Rafinha Bastos e os telespectadores do CQC
A polêmica em torno da piada de Rafinha Bastos sobre Vanessa Camargo e seu bebê tem sido tão grande que mesmo eu – que não vejo TV desde o natal de 2010 – não consigo deixar de ser informado à força sobre seus desdobramentos. Mas o que mais me chamou a atenção neste episódio foi a imensa hipocrisia dos moralistas de plantão.
Cena 1:
Cinco caras dentro de um carro. Velocidade: 160 km/h e aumentando. Gritos de alegria. Expressões de desafio e de deboche lançadas de todas as janelas aos veículos ultrapassados. Uma garrafa de cerveja é jogada para o acostamento. Gargalhadas são ouvidas quando ela se espatifa no chão. Exortações ao motorista: “pisa fundo aí!”.
Cena 2:
Quatro caras em uma sala de audiência. Um deles em uma cadeira de rodas, onde vai passar o resto da vida. Um deles cego de um olho e com o rosto deformado para sempre. Um deles sem o braço direito. O quarto é o motorista, único que saiu ileso e atual réu em cinco processos: um criminal, de homicídio doloso, pois o quinto cara morreu no acidente, e outros quatro de indenização por danos morais e materiais, movidos pelos amigos mutilados e pela família do morto.
Mas peraí… na hora de dizer ao motorista “pisa fundo aí!” não estavam todos de acordo? Não gritavam todos juntos desafios aos outros carros e regozijavam-se da própria ousadia? Com que direito agora buscam de um dos seus uma indenização por fazer o que todos queriam?
Dizem que esse tal Rafinha Bastos é um humorista. Eu já assisti alguns CQC e só consegui me sentir constrangido e com vergonha alheia. Rir, que era o que eu queria, não deu pé. Então eu fiz o que é razoável fazer: não voltei a assistir o tal programa.
Agora eu vejo discussões intermináveis no Twitter e em alguns fóruns do Orkut sobre os “abusos” do tal Rafinha Bastos. Parece até que o cara foi demitido, sei lá. Tudo por causa de uma piada do mesmo estilo que tantas outras que lhe garantiram sucesso.
As mesmas pessoas que pediam “pisa fundo aí” ao Rafinha Bastos agora querem que ele seja punido. Mas com que direito, e com que coerência, se ele só deu aos telespectadores a baixaria que eles queriam e que premiavam com audiência?
Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 10/10/2011
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Na verdade, a tradução mais correta präquilo é “Ninguém tem o direito de não se sentir ofendido.” Se disser “…de não ser ofendido” a voz passiva implica q tem uma voz ativa, ou seja, q tem alguém te ofendendo, o q não é sempre o caso: como se verifica, toda hora tem alguém q se sente ofendido sem no estanto haver alguém ativamente ofendendo.
Isso é uma grande verdade. Lembro especificamente do caso dos “cristãos” que se sentem ofendidos pelo fato de dois gays se beijarem. E das acusações ridículas de que os gays fazem isso “só para afrontar a família” e coisas do gênero.
Engraçado que as mesmas pessoas que se arrogam esse direito não aceitam que a parte contrária reivindique o mesmíssimo direito. Quer dizer, um cristão se sentir ofendido por um beijo gay está certo, mas um gay se ofender por ser chamado de abominação é “tentativa de cerceamento de liberdade religiosa”.