa que vi em uma penitenciária, em que os detentos aprendem a fazer sapatos, mas a única empresa que produz sapatos na região não contrata ex-detentos!
Nem é o caso de ensinar o detento a instalar o Windows e o Office e largá-lo no mercado com o título de “técnico em informática”.
Sem investir em estratégias que possibilitem a inserção efetiva do miserável no mercado de trabalho, mesmo com as contrapartidas de estudo com aproveitamento e cadastro de disponibilidade para preenchimento de vagas o sujeito vai continuar desempregado e com grandes dificuldades, dependendo dos programas do governo.
Tá, Arthur. A última, não vou ficar batendo tecla contigo:
1 – A pobreza argumentativa:
“eu conheço gente que …”. Opa, quantos? 3, 5, 24, 88, 1000? O Brasil tem 200 MILHÕES de habitantes, bacana! E destes, uns 30 milhões vivem ABAIXO DA LINHA DA POBREZA. E eles não curtem isto. Além do mais, essa conversa fiada de “não dar o peixe, mas ensinar a pescar” só se aplica quando O INFELIZ DO PESCADOR CONSEGUE, AO MENOS, SEGURAR O CANIÇO e não ser fisgado pelo peixe.
2 – A desonestidade intelectual:
Condicionar programa de transferência direta de renda na economia (ação governamental drástica para diminuir rapidamente a diferença entre ricos e pobres) a “contrapartidas” é, SIM, SENHOR, desonestidade intelectual (ou ignorância). As ações podem ser conjuntas, mas nunca uma depender diretamente da outra, visto que são POLÍTICAS PÚBLICAS DISTINTAS: uma para aplacar a miséria, outra para desenvolver os que SAEM da miséria. Exigir nota boa de um desnutrido de nascença só fará com que ele morra de fome definitivamente.
3 – O desconhecimento de macroeconomia básica:
Quando o governo coloca dinheiro diretamente NA MÃO de pessoas excluídas do processo de consumo, provoca um EFEITO MULTIPLICADOR automático EM TODA A ECONOMIA LOCAL. Com isto, oferecem-se mais empregos e quem tem a condição de trabalhar para ganhar R$ 515 não vai ficar em casa com cinquentinha no bolso, vai? Você aceitaria passar a vida coçando sua bolsa escrotal abrindo mão de 90% dos seus rendimentos?
Por último: o chamado “curral eleitoral” do Lula (ah, o nome dele só tem um “L”, tá? não imite O.de C. e R.A.) não é formado só por “esmoleiros do bolsa-família”, e sim por TODOS que sentiram o crescimento econômico gerado, PRINCIPALMENTE, pelo expressivo aumento no salário-mínimo (são MILHÕES de pensionistas e aposentados, por exemplo, que viram sua renda ser suficiente para uma subsistência digna) e todos os demais participantes da cadeia de consumo gerada por esta transferência direta de renda. O Abílio Diniz, por exemplo, AMA O LULA, e não encontrei o nome dele no cadastro do BF.
90% dos brasileiros aprovam Lula porque melhoraram de vida durante o governo dele. E podem melhorar mais ainda, se os próximos governos (sejam eles quais forem!) INCLUI-LOS pela educação SEM RETIRAR UMA PALHA do que já foi conquistado no campo da distribuição de renda. Até Serra sabe disso, tanto que fala em “ampliar, dobrar, triplicar” o BF. E essa promessa, sim, é eleitoreira e não faz o menor sentido, a não ser que ele esteja falando em valor do benefício, não em abrangência, que precisa é diminuir. E VAI DIMINUIR, pode esperar. Até os vetustos senhores do Banco Mundial sabem disso. E apóiam o BF!
Este país é MUITO DESIGUAL ainda, sr. Arthur. O que precisa MESMO acontecer aqui é a história do Robin Hood, não essa sua do Robinson Crusoé.
OK, Vinícius, se não queres debater mais longamente a questão, pelo menos vou deixar registrada a minha resposta.
1 – “pobreza argumentativa”
Tu dizes que, se eu não conheço todos os 30 milhões que vivem abaixo da linha da pobreza, então não posso falar em nome deles. Minha pergunta: tu conheces todos eles? Se a resposta for negativa, então estamos em igualdade de condições para opinar.
É óbvio que o miserável não gosta de estar abaixo da linha da pobreza. Ele vê novela – o único lugar do barraco onde com certeza não tem goteira é em cima da TV – e deseja tudo aquilo que a publicidade produz para seduzir o remediado. Ele quer o tênis de marca, a roupa fashion, o celular bacana. Qualquer um que lhe der uma graninha para chegar mais perto destes sonhos é considerado um herói. É por isso – e só por isso – que o governo Lulla foi reeleito e vai fazer a Dillma como sucessora.
O que tu esqueces é que o sujeito que tem esses sonhos já tem capacidade de aprender a segurar a vara de pescar. O que eu quero é que ele não seja obrigado apenas a ficar ao lado do pescador (freqüência sem aproveitamento) e sim que ele aprenda de fato a pescar (aproveitamento teórico e estágios práticos, de preferência com encaminhamento direto ao mercado de trabalho na conclusão de cursos profissionalizantes).
Se o sujeito não tem condições de assistir um curso com aproveitamento e realizar estágios remunerados para se preparar para o mercado de trabalho, então o caso dele não é de Bolsa-Família, é de aposentadoria por invalidez.
2 – “desonestidade intelectual”
Vou partir do princípio que essa expressão está mal empregada, ou considerar que a alternativa de achar que é ignorância elimina a tese da desonestidade intelectual, porque duvido que realmente penses que eu esteja tergiversando com segundas intenções. Acredito que já me conheces o bastante para saber que eu não desceria ao nível da dissimulação.
Eu discordo radicalmente que seja razoável avaliar este tema pensando em “duas políticas distintas”. A divisão que propões, entre “aplacar a miséria” e “desenvolver os que saem da miséria”, é enganosa exatamente pelos motivos denunciados neste artigo, ou seja, ela não retira realmente da miséria o beneficiário da esmola oficial, ela mantém o pobre coitado dependente do programa do governo. Se a subvenção é cortada, o sujeito volta à miséria original. Isso não é tirar alguém da miséria.
E, como eu disse antes, se “exigir nota boa de um desnutrido de nascença só fará com que ele morra de fome definitivamente”, então que se aposente logo o desgraçado por invalidez. Se ele tem condições de se recuperar, que lhe seja exigido esforço; se ele não tem condições de se recuperar, que lhe seja dada a tranqüilidade de uma aposentadoria e não se deixe o desgraçado inseguro para usá-lo como joguete eleitoral.
3 – “desconhecimento de macroeconomia básica”
O efeito multiplicador pode ocorrer… ou não. No caso do Programa Bolsa-Família, o teu argumento de que a economia vai crescer, o número de empregos vai aumentar e então o cara que ganha 1x vai poder se empregar para ganhar 10x não está correto, por um motivo muito simples: se ele não estudou com aproveitamento, não adianta abrir vagas para mão-de-obra qualificada, porque ele não obterá essas vagas; se as vagas forem abertas para mão-de-obra desqualificada, de qualquer modo o beneficiário do Programa Bolsa-Família será o último na competição por essas vagas, o que transforma essa discussão de “avaliação do Programa Bolsa-Família” em “avaliação de política nacional de pleno emprego”.
