Quem ama mata e outras baixarias: as lições da Rede Globo
O pai diz ao filho que deu a ele todo seu amor, mas que ele o rejeitou, e que agora o amor havia acabado. Então o filho responde:
– Você nunca me amou. Só duas pessoas me amaram: a mamãe e a Norma. Elas mataram por mim.
Isso é o que a Rede Globo ensina aos brasileiros.
A cena foi ao ar no último capítulo da novela Insensato Coração, em 19/08/2011. Para quem ler isso aqui antes da reprise no sábado, ainda dá tempo para conferir a cena.
Eu não gosto de assistir aula de mau-caratismo, então evito ao máximo assistir a TV aberta. Infelizmente, é praticamente impossível não assistir alguma coisa podre deste tipo na casa de alguém, ou ao passar em alguma loja com TVs ligadas, ou no intervalo do Jornal Nacional, que é o único programa que eu me permito assistir de vez em quando para não ficar muito alienado do que as pessoas estão falando. Mas a quantidade de maus exemplos exibidos na TV é tão imensa que mesmo assim não consigo fugir deles.
Em uma novela o vilão fugiu do país mandando uma banana. Em outra a vilã fugiu da cadeia enganando um carcereiro que se apiedou dela e permitiu que ela fosse visitar alguém da família (não lembro direito) com a condição de retornar para que ele não perdesse o emprego. Em outra novela a vilã simulou um assalto para matar o homem que a amava e não se deu mal porque a atriz que a interpreta é uma mulher bonita e muito simpática ao público telespectador. Isso entre dezenas de outros exemplos que eu – que não assisto novela – consigo lembrar fácil sem fazer qualquer busca na internet. Imagino o estrago na cabeça de quem não perde uma novela ou um Big Brother.
O resultado de toda essa baixaria do “horário nobre” no imaginário popular e na cultura do povo brasileiro é que o brasileiro cultua a Lei de Gerson; não dá a menor atenção para a política; ignora todas as denúncias contra um governo corrupto que comprou a consciência popular com uma esmola oficial; só se preocupa com futilidades como novela e futebol; reclama, reclama, reclama e não faz porcaria nenhuma para mudar a situação do país; quer sempre que os outros resolvam seus problemas; organiza abaixo-assinados contra o Dia do Orgulho Heterossexual quando a Europa está em peso nas ruas protestando contra a corrupção na política e a falta de oportunidades para milhões de pessoas terem uma vida decente (e olha que os padrões deles são muito mais elevados que os nossos); surta e se torna irracional quando se fala de qualquer assunto “polêmico” como drogas, prostituição ou homossexualidade; é intolerante e impositor quando se trata da vida do outro e leniente e adepto do “jeitinho” quando se trata de seus próprios interesses; etc.
Sou só eu que acho que a Rede Globo é a maior responsável individual pela cultura brasileira ser medíocre como é?
Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 20/08/2011
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Não, Arthur, se fosse só a TV ainda estaria tudo bem. Esses dias uma professora de Literatura mandou ler um tal de Madame Bovary, fiquei chocado! E a mulher ainda insinuou que aquilo era uma obra de alto valor literário! Imagina, uma perversidade dessas. Depois peguei a lista de obras obrigatórias do vestibular da UEL, e adivinha? Li um tal de O Bom Crioulo no qual o personagem principal faz com que o garoto por quem está apaixonado se sujeite a sua vontade e fique nu a contragosto. Sádico! Mau exemplo!
A escola devia nos educar e somos expostos a esse tipo de coisa. Chegamos à noite em casa e o que temos na TV? “Quem ama mata”.
Sem falar num livro de contos chamado “O Cobrador” que, por sorte e falta de tempo, acabei só lendo resumo, pra fazer o vestibular da UEM. Estarrecedor! Deviam selecionar livros adequados para lermos, ainda mais nessa idade na qual ainda não temos opiniões sólidas!
Por outro lado, ironias à parte, acho que as novelas poderiam assumir um alto valor educativo. Mas acho que não precisa excluir representações de comportamentos diferentes.
Interessante que tenhas citado justamente Madame Bovary. Uma vez encontrei um conhecido em uma livraria e ele estava com Madame Bovary em mãos, indo para o caixa. Disse que ia dar o livro de presente para a filha dele. Eu estava com um exemplar de O Pequeno Príncipe em mãos, então alcancei o livro para ele e disse: “leva esse aqui também, para fazer um contraste”. E ele levou mesmo!
Uma semana depois, a menina comentou comigo: “este livro [O Pequeno Príncipe] deveria ser lido por todo jovem que cursa o ensino médio; ele nos faz pensar sobre valores muito necessários e cada vez mais desprezados”.
