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O país em que eu quero viver

O país em que eu quero viver não está deitado eternamente em berço esplêndido esperando que um raio vívido de amor e de esperança à terra desça. O país onde eu quero viver está em constante vigília pela cidadania e seus habitantes é que irradiam amor em suas ações e constroem aquilo que desejam, não esperam acontecer.

Por mais prosaico que possa parecer, este artigo nasceu em um banheiro público. Para ser específico, a cena que praticamente me obrigou a escrever este artigo foi esta:

Algum destes avisos seria necessário em um país civilizado?

A bem da verdade, é necessário esclarecer que abaixo deste conjunto de cartazes havia uma cena da qual vou poupar o leitor. Para os propósitos deste artigo, basta dizer o seguinte: “o banheiro não estava lá muito limpo, não”.

O fato é que eu pensei: “mas por que não?”

Por que o banheiro não estava limpinho, perfumado, com um rolo de papel higiênico sequinho pendurado ao lado do vaso sanitário, sem qualquer cartaz solicitando o que deveria ser o óbvio ululante para qualquer indivíduo minimamente bem educado em qualquer lugar minimamente civilizado?

Será que em em suas próprias casas as pessoas que deixaram aquele banheiro no estado em que se encontrava também entopem o vaso sanitário jogando dentro dele rolos inteiros de papel higiênico e dezenas de clipes de papel presos uns aos outros?

Será que em suas próprias casas, depois de entupir propositadamente o vaso sanitário, aquelas pessoas também urinam e defecam nele e depois puxam a descarga até fazer o vaso transbordar e fazer excrementos e papéis sujos se esparramarem pelo chão?

Imagine este banheiro em uma rodoviária brasileira. Quanto tempo ele permaneceria nestas condições?

O país em que eu quero viver – podem me chamar de “elitista” à vontade – não é um país de porcos e vândalos, mas um país de gente bem educada e com gosto pelo bem comum.

Os banheiros públicos do país em que eu quero viver são bem arejados e iluminados, abertos 24 horas por dia, nos 7 dias da semana, sendo necessário para sua manutenção um único funcionário que passa uma vez por dia para recolher o lixo e repor os produtos de higiene pessoal e de limpeza do local.

Nos banheiros públicos do país em que eu quero viver há um armário com papel higiênico, toalhas de papel, sabonete líquido, shampoo e condicionador, desodorantes, talco, lencinhos umedecidos e fraldas de diversos tamanhos.

Há também um chuveiro com box e um conjunto de toalhas de pano acondicionadas em sacos plásticos selados, como aqueles dos hotéis, guardadinhas no mesmo armário sob a pia. E, claro, há um secador de cabelos sempre disponível.

Tudo isso com muita simplicidade e praticidade, como podemos ver na foto:

Vaso sanitário com ducha higiênica, box com chuveiro, pia com espelho, armário abaixo da pia e bancada parcialmente visível à direita da pia.

A única coisa que falta no banheiro da foto é a barra de apoio para deficientes físicos, que deveria ser instalada ao redor do vaso sanitério e também no interior do box para permitir um banho seguro e confortável.

E quem paga a manutenção disso tudo, a reposição dos produtos de higiene e limpeza, o salário do zelador, a água e a eletricidade, além dos eventuais consertos necessários devido ao natural desgaste dos materiais?

Ora… os usuários, é claro.

Bem no cantinho da bancada há uma lista com os preços dos produtos, uma máquina de cartão de crédito e um cofrinho. Cada um calcula e paga sua própria despesa e acrescenta uma doação espontânea, em geral cerca de 10% do consumo, para manutenção do sistema.

Uma máquina leitora de cartão de crédito é tão simples que qualquer um pode operar.

Para sua comodidade, também é possível pagar em dinheiro ou em cheque.

Não, no país em que eu quero viver não há problema algum deixar o dinheiro em um cofrinho aberto em cima da bancada. Lá todo mundo sabe que só se deve mexer no dinheiro do cofrinho para recolocá-lo no lugar certo em caso de queda acidental.

No país em que eu quero viver, o povo é honesto e gosta de colaborar para o bem comum. Mas isso às vezes também causa alguns problemas. Vou abrir um parêntese no artigo para contar uma dessas histórias.

O jogador de futebol e o zelador público

Lá no país em que eu quero viver havia um cidadão que que jogava futebol nas proximidades de um banheiro público. Todos os dias, após o jogo, ele usava aquele mesmo banheiro para tomar banho e trocar de roupas antes de ir para casa. Porém, ele sempre chegava com as chuteiras sujas de barro e deixava o chão sujo.