Por último, é claro que muita gente melhorou de vida no governo Lulla, aliado do Collor, seguidor fiel da política econômica implantada pelo FHC. Quem não melhoraria de vida com ampla distribuição de dinheiro? (Não confundir “distribuição de dinheiro” com “distribuição de renda”, senhor sabe-tudo de macroeconomia.) Eu nunca disse o contrário.
O que eu digo – vamos ver se agora fica claro – é que essa melhoria de vida obtida deste modo é uma faca de dois gumes, pois coloca um imenso contingente humano na condição de insegurança perante a manutenção ou não de um programa eleitoral, fora as inúmeras distorções, clientelismo e corrupção que – sabemos muito bem – abundam no Programa Bolsa-Família.
Nem devias ter entrado no mérito da felicidade dos grandes capitalistas, é óbvio que eles são os maiores beneficiários deste programa, pois são os únicos com capacidade de investimento para se adaptar rapidamente a flutuações de demanda.
O problema não é a felicidade dos grandes, é o condicionamento da felicidade dos pequenos aos interesses eleitorais e ao projeto de poder de grupos autoritários que não estão interessados no real desenvolvimento econômico das massas de miseráveis deste país.
Sabe o que eu não entendo no teu discurso e no discurso do Marcus? A resistência em exigir contrapartidas dos beneficiários de um programa social. É como se só fosse válido dar dinheiro se for de graça, porque nada pode ser exigido dos coitadinhos. No meu modo de ver, a defesa deste tipo de coitadismo é um grande entrave à implantação de projetos de desenvolvimento econômico-sociais que realmente transformem este país elevando a cultura e a economia a patamares menos vulneráveis à politicalha eleitoreira.
Roberto…..eu acho que o Arthur está sendo “politicamente correto” ao tentar mostrar
uma coisa que muitos sabem,mas que preferem ignorar.
Vivo em uma das regiões mais miseraveis do país e aqui….a ajuda do governo…..além de não chegar a ttodos que verdadeiramente precisam,ainda incentivam as mulheres a ter filhos SÓ para ter uma ajuda de MIL E QUINHENTOS reais.
Essas infelizes esquecem que um filho vai lhes custar muitíssimo mais do que isso.
Acho que qualquer ajuda é ótima……se for uma ajuda verdadeira.
Se fosse um salário,atrelado a um curso profissionalizante e a cooperativas auto-sustentável…..maravilha!
Arthur eu tambem concordo em ajudar os necessitados. Problema que require alguem para receber dinheiro nunca vai acontecer. E vamos fingir que algum politico require voce procurar emprego para receber assistencia. Sempre vai vir um outro politico por tras prometendo mais coisas por troca de um simples voto e nem mais um pingo de esforco do lado do necessitado. E o mais ridiculo de tudo, se o dinheiro e dado pelo governo, saiu do meu bolso. Make taxes voluntary. Manda dinheiro quem acredita no governo. Want to be elected into office? Show me your budget for the term you plan on staying in office. Meio que mudei de assunto…but oh well
Joseph, escolhe livremente o idioma em que quiseres escrever. Fica à vontade para escrever em português, ou em inglês, ou em qualquer mistura dos dois idiomas.
Isso que tu disseste é verdadeiro: sempre vai aparecer um outro político prometendo mais benefícios sem pedir nenhum esforço em troca. Isso é o que está acontecendo hoje no Brasil. O candidato à presidência da República José Serra está prometendo dar mais dinheiro para mais gente que a candidata Dilma Roussef. E a Dilma está prometendo dar mais dinheiro para mais gente que o atual presidente, o Lula. Todos eles estão prometendo dar dinheiro que vai sair do meu bolso sem pedir nada em troca. É uma vergonha.
Mas “make taxes voluntary” não funcionaria. Ninguém mandaria dinheiro. Ah, sim, talvez alguns filantropos doassem muito dinheiro e talvez alguns cidadãos oferecessem alguma ajuda, claro. Mas não seria suficiente para fazer o país funcionar.
“Problema que require alguem para receber dinheiro nunca vai acontecer.”
Desculpa, eu quis dizer que obrigar alguem a ter que fazer alguma ato para poder receber dinheiro nunca vai acontecer.
Eu entendi tua intenção.
http://www.espacoacademico.com.br/082/82zimmermann.htm
Poxa Arthur, você confessa a ignorância sobre o assunto e exige o direito de criticar por criticar e depois sou eu quem está jogando pedras.
Seu texto está norteado de preconceito e desconsidera todo o histórico de descaso das populações mais pobres.
Marcus, eu disse que não conheço a realidade da Suécia e da Inglaterra em detalhes. Isso é a mais pura verdade. Eu não poderia argumentar sobre a realidade destes países porque não sei se há outras informações relevantes que não estão contidas no teu texto. Por exemplo, pode haver alguma política de estímulo à qualificação profissional ou algum imposto ao estilo “seguro obrigatório” que em conjunto com a tal doação de 250 pilas locais compense a insanidade de dar dinheiro para as pessoas sem exigir nada em troca, estimulando-as a se manterem improdutivas e serem sustentadas pelo Estado.
Não tem preconceito nenhum no meu texto, o fundamento dele é uma análise econômica bem objetiva. As pessoas reagem a incentivos. Pague para que elas não façam nada e elas não farão nada. Pague para que elas se esforcem e elas se esforçarão.
Nenhum “histórico de descaso” precisa ser levado em consideração nessa análise. O que tem que ser levado em consideração são as condições objetivas de inserção no mercado de trabalho ou de implantação de empreendimentos viáveis.
Noutras palavras, o que o governo tem que fazer é verificar se o sujeito está na beira de um rio ou de uma floresta, ensinar o cara que está na beira do rio a pescar, ensinar o cara que está ao lado da floresta a caçar e financiar uma vara de pesca para o primeiro e um arco-e-flecha para o segundo.
O Bolsa-Família está dando peixe para um, dando carne de caça para o outro, mantendo os dois na mesma situação e tornando-os dependentes da esmola oficial.
Esse programa é ótimo para os grandes capitalistas, que vêem seu mercado aumentado graças ao aumento do poder aquisitivo dos miseráveis, e é ótimo para os políticos, que mantém os miseráveis dependentes e portanto criam um imenso curral eleitoral.
Para o contribuinte que paga o peixe e a caça, essa é uma relação de simples exploração. Ele está sendo obrigado a pagar o sustento de outros sem receber nenhum benefício em retorno, nem mesmo a satisfação de contribiur para o desenvolvimento real dos necessitados, porque é óbvio que quem apenas recebe dinheiro pra não fazer nada não tem qualquer motivo para começar a fazer alguma coisa por si mesmo.
