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Uma reflexão sobre a lei, o pecado e as drogas

No artigo sobre As Quatro Nobres Verdades segundo o professor do Dharma Rodney Downey, do Zen Coreano, a Juliana perguntou: “Arthur… o que você acha da posição do budismo com relação as drogas?”. A resposta foi bem além do escopo original, incluindo também considerações de natureza lega e ética, e ganhou corpo suficiente para compor este artigo.

As religiões e as drogas

O problema para falar sobre “a posição do budismo” referente a qualquer coisa é identificar de que budismo estamos falando, ou de que interpretação do budismo… ou mesmo de que nível de interpretação de que budismo. A coisa é bem complexa, assim como seria complicado perguntar “a posição do cristianismo” sobre algum assunto específico. Que cristianismo, o católico, o protestante, o pentecostal, o neo-pentecostal ou o abertamente picareta meramente arrecadador de dízimo?

Eu vejo da seguinte forma: os budismos todos em geral desaconselham o uso de substâncias que entorpeçam a mente e fazem isso por um motivo que eu considero bastante razoável. O caminho do Buda se divide basicamente em três partes: treinamento em ética/moralidade, treinamento em sabedoria e treinamento em concentração/foco da mente. Substâncias entorpecentes dificultam esses treinamentos, logo não é uma boa idéia consumi-las. Até aí, tudo bem.

O problema é quando se começa a confundir “preceitos” com “mandamentos”.

No budismo – segundo minha visão, talvez os mestres budistas vejam isso de modo diferente – os preceitos são fórmulas grosseiras para não errarmos muito no caminho do Dharma enquanto não desenvolvemos a sabedoria a ponto de poder tomar nossas próprias decisões sem nos afundarmos em karma. Um ser “desperto” não precisa seguir os preceitos, porque ele é capaz de tomar todas as decisões necessárias, por mais extremas que sejam, sem produzir karma negativo para si.

Já no caso das religiões que contém mandamentos, como o judaíamo e o cristianismo, não há sabedoria a desenvolver – basta decorar os mandamentos e segui-los à risca. Eles já são a suma expressão da Justiça, oriundos diretamente da divindade, e não há exceção aceitável para sua aplicação.

Como ficam então as situações em que só é possível produzir o bem violando diretamente as diretrizes de uma dada religião? No caso das religiões que possuem apenas “preceitos” a lógica pode se impor, mas no caso das que possuem regras mandatórias eu imagino que haja uma grande dificuldade de identificar qual seja a ação correta.

Vejamos primeiro o mesmo problema em relação às leis e depois um exemplo esclarecedor.

A lei e as drogas

No mundo laico, o conflito entre preceitos e mandamentosé um pouco mais complexo, sendo os preceitos de uma sociedade representados por sua educação e cultura e os mandamentos representados por seu conjunto de leis, ou seja, as duas coisas se sobrepõem.

O grande problema é identificar qual a atitude mais ética em um dado momento, pautando-se mais pela idéia de agir de modo correto do que pela idéia de cumprir a letra fria da lei. Felizmente o nosso sistema legal apresenta uma certa flexibilidade em relação a isso, sendo possível argumentar em juízo – e ter este argumento considerado – quando a ética exige a tomada de uma ação ilegal. Mas este sistema está longe de ser perfeito, porque sempre há um legalista extremado que apega-se excessivamente à letra fria da lei sem levar em consideração que a lei é apenas um método para harmonizar o convívio social, não um ditame “sagrado” que deve ser cumprido a qualquer preço.

Agora vem a parte que vai dar o que falar…

Um exemplo interessante

Você está em uma cidade de interior, são duas horas da madrugada, não existe um hospital nem uma farmácia aberta a menos de 100 km de distância. Aí um amigo seu bate na porta da sua casa, já meio azul, e diz fraquinho “rápido, me ajude, estou no meio de uma crise asmática e não encontro a bombinha”.

As suas opções são duas: 1) correr até a boca-de-fumo mais próxima, comprar uma pedra de crack (uma droga com ação broncodilatadora) e fazer seu amigo “dar um pega” para salvar a vida dele; 2) deixar seu amigo morrer sufocado pela asma porque fornecer crack a ele é crime e ainda por cima é pecado.

Você infringe a lei, “peca” e salva o seu amigo?

Ou você cumpre a lei, age com “virtude” e deixa o seu amigo morrer?

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 24/10/2011

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9 comments to Uma reflexão sobre a lei, o pecado e as drogas

  • Francisco Fernandes Dias

    No cristianismo,a Igreja Católica,toma o “Exemplo Interessante”como uma forma de Pecado Venial.

    • Pois é, foi pensando nisso que produzi esse exemplo. Bem que eu gostaria de ver este exemplo analisado por uma autoridade eclesiástica do próprio Vaticano.

  • Manga-Larga

    Se fosse para escolher um bom broncodilatador, escolha a maconha que, além de mais eficiente do que o crack, é muito menos danosa ao organismo.

    PS: Publica este seu texto no Observador Político, não no seu blog mas nas discussões mesmo. Como te falei, lá ele aparece em destaque na página inicial e chama mais clicks. Categoriza ela dentro do assunto “Drogas”, aposto que seu artigo vai causar um rebuliço.

    Colado da wikipedia:
    “Uso da Cannabis como broncodilatador
    Sobretudo no século XIX, a cannabis proporcionou alívio para os asmáticos, pois produz dilatação dos brônquios. Há três mil anos já se conhece este efeito terapêutico da cannabis sativa (1). O uso de THC em microaerossol tem eficiência de até 60% como broncodilatador, sem efeitos parassimpáticos e efeitos mentais mínimos (2). Porém, estes aerossóis não têm a mesma eficiência que a cannabis em cigarro, pois o THC em aerossol tem efeito irritante das vias respiratórias. Outra pesquisa demonstrou que o THC evita o enfisema (3) e inibe a tosse (4), além de apresentar sucesso no tratamento da coqueluche (5).
    Fontes:
    (1)Ther.Gazz. 11 (1887): 4-7, 124 apud Robinson, Rowan. O grande livro da cannabis: guia completo de seu uso industrial, medicinal e ambiental. Rio de Janeiro: 1999, Jorge Zahar Editor. p. 33-34.
    (2) L. Vachon et al., Cherest 70, n. 3 (1976): 444.
    (3) D.P. Tashkin et al. American Rev. Respir.Dis.109(1974): 420-8; 122 (1975): 377-86.
    (4) R. Gordon et al., Eur. J. Pharmacol. 35 (1976): 309-13.
    (5) J. Hartley et al., British Journal of Clinical Pharmacology 5,n.6 (1978): 523-5. E J. Sirek, “Importance of Hemp seed im TB therapy” (em tcheco). Acta Univ. Palack. Olomuc. 6 (1955): 93-108.”

  • Juliana

    Arthur, adorei a parte dos preceitos e mandamentos! Vai ao encontro da minha interpretação pessoal dessa relação tb! Brigada pela resposta! Bjo grande

    • Hehehehe… volta e meia uma resposta a uma pergunta feita na caixa de comentários vira artigo. É muito legal quando acontece isso. Eu que agradeço. ;)

  • Jorge

    Acho que daria tempo de salvá-lo usando maconha, sim. Ela tem efeito bronco-dilatador imediato.

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