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Arthur versus Lancelot

Todo Arthur é rei. Todo Ricardo é coração de leão. Todo Ronaldo é fenômeno. E todo Elvis é imortal, claro. Há nomes que condicionam destinos e nomes que tornam previsíveis 99% das piadas e citações que seu portador ouvirá. Mas você Imagina o que pode acontecer quando um Arthur conhece um Lancelot?

Eu estava assistindo um mini-curso de estatística em um simpósio sobre ecologia e meio ambiente, quando o palestrante solicitou que formássemos grupos para resolver um problema sobre delieamento amostral, que é meu assunto predileto em estatística, mas isso não vem ao caso agora.

Eu estava sentado entre duas garotas muito bonitas. Quando o palestrante solicitou que os grupos tivessem quatro integrantes, um participante que estava do outro lado da sala praticamente se atirou no meio de nós para fechar o grupo. As intenções dele ficaram bem claras, posso garantir.

Como eu tenho horror dessa pagação de mico de homem desesperado que parece que nunca viu mulher bonita na frente, sem querer deixei escapar um sorriso amarelo e um leve meneio de cabeça que tornaram perceptível minha reprovação à atitude dele. Ele percebeu e partiu pro ataque.

O sujeito se empertigou todo, apresentou-se como “Sir Lancelot, o melhor cavaleiro de Sua Majestade”, virou-se para mim e perguntou “e tu, quem és, ó cavaleiro de triste figura?” (Alusão a Dom Quixote.)

Bem, já que ele provocou…

Eu respondi: “Eu sou o Senhor teu Rei, Lancelot. Ajoelha-te diante de mim. Eu sou Arthur.” E apontei para o chão a minha frente.

Ele ficou irritado. Muito irritado. Perguntou: “qual é teu nome de verdade, ô palhaço?” Em resposta eu apenas acenei com o crachá e sorri. E as garotas caíram na gargalhada.

Pra quê…

Nunca vi alguém ficar tão vermelho quanto o tal Lancelot. O cara murchou inteiro. Gaguejou. Olhou para o chão e depois para o alto quase em desespero, como que a perguntar “Senhor! Senhor! Por que me abandonaste?” – juntou suas coisas e saiu da sala sem dizer mais nada, já com lágrimas a escorrer pelo rosto. Ele não voltou nos dois últimos dias do curso. E nunca mais o vi.

Não sei o que aconteceu na cabeça do tal sujeito, mas a julgar pela reação dele acho que foi algo realmente grave. Tive a impressão de ver a auto-estima do coitado se esfacelando em mil pedaços e caindo despedaçada para sempre no chão a minha frente, para onde eu havia apontado. Foi uma cena pungente e perturbadora.

Não acho que eu tenha sido culpado de nada. O sujeito era um babaca, chegou arrotando impertinência e estabeleceu voluntariamente um conflito desnecessário, na hora errada, por um motivo pra lá de medíocre. Ele certamente merecia uma puxada de tapete.

O que eu jamais imaginei foi que ele fosse desmoronar tão fragorosamente com um simples revide debochado. Se eu soubesse que causaria tamanho estrago, acho que não teria feito a piada. Confesso que até hoje sinto um aperto no coração quando lembro do episódio.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/09/2011

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