A perversidade maior de um programa assistencialista como o Bolsa-família, entretanto, é a de que ele traz uma melhoria rápida nos índices econômicos a curto prazo, mas cobra um preço muito alto em imobilidade e dependência econômica a longo prazo. Exatamente como o vício em entorpecentes, que dá prazer no início e se torna um inferno difícil de abandonar depois.
É mesmo… o Programa Bolsa-Família é literalmente uma droga.
Acabo de ler o artigo que sugeriste. E sabes que informação encontrei lá? Esta aqui:
“Os dados acima demonstram que não há uma correlação significativa entre a introdução de programas de renda mínima e a reestruturação produtiva.”
Exatamente o que eu tenho dito.
E por que a situação destes países não degenera em “hordas de Sábados mamando nas tetas do governo”, como disse o Vinícius?
Porque eles fazem pelo menos uma parte do que eu digo pra fazer:
“Normalmente, a única condicionalidade imposta é a disposição de aceitar um trabalho, via de regra, mediado por uma agência estatal de intermediação de postos de trabalho.”
Depois os autores apresentam uns dados sobre distribuição de renda, mostrando a evolução do Coeficiente de Gini (que eles estranhamente chamam de “Índice GINI”), e afirmam:
“Essa redução na desigualdade de renda foi possível graças a intervenção do Estado, especialmente através de programas de transferência de renda.”
Dã! Não me diga! Se eu tenho dez dinheiros e tu quatro, o “índice de diferença de riqueza” é seis. Se eu te dou dois, eu fico com oito e tu com seis. O índice caiu pra dois. Isso é uma constatação típica do Capitão Óbvio!
A questão relevante é outra: para que o índice continue baixo, tu vais ter que aprender a produzir ou eu vou ter que continuar te dando dois dinheiros?
Se tu vais ter que aprender a produzir, eu topo dar uma força no início, até que tenhas condições de te manter em um patamar digno com tuas próprias forças, mas vais ter que mostrar esforço.
Se tu vais ficar recebendo meu dinheiro através de impostos, sem ter qualquer obrigação de sequer se esforçar para cuidar de ti mesmo, então vamos chamar esse programa por um nome melhor: Bolsa-Parasita.
A conclusão dos autores é ideológica e nada tem a ver com os dados que eles apresentam:
“No caso brasileiro, nossas políticas, especialmente o Bolsa Família, deveria conceder benefícios bem mais generosos, extinguindo os rigorosos testes de meio de caráter vexatório de comprovação da pobreza e as demais condicionalidades.”
Ah! Que beleza! Eu também acho! Quero que o benefício seja de R$ 10.000,00 mensais per capita e que não haja necessidade de qualquer comprovação de pobreza nem qualquer condicionalidade.
Então eu vou me inscrever no programa – os autores do estudo citado propõe explicitamente a extinção de comprovação de pobreza e outras condicionalidades – e ir morar na beira da praia, viver tomando água de coco e comendo peixinho grelhado com limão, sem me preocupar em trabalhar.
Melhor ainda: como ninguém vai precisar passar pelo vexame de comprovar pobreza nem pelo constrangimento maldoso de ter que cumprir qualquer condicionalidade, vamos todos os brasileiros morar na beira da praia, curtindo a vida mansa numa boa.
Só tenho uma pequena dúvida: quem vai pagar a conta?
É um detalhezinho irrelevante, né?
Toca o bonde, seu governo!
Quem se preocupa com detalhes?
Piorou… se o que você pretendia era uma análise econômica bem objetiva, você acaba de contestar a trajetória justamente dos países que disse não conhecer: Dinamarca, Inglaterra, Suécia… que se desenvolveram de maneira equânime, independente e consistente. Cuja solidez econômica se justifica pela força do mercado interno, pelo padrão de consumo advindo da igualdade social e, no qual, a renda de exportação não se concentra em grandes fortunas, mas no provimento de reservas financeiras e previdência.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Gunnar_Myrdal
Se você contesta um programa de transferência de renda aplicada nos moldes daqueles países citados, ou você procura mais informações históricas para sustentar os seus argumentos e fazer uma crítica com conteúdo, ou você faz o que fez neste seu texto: um amontoado de achismos, preconceitos, apologética reacionária e cartesianismo chulo…
Se eu resolvesse escrever um texto sobre drogas na forma de uma metáfora e, depois de alertado por amigos, me recusasse a observar dados que demonstram meus equívocos sobre o assunto, mais: aprofundasse no absurdo dizendo que maconha deixa rouco, maconha causa demência, causa mais câncer do que o cigarro, além de ser “a porta de entrada para outras drogas”… você -com toda razão- iria repudiar o meu texto. No entanto, sua postura é de se fazer de desentendido quando eu e o Vinícius te criticamos por fazer o mesmo nesta questão dos benefícios sociais.
No mais, as ideias apresentadas na sua metáfora e depois, nos comentários, são típicas do século XIX. Seu raciocínio adota o modelo Bismarckiano, moralista e falido. A evolução dos programas de transferência de renda passou justamente de um modelo Bismarckiano para um modelo Beveridgeano, no qual se preza pela universalidade do benefício, com objetivo de se garantir a todos os cidadãos uma renda mínima e no qual não se exige prerrogativa alguma do candidato à Bolsa (a não ser a óbvia: nacionalidade).
Volto a repudiar o seu argumento de que o contexto histórico deve ser desconsiderado. Estamos falando de uma barreira cultural de marginalização de populações inteiras. O foco deve ser colocado sobre as populações que historicamente tiveram à parte da sociedade, justamente porque essas populações estão comprometidas em sua auto-estima, estão doutrinadas por instituições religiosas, mídia e governo a ficarem onde estão e se conformarem com o que têm. Somente com o mínimo de dignidade, com o suprimento das capacidades mínimas daquela população, acabando com a fome fatalista à qual estava condenada, você já consegue estimulá-la a sair em busca de mais para si.
http://www.mobilizacaobr.com.br/profiles/blogs/sobre-o-bolsa-familia
http://g1.globo.com/economia-e-negocios/noticia/2010/07/em-13-anos-128-milhoes-sairam-da-pobreza-absoluta-mostra-ipea.html
Marcus, o que acontece com um morador de rua que possui apenas um cobertor velho e anda de chinelo de dedo com uma calça rasgada, uma camiseta furada e um blusão imundo quando a temperatura atinge -15°C, neva e venta? R: Ele morre. É por isso que não existem miseráveis na Suécia.
Pode conferir num mapa-mundi: o único país de alto IDH no mundo que tem uma parte de seu território na zona tropical é a Austrália. Todos os demais possuem climas frios ou pelo menos invernos rigorosos.
A correlação do IDH com o clima é muito forte: tanto não existe país com IDH > 0,95 na zona tropical, exceto a Austrália, quanto não existe país com IDH < 0,5 fora da zona tropical, exceto o Afeganistão.
Nenhum outro indicador econômico ou política de desenvolvimento tem uma correlação tão forte quando o IDH quanto a temperatura mínima média no inverno.
Agora vou te esperar traduzir este fato em termos econômicos antes de te mostrar quem é aqui que está escrevendo um amontoado de achismos.