E eu perguntei: “e o outro livro que ganhaste?”.
Resposta dela: “só terminei de ler aquele porque terei prova a respeito; não faz a menor falta na educação de ninguém, aliás é de se duvidar que essa leitura tenha feito bem a qualquer um dos estudantes da minha idade”.
Ela estava com 15 anos quando fez este comentário. Lúcida, não?
É o seguinte: opinião de quem é escritor:
A literatura lida com estética, não com ética. Quando o escritor elabora sua obra, ele não está preocupado com os possíveis alcances éticos de seu livro, mas apenas com sua realização estética. Tanto que a maioria das grandes obras da literatura não têm nenhuma lição ética aproveitável. Também não significa que livros com lições éticas sejam boas obras literárias, o que nos obriga também a saber separar bem as coisas.
Aos leitores é que cabe aprender a diferenciar, o que exige a presença de um professor que mande ler por outros motivos além de “fazer um trabalho na escola”.
Arthur, vc chegou a ver o que a National Geographic publicou sobre a influencia das novelas na fertilidade brasileira?
http://natgeo.televisa.com/articulos/336884/el-brasilenas
http://iadb.org/res/files/WP-633updated.pdf
Li ambos os artigos. Achei interessante copiar e colar aqui o abstract do segundo artigo:
Nada mais que o óbvio, nada mais que o esperado. Eu digo isso desde a novela “Barriga de Aluguel” ou daquela outra novela em que a internet foi apresentada aos brasileiros por uma cigana 100% implausível, sei lá qual das duas veio antes. Mas ainda há quem diga que “a TV apenas reflete a realidade”, como se isso tivesse algum sentido e ainda por cima fosse razoável. Não é. A TV cria a realidade. E a realidade que a TV cria através das novelas é a do brasileiro acrítico, apolítico, safado, ladrão, trapaceiro e sem nenhuma moral.
A Globo transformou o Brasil em um país de Macunaímas.
Pô, Arthur, eu estava tão ansioso pela sua resposta, tinha achado que ia te deixar sem resposta e você vem dizendo que realmente concorda com a ideia que eu defendi ironicamente… :\
Só pra constar, nunca li e nem nunca estudei no colégio Madame Bovary ou qualquer literatura que não seja portuguesa ou brasileira, e eu lamento isso, embora, pra falar a verdade, às vezes me pareça que até mesmo o estudo da nossa deveria ser mais superficial; o currículo é inchado.
HAHAHAHAHAHAHA!!!!! Essa foi Ó-TI-MA!!!
Eu captei a tua ironia, afinal ela foi declarada. Mas o que talvez não tenhas percebido é que há um grande fundo de verdade nela!
Eu também não li Madame Bovary, então não posso comentar nada a respeito. Não sei se é boa leitura ou não. Mas uma menina de 15 anos, muito inteligente e centrada, me disse claramente isso: “deveríamos alimentar nossas mentes com conceitos mais elevados, com disposições mais solidárias, com idéias mais produtivas, e isso inclui uma melhor seleção da liyteratura que é posta à disposição dos jovens nos currículos escolares; a porcaria chega sozinha às nossas mãos, precisamos de uma educação mais edificante”. Curiosamente ela TAMBÉM citou Madame Bovary como exemplo de literatura nada edificante, daí esta situação engraçada de agora.
Mas eu concordo que o currículo está inchado. Tão inchado que não dá tempo de estudar o essencial.
E “não precisa excluir representações de comportamentos diferentes” para desinchar e corrigir a rota dos currículos.
Ah, sim… eu não estranhei a citação de Madame Bovary porque eu tive algumas aulas de “literatura mundial”, onde vimos desde O Capital (analisado enquanto obra literária!!!) até poemas nepaleses obscuros, passando por Shakespeare, Tolstói e outros…
HUSAHUSUHHUSAHUSAUHSHUAHUSAHUSAHU, viram O Capital como literatura, adorei! Em que curso foi isso? Um raro professor de literatura que não era marxista, é isso mesmo? Me exporte essa preciosidade que eu sou lamentavelmente lesado nessa matéria.
Foi no terceiro ano do ensino médio. Um professor de literatura adorava demonstrar elementos “literários” em obras que tinham se tornado mundialmente conhecidas por outros motivos. Por exemplo, ele também analisou alguns dos Salmos do Antigo Testamento e o Apocalipse do Novo Testamento. Analisou as letras de algumas bandas de rock (incluindo Black Sabbath, meu!) e comparou com a Bossa Nova e a música gospel. O cara era muito doidão e inteligentíssimo.