Incomodado com o fato de outra pessoa ter que limpar a sujeira que ele fazia, o jogador deixou um bilhete para o zelador do local solicitando que ele arranjasse um lugar para colocar um balde e um rodo com esfregão super-absorvente, a fim de que o jogador pudesse deixar o chão limpo para o próximo usuário.

Cidadão consciente ao término da utilização do espaço público.

O zelador respondeu deixando outro bilhete no cofrinho, no qual informava que não atenderia aquela solicitação porque não admitia que outra pessoa fizesse o trabalho pelo qual ele recebia seu salário. Ao invés disso, ele mudaria o horário do seu turno para limpar o banheiro sempre logo após os jogos.

Enfurecido por saber que outra pessoa não somente teria que limpar sua sujeira como ainda teria que mudar seus horários em função dos jogos, o jogador ameaçou o zelador dizendo que passaria a depositar uma quantia maior no cofrinho para cobrir as despesas com a limpeza do local caso o equipamento de limpeza não fosse disponibilizado.

Inconformado com a intransigência do outro, sem porém ter qualquer alternativa exceto a inaceitável hipótese de receber uma remuneração extra injusta para o que considerava o simples cumprimento de seu dever, o zelador finalmente cedeu e instalou uma prateleira abaixo da bancada para guardar o equipamento de limpeza.

Mas corre o boato que até hoje os dois reclamam um do outro.

Se você não acreditou nesta história, não sabe o que está perdendo. O país em que eu quero viver tem mesmo um povo muito camarada, que gosta de contribuir para o bem comum em todos os aspectos da vida, não apenas na manutenção dos banheiros públicos.

No país em que eu quero viver, quando uma chuva forte estraga o calçamento de uma rua ou a própria faixa de trânsito, a associação dos moradores locais telefona para a prefeitura e pergunta se eles poderão resolver o problema no dia seguinte. Nas poucas vezes em que isso não é possível, o que só ocorre quando todos os recursos humanos e materiais do Poder Público estão comprometidos com alguma emergência, a própria população resolve o problema imediatamente.

A associação de moradores contata uma empresa de construção, adquire os materiais necessários, organiza um mutirão e trabalha junto com os operários para resolver o problema o mais rápido possível. Resolvido o problema, a associação manda as notas fiscais dos materiais adquiridos para que a prefeitura faça os devidos reembolsos, o que é sempre feito com presteza e sem burocracia.

O único problema que surge nestes casos é que o pessoal da associação de moradores, a empresa de construção e os operários nunca cobram o tempo trabalhado. O prefeito sempre esbraveja, exige remunerar as horas de trabalho dispendidas na recuperação do pavimento, mas acaba tendo que aceitar a vontade da população.

Uma vez houve um prefeito que tentou uma vingança moral investindo o valor que teria sido gasto com a recuperação de uma rua no ajardinamento dos parques da região, mas a população adorou o resultado e não deu atenção quando ele revelou o golpe. Frustradíssimo com a falha de sua vingança, o coitado acabou reeleito com expressiva votação até mesmo dos membros do partido de oposição. Nem tudo é perfeito…

A tentativa frustrada de vingança moral do prefeito.

No país em que eu quero viver, você também pode viver.

Tudo que você precisa fazer é me ajudar a construir este país.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 26/04/2011

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10 comments to O país em que eu quero viver

  • Michel Makulia Chagas

    Olá.
    Tenho 18 anos e já faz algum tempo venho lendo suas postagens (para ser mais exato desde o dia do fato do Eaorkut – acho que esta escrito errado,mas não tem importância por que estou no Ensino Médio brasileiro e me considero semi-analfabeto.)
    E não pude deixar de comentar sobre essa sua excelente postagem,nunca pensei que aleguem nesse pais pudesse pensar semelhante a minha, você com essa simples postagem criou algo muito parecido com o que eu imaginei.
    Honestamente a muito tempo desisti de tentar mudar os pensamentos de conhecidos e amigos que não estão nem ai para patrimônios públicos e não tem um pingo de valor moral.Mas nada me impede de tentar novamente enviando o link desse post para “deus e o raio que o parta”.
    E não posso deixar de parabénizalo pela criatividade e pensamento de caráter que você dispõe.
    Espero que continue conteúdos interessantes como esse.

    • Muito obrigado, Michel. Eu tive que viajar de surpresa, portanto o blog não está sendo alimentado como deveria, mas em breve devo voltar a escrever. Fico grato pelo elogio.

      Muita gente gostaria de viver em um país assim… mas muito pouca gente começa dando o exemplo e dando apoio a quem age assim. Eu já fui chamado de otário por ter devolvido uma carteira com o dinheiro dentro. Ora, mas isso não é o mínimo que deveria ser feito?