E eu quero ver a fundamentação do que seriam “preconceitos, apologética reacionária e cartesianismo chulo”. Pra mim isso pareceu só um piti do tipo “eu não gostei, então você é bobo”. Não vi o menor embasamento nessas acusações.
Acabo de ler o artigo que sugeriste. E sabes que informação encontrei lá? Esta aqui:
“Os dados acima demonstram que não há uma correlação significativa entre a introdução de programas de renda mínima e a reestruturação produtiva.”
Caso essa correlação fosse demonstrada, a divisão entre economia heterodoxa e economia ortodoxa não faria mais sentido algum. Embora seja um dos focos de escolas heterodoxas recentes (como a da Economia Evolutiva e a Economia de Não-Equilíbrio ), ainda não tivemos sucesso consolidado numa teoria que unifique a microeconomia à macroeconomia num mesmo modelo. Porém, o fato de não haver “correlação significativa” não significa que não há correlação. No mais, basta ver o desempenho econômico dos países em questão nos últimos 30 anos. Basta ver o fracasso neoliberal generalizado, no mesmo período. Por conta dessas ricas e exitosas trajetórias estamos prestes a assistir uma mudança de paradigma cujo aspecto de desempenho econômico não mais será o reles crescimento do PIB mas sim o desenvolvimento humano e a sustentabilidade.
Porque eles fazem pelo menos uma parte do que eu digo pra fazer:
“Normalmente, a única condicionalidade imposta é a disposição de aceitar um trabalho, via de regra, mediado por uma agência estatal de intermediação de postos de trabalho.”
Ora, Arthur, fácil recortar o texto dessa forma e, com o recorte, querer montar o que você quer dizer. Considere a definição do modelo Beveridgeano de transferência de renda, lá está claro: se caracteriza pelo seu caráter universal, não exigindo contribuição individual anterior para a obtenção de um benefício básico, aferindo direitos sociais pela característica definidora da cidadania, ou seja, o simples fato da pessoa ter nascido ou possuir o passaporte de um determinado país.
Também é notável a sua ignorância sobre o Bolsa Família que exige, entre outras coisas, que a gestante beneficiária faça pré-natal, que as crianças da família beneficiada estejam matriculadas numa escola, que apresente carteira de vacinação em dia…
A conclusão dos autores é ideológica e nada tem a ver com os dados que eles apresentam:
“No caso brasileiro, nossas políticas, especialmente o Bolsa Família, deveria conceder benefícios bem mais generosos, extinguindo os rigorosos testes de meio de caráter vexatório de comprovação da pobreza e as demais condicionalidades.”
A conclusão dos autores é totalmente condizente com a economia heterodoxa, que é por onde o artigo é referendado. Concordo plenamente com os autores,na medida em que não se combate desigualdade social apenas combatendo a miséria. Deve-se ir além e incentivar na medida do possível o equilíbrio entre renda individual e renda média da população. Mais uma vez, nada novo, na Suécia 80% do seu salário iria para o “leão”.
1) O fato é que “os dados demonstram que não há uma correlação significativa entre a introdução de programas de renda mínima e a reestruturação produtiva”. Se isso tem conseqüências para a nomenclatura da teoria econômica, não me interessa.
2) Que raio de “fracasso neoliberal generalizado” é esse?
Os EUA tiveram um PIB de 14,2 TRILHÕES de dólares em 2009.
A China adotou estratégias liberais para desenvolver sua economia e acaba de superar o Japão, passando a ser a segunda maior economia do mundo, com cerca um terço do PIB dos EUA.
O Japão é um país capitalista, foi destroçado por uma guerra mundial há apenas 65 anos e tem o terceiro maior PIB do mundo.
As 26 maiores economias do mundo, segundo a lista de PIB nominal de 2009 do FMI, são economias de livre mercado. A 27ª posição é ocupada pela Venezuela única e exclusivamente por causa do petróleo.
Destes 26 países, 19 estão na lista dos maiores IDHs do mundo, o que mostra que o PIB tem alta correlação com IDH.
Na verdade, se observarmos as características dos países que ocupam as demais posições da lista dos 26 mais altos IDHs do planeta, verificaremos que todos eles são países pequenos, cujo PIB per capita é alto, eles só não figuram entre os maiores PIBs do planeta porque não têm população suficiente para isso.
Então… onde está o tal “fracasso neoliberal generalizado”?
3) Eu não fiz nenhum recorte tendencioso no texto. Citei uma frase que traz uma informação isolada que é crucial para o que estamos debatendo.
A frase que eu citei mostra uma ação levada a cabo nestes países. Uma ação cujos resultados são perfeitamente coerentes com meus argumentos.
O trecho que tu citaste não mostra nenhuma ação, é apenas uma declaração de conceitos. Não dá pra inferir nenhum resultado prático de uma mera declaração de conceitos.
4) A conclusão deles não é baseada em dados, é uma declaração de opinião. Eles acham que deveria ser assim, então dizem isso. Mas os dados que eles mesmo mostram invalidam o conselho que dão, porque “os dados acima demonstram que não há uma correlação significativa entre a introdução de programas de renda mínima e a reestruturação produtiva”, independentemente das boas intenções das quais o inferno está cheio.
5) Ainda não vi uma resposta razoável a minha pergunta: por que tanta resistência a exigir uma contrapartida do beneficiário de um programa social? É por coitadismo?
Não, eu não concordo contigo. Lumpens não são a regra, até onde compreendo, são excessão. Acredito que os investimentos em educação, saneamento, segurança e etecetera são fundamentais a qualquer setor da sociedade. Da elite ao populacho.
Acredito em contra partida que esses recurso devem ser empregados em maior peso em comunidades como as que citei anteriormente. Até aí acho que ninguém discorda de mim.
O que quero dizer é que as oportunidades devem ser iguais, mesmo que pra isso eu pague uma merreca mensal em tributos pra sustentar outro. Não vejo esse abismo futuro em função dessa mixaria que o governo paga, ao contrário de você.
Eu não falei que o Programa Bolsa-Família vai aumentar o abismo social, não analisei por esse lado. Até acho que vai, mas isso não vem ao caso agora. O que eu disse é que ele constitui um incentivo à estagnação ao invés de um incentivo ao desenvolvimento.
Eu também questionei o motivo pelo qual as pessoas que estão me criticando neste artigo são tão contrárias a exigir uma contrapartida dos beneficiários do programa. Afinal, se o objetivo é fazer o sujeito caminhar com as próprias pernas, não faz sentido não exigir que ele se esforce para ficar em pé sozinho, depois que dê os primeiros passos, depois que solte da mão que o está sustentando.
1) O fato é que “os dados demonstram que não há uma correlação significativa entre a introdução de programas de renda mínima e a reestruturação produtiva”. Se isso tem conseqüências para a nomenclatura da teoria econômica, não me interessa.
Se você quis fazer um texto sobre economia e não quer discutir economia, logo isso reforça a minha afirmação de que estamos tratando de um amontoado de achismos, preconceitos, apologética reacionária e cartesianismo chulo…
2) Que raio de “fracasso neoliberal generalizado” é esse?
Os EUA tiveram um PIB de 14,2 TRILHÕES de dólares em 2009.
Que reducionismo!!
Pra começar os EUA sempre falaram em liberalismo da boca para fora. SEMPRE foram protecionistas. NUNCA irão deixar de sê-lo e os motivos são históricos a ver o que motivou a Guerra da Secessão.
No mais, os EUA perderam posição para a UE, justamente por reflexo monetário, não fosse só isso, sua moeda segue em ritmo de desvalorização, tiveram que quase implorar para a China valorizar o Yuan e não só o yuan e o euro se valorizam, mas o real e as moedas de todos os países que adotam câmbio flutuante está valorizando, o nível de emprego nos EUA nunca foi tão baixo, a reforma da saúde -que NUNCA havia passado no congresso devido a esse mesmo raciocínio “liberal” -hoje vige, embora ainda esteja muito longe do ideal, o prazo de cobertura do salário desemprego foi estendido e caso isso não ocorresse a tímida, lenta e gradual melhora na economia americana sofreria um grande golpe pois não haveria medida anticíclica capaz de garantir fomento a essa recuperação – O QUE PROVA, MAIS UMA VEZ, QUE BENEFÍCIOS SOCIAIS TÊM IMPACTO POSITIVO EM QUALQUER ECONOMIA, Fundos de Pensão e Previdência estavam exclusivamente na mão do mercado, hoje boa parte deles foram estatizados e Obama já sinaliza que pretende mantê-los na mão do Estado.
A China adotou estratégias liberais para desenvolver sua economia e acaba de superar o Japão, passando a ser a segunda maior economia do mundo, com cerca um terço do PIB dos EUA.
Como eu já disse, a China não adota cambio-flutuante, não tolera ingerências em sua institucionalidade, ou seja, não negociam “autonomia do banco central”, não há metas de inflação pois, PASME Arthur (veja que liberal e que “livre-mercado” que a China é!), ela ainda adota o modelo de plano Quinquenal, onde os valores de produtos que influem sobre o índice geral de preços são congelados e redefinidos a cada 5 anos!! Assim como ocorria na falecida CCCP!!!
Fora isso, a China tem: monopólio estatal sobre o investimento em energia, mineração, infra-estrutura pública e, sobretudo, sobre o sistema bancário do país – e é através desse sistema bancário que o Estado Chinês mantém-se sócio de uma grande parcela das empresas no país e ainda sustenta investimentos fora dele, veja a obra termoelétrica de Candiota, tem capital do CITIC. Tática liberal? Ah sim! China faz dumping a nível mundial, mas o especulador não é um grupelho de investidores chinês, mas sim o estado chinês como um todo, com políticas de subsídio e arrocho salarial.
As 26 maiores economias do mundo, segundo a lista de PIB nominal de 2009 do FMI, são economias de livre mercado. A 27ª posição é ocupada pela Venezuela única e exclusivamente por causa do petróleo.
Destes 26 países, 19 estão na lista dos maiores IDHs do mundo, o que mostra que o PIB tem alta correlação com IDH.
A China não é uma economia de livre-mercado, como já expliquei. O que faz com que alguns governos adotem vistas grossas, principalmente os governos daqueles países que adotam um modelo de inserção econômica primária-exportadora (infelizmente o nosso caso), a considerem a China como economia de mercado é a contrapartida da entrada no exuberante mercado chinês com 300 milhões de pessoas aptas a consumir e pagar bem pelo o que consomem.
A Venezuela, assim como a Arábia Saudita, assim como boa parte da economia russa, assim foi com a Holanda, teve sua economia hipertrofiada pelo dinheiro-fácil do monopólio do petróleo e do gás. Como você gosta de pujança, podemos falar da Austrália que também tem sua economia hipertrofiada pela renda de mineração (urânio e carvão e minério de ferro), isso não a impede de estar em 2o. no IDH embora seja só a 13a. em PIB… Além da Austrália temos o Chile que é um caso atípico de país
Se você quer comparar riqueza de um país com o nível de IDH da sua população, deve comparar o IDH com o PIB (em Paridade de Poder de Compra) per capita. A lista é esta daqui. A correlação que você menciona vai para 21 países dos 29 considerados. Vale fazer algumas considerações: todos os países com IDH acima de 0,960 tem programas fortes de benefício social e TODOS empregaram essa política, conciliada com medidas protecionistas, como forma de fomento econômico ao mercado interno. Os EUA, embora seja o 6o. país em PIB per capita, é o 13o. em IDH e apresenta coeficiente de Gini de 0,408 , enquanto que a Suécia é o 15o. em PIB per capita, o 7o. em IDH e apresenta coeficiente de Gini de 0,25. Logo, como modelo a ser seguido em termos de desenvolvimento humano e social, o modelo sueco é MUITAS VEZES MELHOR que o modelo americano que, por sua vez, dá sinais claros de saturação, além de indicar mudanças no seu percurso sob pena de falir por completo.
3) Eu não fiz nenhum recorte tendencioso no texto. Citei uma frase que traz uma informação isolada que é crucial para o que estamos debatendo.
A frase que eu citei mostra uma ação levada a cabo nestes países. Uma ação cujos resultados são perfeitamente coerentes com meus argumentos.
O trecho que tu citaste não mostra nenhuma ação, é apenas uma declaração de conceitos. Não dá pra inferir nenhum resultado prático de uma mera declaração de conceitos.
Não, não, não, um cara que fez mestrado em ecologia não pode dizer simplesmente que “Não dá pra inferir nenhum resultado prático de uma mera declaração de conceitos”…
É o mesmo que dizer, abreviadamente e com uma seletividade confortável de análise de dados, que o Lamarckismo e o Darwinismo “dão na mesma”.
Conforme estava no texto:“Normalmente, a única condicionalidade imposta é a disposição de aceitar um trabalho, via de regra, mediado por uma agência estatal de intermediação de postos de trabalho.”
Ou seja, não são todos os países que impõe essa regra e não é obrigatório estar trabalhando e, sim, se exige a disposição em trabalhar. Também não há condicionalidade para se fazer curso profissionalizante, como também não há prazo para se esgotar o benefício. Caso não haja emprego, o benefício se mantém! E essa é a principal diferença, ainda que seja sutil, é a mais determinante para o sucesso de um modelo de benefícios, porque um país tem sua deteriorização social durante uma crise econômica que impacta diretamente sobre a disponibilidade de empregos.
4) A conclusão deles não é baseada em dados, é uma declaração de opinião. Eles acham que deveria ser assim, então dizem isso. Mas os dados que eles mesmo mostram invalidam o conselho que dão, porque “os dados acima demonstram que não há uma correlação significativa entre a introdução de programas de renda mínima e a reestruturação produtiva”, independentemente das boas intenções das quais o inferno está cheio.