  • Michel Makulia Chagas

    Olá.
    Tenho 18 anos e já faz algum tempo venho lendo suas postagens (para ser mais exato desde o dia do fato do Eaorkut – acho que esta escrito errado,mas não tem importância por que estou no Ensino Médio brasileiro e me considero semi-analfabeto.)
    E não pude deixar de comentar sobre essa sua excelente postagem,nunca pensei que aleguem nesse pais pudesse pensar semelhante a minha, você com essa simples postagem criou algo muito parecido com o que eu imaginei.
    Honestamente a muito tempo desisti de tentar mudar os pensamentos de conhecidos e amigos que não estão nem ai para patrimônios públicos e não tem um pingo de valor moral.Mas nada me impede de tentar novamente enviando o link desse post para “deus e o raio que o parta”.
    E não posso deixar de parabénizalo pela criatividade e pensamento de caráter que você dispõe.
    Espero que continue postando conteúdos interessantes como esse.

    • Muito obrigado, Michel. Eu tive que viajar de surpresa, portanto o blog não está sendo alimentado como deveria, mas em breve devo voltar a escrever. Fico grato pelo elogio.

      Muita gente gostaria de viver em um país assim… mas muito pouca gente começa dando o exemplo e dando apoio a quem age assim. Eu já fui chamado de otário por ter devolvido uma carteira com o dinheiro dentro. Ora, mas isso não é o mínimo que deveria ser feito?

  • Na parede do banheiro de uma oficina mecânica em Torres está escrito a dedo: “Este banheiro está sujo, mas é de graxa!”

  • No país em que quero viver, o trabalhador oferece um serviço com a qualidade que ele queria receber se fosse ele o cliente. Os vendedores das lojas sabem atender, os motoristas dos ônibus sabem dirigir. As faixas de pedestres são usadas de fato, as escolas de fato ensinam e todos os cidadãos têm o direito de estudar o que quiserem, quando quiserem e nos horários que bem entenderem. No país em que quero viver, não há escolas, elas são desnecessárias e convertidas em hospitais, centros culturais, museus, bibliotecas. No país em que quero viver, todos os serviços são fornecidos de forma rápida e eficiente, e os profissionais que os executam são treinados repetidamente e exaustivamente para que saibam o que estão fazendo.

    • Concordo integralmente com teu comentário, mas essa parte me chamou especialmente a atenção: “No país em que quero viver, todos os serviços são fornecidos de forma rápida e eficiente, e os profissionais que os executam são treinados repetidamente e exaustivamente para que saibam o que estão fazendo.”

      Isso porque assisti meio que por acidente um programa (no canal da National Geographic na TV por assinatura) que tem a ver com o que disseste.

      Houve um incêndio no túnel Mont Blanc em 24 de março de 1999 que matou 38 ou 39 pessoas (depende da fonte) porque as equipes de segurança estavam completamente despreparadas e não havia um protocolo de combate a incêndio.

      O motorista do caminhão que causou o incêndio parou o caminhão fora do local adequado para isso, o que fez com que os veículos que vinham atrás tivessem uma via bloqueada por um veículo em chamas pela frente. Ele só se salvou com vida porque correu para o lado italiano do túnel, uma escolha aleatória tomada em pânico.

      O operador italiano da segurança, ao invés de ligar as bombas de ar para sugar a fumaça da região incendiada, injetou ar no túnel, empurrando a fumaça para o lado francês. Em resultado disso, a fumaça passou a se deslocar mais rápido do que uma pessoa é capaz de caminhar, fazendo com que as pessoas que abandonaram os carros para fugir fossem intoxicadas pela fumaça e perdessem os sentidos antes de conseguirem chegar aos abrigos anti-chamas.

      As equipes de bombeiros entraram literalmente tateando as paredes e tiveram que se esconder por três horas em um abrigo anti-chamas até serem resgatadas.

      O túnel ardeu em chamas por 53 horas e os estragos foram tamanhos que demorou três anos para ser reaberto, causando prejuízos multimilionários.

      E olha que esse nem é um exemplo de nível educacional em geral, pois teoricamente se tratava de uma equipe especializada e supostamente muito bem habilitada para enfrentar qualquer problema deste tipo.

      É mole?

  • foi no teu blog que vi a mosca desenhada nos mictórios públicos holandeses?

    se não foi, e ainda não leu sobre isso, procura por isso no santo google… é muito interessante.

    meu novo livro tá saindo e estou começando a tirar o nariz pra fora…

    • Oi, Mauro! Não foi aqui, não, mas procurei e achei ótima a idéia. :)

      Faz um artigo pra divulgar teu livro que eu republico aqui no Pensar Não Dói, certo?

      E depois teremos muito a conversar sobre nosso projeto que anda parado…

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