Não, eles apontam a trajetória exitosa, sólida e inconstestável de desenvolvimento social e econômico de países como a Suécia, a Dinamarca, a Noruega,o Reino Unido, entre outros. Já expliquei que, caso tivesse correlação significativa, vinculante e determinística, que apontasse para resultados seguros (ainda não temos essa teoria), entre programas de renda mínima e reestruturação produtiva, NUNCA MAIS iríamos ver governos cortando investimentos sociais, previdência e demais despesas públicas por conta de crises cuja causa não tem NADA A VER com o financiamento dos mesmos.
Além desses exemplos distantes, podemos ver o sucesso destacado que o Brasil teve ao sair da MAIOR CRISE FINANCEIRA MUNDIAL DESDE 1929 ao SE RECUSAR a cortar gastos e investimentos públicos, além de dar aumento residual a benefícios sociais, o que contribuiu para que os impactos fossem minimizados.
5) Ainda não vi uma resposta razoável a minha pergunta: por que tanta resistência a exigir uma contrapartida do beneficiário de um programa social? É por coitadismo?
As contrapartidas estão aí, leia o Programa:
http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/condicionalidades
No mais, o artigo é claro em explicar a evolução de um modelo de programas ao outro:
Essa nova percepção teria reconhecido que, acima dos direitos associados ao trabalho, encontra-se a pessoa humana, com direito a se reproduzir, independentemente de ter trabalhado ou não, incluindo não apenas os incapacitados para o trabalho (doença ou idade), mas inclusive aqueles que não conseguem obter uma renda através de um emprego. Segundo Sorj (2004, p. 39), isso resultou na extensão dos direitos originados no mundo do trabalho (incluindo uma renda mínima, aposentadoria e serviços médicos) a todos os cidadãos de um determinado país. A ampliação dos direitos para além do mundo do trabalho ocorreu via uma maior intervenção do Estado, sendo que os programas de renda mínima[4] constituíram um dos pilares dos direitos sociais.
1) “Se você quis fazer um texto sobre economia e não quer discutir economia, logo isso reforça a minha afirmação de que estamos tratando de um amontoado de achismos, preconceitos, apologética reacionária e cartesianismo chulo…”
Vinícius, eu disse “Se isso tem conseqüências para a nomenclatura da teoria econômica, não me interessa.” em resposta a tua afirmação que “Caso essa correlação fosse demonstrada, a divisão entre economia heterodoxa e economia ortodoxa não faria mais sentido algum.” porque tu estás mudando o foco da discussão para um assunto irrelevante.
Este artigo não foi escrito para discutir nomenclatura econômica, se é heterodoxa, ortodoxa ou raioqueopartodoxa, foi escrito para criticar a porcaria do Programa Bolsa-Família, que devido a seu planejamento com interesses meramente eleitorais e de curto prazo vai acabar causando graves danos ao Brasil a longo prazo.
2) Ah, quer dizer que em lugar nenhum do mundo existe neoliberalismo? Por que então meteste o neoliberalismo no debate? Estavas falando do “fracasso neoliberal generalizado” em que países? Favor citar os países onde o modelo é neoliberal e o motivo pelos quais estes países fracassaram, ou eu vou achar que estás de enrolação pra cima de mim.
3) Uma coisa é o resultado de uma ação, outra coisa é uma declaração de princípios. Eu mostrei uma ação: “exigência de contrapartida”. Tu mostraste uma declaração de princípios: “a cidadania ser baseada apenas na nacionalidade, blá-blá-blá, acho certo dar dinheiro”. Se não consegues perceber a diferença, fica difícil prosseguir.
E, se voltares a lei o que eu já expliquei, eu nunca falei que a obrigatoriedade era de estar trabalhando e sim de estudar com aproveitamento, inscrever-se em um cadastro de mão-de-obra e não rejeitar trabalho por motivos fúteis.
4) Já te falei: cita algum país fora a Austrália cuja média mínima de temperatura no inverno seja positiva que começas a ter chance de emplacar este argumento. Caso contrário, a melhor correlação é com o frio, não com as políticas de “dar dinheiro de graça” que tu estás defendendo.
Aliás, ainda não vi resposta sobre o motivo pelo qual é tão ruim, monstruoso, torturante, terrível exigir contrapartidas de quem é beneficiário de programas sociais. Vou perguntar de novo: é só por coitadismo?
5) Pô, Marcus, tu achas mesmo que eu ia escrever sobre o assunto sem antes fazer o dever de casa? Achas que eu não li isso antes de baixar o sarrafo?
Vou reproduzir aqui as condicionalidades para deixar bem claro que estou com a razão:
“Na área de saúde, as famílias beneficiárias assumem o compromisso de acompanhar o cartão de vacinação e o crescimento e desenvolvimento das crianças menores de 7 anos. As mulheres na faixa de 14 a 44 anos também devem fazer o acompanhamento e, se gestantes ou nutrizes (lactantes), devem realizar o pré-natal e o acompanhamento da sua saúde e do bebê.
Na educação, todas as crianças e adolescentes entre 6 e 15 anos devem estar devidamente matriculados e com frequência escolar mensal mínima de 85% da carga horária. Já os estudantes entre 16 e 17 anos devem ter frequência de, no mínimo, 75%.
Na área de assistência social, crianças e adolescentes com até 15 anos em risco ou retiradas do trabalho infantil pelo Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), devem participar dos Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) do Peti e obter frequência mínima de 85% da carga horária mensal.”
Ora, bolas…
Na área da saúde, o compromisso é ficar de corppo presente no posto de saúde pro médico trabalhar.
Na área da educação, o compromisso é ficar de corpo presente em sala de aula pro professor trabalhar.
Na área de assistência social, o compromisso é ficar de corpo presente sei lá eu em que pardieiro pro assistente social trabalhar.
Em nenhum dos casos é exigido desempenho, nem sequer esforço, basta estar de corpo presente que os outros trabalham.
O beneficiário não precisa sequer fingir que leva a sério o programa, porque não há cláusula de exclusão nem mesmo por parasitismo escancarado e debochado.
Isso só é uma estratégia “exitosa, sólida e inconstestável de desenvolvimento social e econômico” na imaginação de quem desconhece o princípio mais básico da economia: “as pessoas reagem a incentivos, mas não necessariamente da maneira que queremos que elas reajam”.
Mais uma vez: declarar como se gostaria que o mundo funcionasse não faz com que o mundo passe a funcionar deste modo. O artigo que citaste e a tua argumentação são um monte de wishful thinking, mas “os dados demonstram que não há uma correlação significativa entre a introdução de programas de renda mínima e a reestruturação produtiva”.
O modo de promover mudanças significativas é o que eu defendo: exigência de contrapartidas no contexto de um programa social em que é ensinado a pescar para quem mora na beira do rio, financiada a vara de pescar e exigido que o sujeito vá estagiar na pesca com orientação adequada para se aperfeiçoar e supervisão/fiscalização para ser excluído do programa se fizer corpo mole.
Apenas complementando:
Além da Austrália, temos o Chile, que é um caso atípico de economia que se mantém principalmente com a renda de mineração. Outro ponto que chama a atenção na economia chilena é o discreto sucesso que obteve ao se adotar o neoliberalismo como doutrina econômica, embora esse sucesso seja muito bem explicado:
A história de construção da estabilidade financeira do Chile foi marcada por muito mais tentativas e erros do que se costuma supor. Muitos analistas costumam dividir o “milagre chileno” em dois “milagres”: um “primeiro milagre” (1973-1982), quando os Chicago Boys e suas idéias monetaristas da Escola de Chicago reinaram absolutas – e que terminou na grande depressão de 1982 – e um “segundo milagre” chileno (definitivo), que foi o idealizado por Hernán Büchi (1985-1989).
http://pt.wikipedia.org/wiki/Neoliberalismo_chileno
Chicago Boys (em português: Garotos de Chicago) foi o nome dado a um grupo de aproximadamente 25 jovens economistas chilenos que formularam a política econômica da ditadura do general Augusto Pinochet. Foram os pioneiros do pensamento neoliberal, antecipando no Chile em quase uma década medidas que só mais tarde seriam adotadas por Margaret Thatcher no Reino Unido.
A maioria destes economistas receberam sua instrução econômica básica na escola de economia da Pontifícia Universidade Católica do Chile, e foram mais tarde estudantes de pós-graduação na Universidade de Chicago. Foram os responsáveis pelo “Milagre do Chile” (Milagro de Chile), denominação dada pelo economista norte-americano Milton Friedman (The Miracle of Chile).
http://pt.wikipedia.org/wiki/Chicago_Boys
O segundo (definitivo) milagre chileno: Hernán Büchi 1985-1989
Pinochet trocou três vezes de ministro da fazenda, até finalmente acertar com Hernán Büchi, que promoveu uma onda de privatizações e conseguiu, finalmente, colocar a economia chilena no rumo do desenvolvimento econômico, tornando-se famoso como o responsável pelo segundo milagre chileno.[5] Büchi obteve seu MBA na Universidade de Columbia e tinha uma formação diferente dos Chicago Boys, embora compartilhasse de suas principais idéias econômicas. Logo ao tomar posse Büchi reverteu a maiorias das medidas econômicas keynesianas tomadas por seu antecessor imediato, Luis Escobar Cerda, mas não todas.
O Chile nunca seguiu cegamente as recomendações do neoliberalismo, tendo privatizado apenas a metade de suas minas de cobre. A principal empresa do Chile, a Corporação do Cobre – CODELCO, (primeiro produtor mundial de cobre, e maior empresa do país, responsável por 45% das exportações chilenas, que fora nacionalizada em 1971 por um decreto do presidente Salvador Allende, pondo fim a trinta anos de exploração americana) continuou a ser uma empresa estatal e aporta anualmente recusros milionários ao orçamento governamental. Na sua gestão, Büchi retornou a um certo liberalismo econômico, mas de forma muito mais controlada que a aplicada anteriormente pelos Chicago Boys, e sem o dogmatismo que movia seus predecessores.
Assim, contrapôs às medidas ortodoxas certas medidas intervencionistas como, por exemplo, uma forte desvalorização artificial do peso – que tornou-se sub-valorizado, favorecendo as exportações e dificultando as importações – , o rígido controle da taxas de juros pelo Banco Central e uma lenta, porém contínua, redução das tarifas alfandegárias.
No seu primeiro relatório como ministro da fazenda, Büchi justificou suas intervenções na economia chilena:
A política econômica é necessária para orientar corretamente o esforço da poupança e dos investimentos. A experiência nos ensinou a importância de uma adequada regulamentação das variáveis macroeconômicas, já que sem ela o mercado se desorienta e as poupanças se desperdiçam, ou fluem para o exterior, de forma que os investimentos se canalizam para operações improdutivas ou especulativas.
Misturando, com maestria, suas convicções na eficiência dos livre-mercados com medidas intervencionistas, como defendeu no texto acima (que poderia ter saído de uma manual econômico keynesiano), Büchi deixou de lado ideologias e dogmas econômicos para encontrar o conjunto ideal de medidas de política econômica que foram capazes de tirar o Chile da recessão em que havia mergulhado e assim criou os alicerces do “segundo” e definitivo milagre chileno.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Neoliberalismo_chileno
No mais, por que essa rejeição cega e infundada por programas de renda mínima e esse seu desprezo pela história e, conseqüentemente, pelas causas das pessoas que NUNCA TIVERAM coisa alguma na vida, assim como seus antepassados?
Comentando a única parte que faz sentido comentar neste contexto: quem fez a pergunta fui eu e não vou aceitar a inversão dela. Primeiro tu respondes qual o problema em exigir contrapartidas e depois eu respondo tuas perguntas a respeito.
Arthur,
Com seu último argumento tentando relacionar o frio ao sucesso dos programas de renda mínima dos países nórdicos, além de divertir a análise do desempenho do neoliberalismo dizendo que fui EU quem incluiu o tema no debate, sem tecer qualquer comentário relevante, eu sigo o Vinícius e me despeço dessa discussão.
Com todo o respeito, e até com a admiração que nutro por você, por conta de outros ricos debates que você me apresentou, eu devo te dizer -com toda a sinceridade- que você é um completo ignorante em economia, além de colocar seus pontos de vista ideológicos acima de qualquer análise de dados reais conforme expus acima.
Novamente, como amigo e leitor de blog, eu te sugiro mais calma, racionalidade e sobriedade nessas questões. Porque não estamos prestes a ver uma “revolução” de “vagabundos” que ganham “bolsa-esmola”…. Do contrário eu já consigo te ver aderindo à campanha vazia, sem propostas e calcada no medo neomacartista que um de nossos candidatos está disseminando.
“Tentando”? Eu não “tentei” coisa alguma, eu “mostrei” uma correlação verdadeira e fortíssima, facilmente comprovável por qualquer um que faça o dever de casa e verifique a lista de países conforme o IDH e verifique onde eles se situam no planeta.
Aliás, nem precisa ter trabalho algum para pesquisar isso, porque esse mapa já está pronto e tem uma cópia disponível na Wikipédia: Mapa do IDH no Mundo. Tudo que é necessário fazer é traçar as linhas dos trópicos neste mapa e comprovar que, conforme eu falei, somente o Afeganistão e a Austrália fogem do padrão que eu descrevi.
E… como é que é? Não foste tu que incluíste o neoliberalismo no debate? Ah, claro, deve ter sido a Mãe Joana…
Este é o teu texto: “Basta ver o fracasso neoliberal generalizado, no mesmo período.” Postado às 17:26 de 31/07/2010. Acima ou antes dele não há nenhuma referência a neoliberalismo. O meu artigo não passa nem perto de citar neoliberalismo.
Se tu não estivesses tão comprometido ideologicamente, enxergando chifre em cabeça de cavalo, não estarias negando o que tu mesmo fizeste.
E quem teve um piti aqui, demonstrando falta de “calma, racionalidade e sobriedade”, foste tu. Eu estou bem tranqüilo, disposto a seguir explicando meu pensamento, mantendo o meu foco na crítica do Programa Bolsa-Família.
Mas fica a vontade para pular fora por não teres como responder de modo fundamentado o que eu perguntei sobre por que não exigir contrapartidas aos beneficiários de programas sociais. Só recomendo não utilizar tantos adjetivos ofensivos com outros interlocutores quanto usaste comigo, porque se eu apenas endureço o tom e mantenho a objetividade, outros vão responder à altura e vais acabar trocando sopapos na lama com eles.
Teu primeiro comentário já começou com “Que bobeira esse seu texto” e terminou com “é mesmo muita desonestidade intelectual. Pensamento paupérrimo de classe média.” Ofensivo e preconceituoso.
Depois disseste que meu texto é “um amontoado de achismos, preconceitos, apologética reacionária e cartesianismo chulo”, uma agressão gratuita e espontânea, pois não fiz qualquer provocação anterior. Gratuita, espontânea e desprovida de fundamento, porque é apenas um amontoado de adjetivos.
Mais adiante fizeste essa acusação: “sua postura é de se fazer de desentendido”. Quando eu fiz isso? Nunca. Eu nunca me nego a responder o que me é questionado, a não ser quando uma pergunta que eu fiz deixa de ser respondida pelo meu interlocutor e me é devolvida, obviamente.
Quando eu usei os dados apresentados pelo próprio trabalho que citaste para demonstrar que as conclusões dele são falsas, tu disseste “Ora, Arthur, fácil recortar o texto dessa forma e, com o recorte, querer montar o que você quer dizer.”, como se eu tivesse manipulado dados ao invés de apresentar friamente um dado claro que é apresentado no texto do trabalho. (E ainda vens dizer que eu é que apresento “desonestidade intelectual”.)
Depois reforçaste a afirmação sobre “um amontoado de achismos, preconceitos, apologética reacionária e cartesianismo chulo”.
A seguir te negaste mais de uma vez a responder minha pergunta sobre por que és contra exigir contrapartidas dos beneficiários dos programas sociais, devolvendo a pergunta de modo agressivo, dizendo que a minha rejeição a uma coisa que eu já expliquei por que não funciona é “cega e infundada”.
E finalmente pulaste fora do debate sem responder minhas perguntas e dizendo que eu sou “um completo ignorante em economia”, o que me fez rir bastante, e que me falta “calma, racionalidade e sobriedade”.
Agora lê um por um dos meus comentários e me diz quando foi que eu te ofendi, quando foi que eu te chamei de ignorante e quando foi que eu abandonei o debate de idéias.
E tu é que vens me dizer que estás decepcionado?
Pensa bem.
Apenas complementando a penúltima postagem:
Além da Austrália, temos o Chile, que é um caso atípico de economia que se mantém principalmente com a renda de mineração. Outro ponto que chama a atenção na economia chilena é o discreto sucesso que obteve ao se adotar o neoliberalismo como doutrina econômica, embora esse sucesso seja muito bem explicado:
A história de construção da estabilidade financeira do Chile foi marcada por muito mais tentativas e erros do que se costuma supor. Muitos analistas costumam dividir o “milagre chileno” em dois “milagres”: um “primeiro milagre” (1973-1982), quando os Chicago Boys e suas idéias monetaristas da Escola de Chicago reinaram absolutas – e que terminou na grande depressão de 1982 – e um “segundo milagre” chileno (definitivo), que foi o idealizado por Hernán Büchi (1985-1989).
http://pt.wikipedia.org/wiki/Neoliberalismo_chileno
Chicago Boys (em português: Garotos de Chicago) foi o nome dado a um grupo de aproximadamente 25 jovens economistas chilenos que formularam a política econômica da ditadura do general Augusto Pinochet. Foram os pioneiros do pensamento neoliberal, antecipando no Chile em quase uma década medidas que só mais tarde seriam adotadas por Margaret Thatcher no Reino Unido.
A maioria destes economistas receberam sua instrução econômica básica na escola de economia da Pontifícia Universidade Católica do Chile, e foram mais tarde estudantes de pós-graduação na Universidade de Chicago. Foram os responsáveis pelo “Milagre do Chile” (Milagro de Chile), denominação dada pelo economista norte-americano Milton Friedman (The Miracle of Chile).
http://pt.wikipedia.org/wiki/Chicago_Boys
O segundo (definitivo) milagre chileno: Hernán Büchi 1985-1989
Pinochet trocou três vezes de ministro da fazenda, até finalmente acertar com Hernán Büchi, que promoveu uma onda de privatizações e conseguiu, finalmente, colocar a economia chilena no rumo do desenvolvimento econômico, tornando-se famoso como o responsável pelo segundo milagre chileno.[5] Büchi obteve seu MBA na Universidade de Columbia e tinha uma formação diferente dos Chicago Boys, embora compartilhasse de suas principais idéias econômicas. Logo ao tomar posse Büchi reverteu a maiorias das medidas econômicas keynesianas tomadas por seu antecessor imediato, Luis Escobar Cerda, mas não todas.
O Chile nunca seguiu cegamente as recomendações do neoliberalismo, tendo privatizado apenas a metade de suas minas de cobre. A principal empresa do Chile, a Corporação do Cobre – CODELCO, (primeiro produtor mundial de cobre, e maior empresa do país, responsável por 45% das exportações chilenas, que fora nacionalizada em 1971 por um decreto do presidente Salvador Allende, pondo fim a trinta anos de exploração americana) continuou a ser uma empresa estatal e aporta anualmente recusros milionários ao orçamento governamental. Na sua gestão, Büchi retornou a um certo liberalismo econômico, mas de forma muito mais controlada que a aplicada anteriormente pelos Chicago Boys, e sem o dogmatismo que movia seus predecessores.
Assim, contrapôs às medidas ortodoxas certas medidas intervencionistas como, por exemplo, uma forte desvalorização artificial do peso – que tornou-se sub-valorizado, favorecendo as exportações e dificultando as importações – , o rígido controle da taxas de juros pelo Banco Central e uma lenta, porém contínua, redução das tarifas alfandegárias.
No seu primeiro relatório como ministro da fazenda, Büchi justificou suas intervenções na economia chilena:
A política econômica é necessária para orientar corretamente o esforço da poupança e dos investimentos. A experiência nos ensinou a importância de uma adequada regulamentação das variáveis macroeconômicas, já que sem ela o mercado se desorienta e as poupanças se desperdiçam, ou fluem para o exterior, de forma que os investimentos se canalizam para operações improdutivas ou especulativas.
Misturando, com maestria, suas convicções na eficiência dos livre-mercados com medidas intervencionistas, como defendeu no texto acima (que poderia ter saído de uma manual econômico keynesiano), Büchi deixou de lado ideologias e dogmas econômicos para encontrar o conjunto ideal de medidas de política econômica que foram capazes de tirar o Chile da recessão em que havia mergulhado e assim criou os alicerces do “segundo” e definitivo milagre chileno.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Neoliberalismo_chileno
No mais, por que essa rejeição cega e infundada por programas de renda mínima e esse seu desprezo pela história e, conseqüentemente, pelas causas das pessoas que NUNCA TIVERAM coisa alguma na vida, assim como seus antepassados?