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Diretrizes para um debate sobre o aborto

Volta e meia alguém me propõe o tema do aborto como assunto para artigos no blog. Eu em geral evito o assunto porque estou cansado das falácias que costumam ser usadas neste tipo de debate, em especial a falácia de que a mulher deveria ter direito incondicional ao aborto porque se trataria de “direito a decidir sobre o próprio corpo”. Porém, como a questão é recorrente, resolvi fazer uma tentativa.

Minha posição é a seguinte: sou contra o aborto e considero a presente legislação adequada para proteger a vida e a saúde da mulher. Ponto.

Dito isso, apresento as seguintes diretrizes para um debate racional e laico sobre o aborto:

Ponto 1: a mulher tem todo o direito de fazer o que quiser com o próprio corpo, mas o feto não faz parte do corpo da mulher, ele apenas está lá dentro e depende dela.

Ponto 2: existem cinco maneiras de surgir um feto dentro do corpo de uma mulher. São elas:

1. Por vontade dela. (Quis engravidar, ou quis deixar para a sorte decidir.)

2. Por negligência dela. (Sabendo como funciona a reprodução, não utilizou métodos anticoncepcionais.)

3. Por acidente. (Usando um método anticoncepcional adequadamente, o método falhou.)

4. Por ignorância. (Não sabia que o sexo é o método natural de reprodução.)

5. Por estupro. (Não tomou qualquer decisão, esta foi tomada contra sua vontade.)

Nos casos 1, 2 e 5 não deveria haver controvérsia: as mulheres dos casos 1 e 2 não devem ter o direito de abortar, enquanto a mulher do caso 5 já tem esse direito garantido.

Nos casos 3 e 4 a controvérsia é admissível, mas absolutamente não sob o argumento falso de que se trata de “direito sobre o próprio corpo” e sim sob a ótica do conflito de direitos entre a gestante e o feto.

Afiem suas foices.

Atualização no mesmo dia:

Esqueci de citar no artigo uma exceção importante: quando o feto é inviável (anencéfalo, por exemplo), não vejo problema no aborto, porque não há uma vida esperando por ele.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 22/11/2011

111 comments to Diretrizes para um debate sobre o aborto

  • Paula

    Voce nao menciona casos de anormalidade severa do feto, por exemplo anencefalia. Neste caso um diagnostico de certeza pode ser firmado semanas antes da data provavel do parto, e o concepto e’ inviavel fora do utero.

    Alem disso, o conceito de viabilidade poe a prova tua opiniao sobre fazer ou nao fazer parte do corpo da mulher.

    Eu discordo que a posicao do feto (dentro da mulher) seja criterio para definir se feto faz ou nao faz parte da mulher.

    • Eu havia esquecido dos casos de inviabilidade fetal. Postei um adendo atualizando o artigo em função desta lembrança. Grato.

      Mas o conceito de viabilidade não põe à prova minha posição. Viável ou inviável, o feto é outro organismo, não faz parte do corpo da mãe.

      E, de fato, a localização do feto não é critério para definir se ele faz ou não faz parte do corpo da mulher. De onde tiraste isso, Paulinha?

  • Bruno

    Pois é… Complicado isso – Concordo com o Arthur. Tenho gêmeos e na época que a mãe deles estava grávida ela queria abortar, eu não deixei e sou contra. Afinal, existem métodos contraceptivos e tudo mais para impedir a gravidez.

    Ao mesmo tempo, sou a favor que mulheres possam abortar se quiserem – mas se isso fosse verdadeiro na época dos meus filhos, eu nem saberia que poderia ter sido pai… Então fico aqui, divagando, indeciso. Talvez se não tivesse meus filhos hoje eu seria totalmente a favor do aborto. Mas depois de ter passado pela experiência de ter de decidir isso e conhecer meus filhos hoje… Bagunça tudo.

    • Gerson B

      Esse é outro ponto a ser discutido, o direito do pai. A ideia do feto como parte do corpo da mulher (com o homem não devendo dar nem palpite) tem implícita a ideia de que não há relação entre o pai e o filho. Então que tal suspender todas as pensões alimentares? Muitos jogadores de futebol e musicos iam adorar!

      O pai tem deveres, nenhuma feminista nega isso. Mas não tem direitos. Ói o duplo padrão aii, geinnnnte!

    • Pois é… ao contrário do que a Paulinha lembrou, esse tema eu não esqueci, eu omiti de propósito para ver se surgia a lembrança. E, pelo visto, os homens estão a cada dia mais conscientes dos abusos do movimento feminista, o que é ótimo! :)

    • Rafael Holanda

      Gerson B.

      Esse é o caso do chamado Aborto Masculino, onde o pai, após saber da gravidez indesejada, abre mão de todos os direitos e responsabilidades da paternidade sobre a criança.

      Como eu coloquei em um tópico do Orkut sobre o mesmo assunto, eu só debato com pró-abortos que, por questão de coerência, também apóiam o Aborto masculino. Afinal o argumento “Nem o Estado e nem a sociedade podem me obrigar a ser mãe, pois o corpo é meu” também deveria valer como “Nem o Estado e nem a sociedade podem me obrigar a ser pai, pois a vida é minha”.

      Em tempo: sou contra o aborto, tanto o masculino quanto o feminino, pelas razões já explicitadas pelo Arthur

    • Interessantíssimo esse conceito de “aborto masculino”. Mas ele não é isonômico ao aborto praticado pela mulher, porque num caso a criança é morta e no outro ela vive – e se torna sujeito de direitos, podendo complicar a situação mais tarde.

  • Elvis

    Arthur, vou tentar argumentar com os conhecimentos que estão ao meu alcance, se eu falar besteira me corrija, por favor.

    Qual é o critério para saber se algo faz parte da mulher?
    Você pode alegar que o feto é um organismo diferente que vive em simbiose com a mulher, e tem até uma sequencia de genes diferente. Mas o meu DNA e o das mitocôndrias das minhas células não são diferentes também?

    Além disso, a própria multicelularidade não é uma associação simbiótica de várias células eucarióticas? Porque cada célula da mulher faz parte do seu corpo e o feto não? Novamente, se a diferença for nos ácidos nucleicos, os gametas também não fazem parte do corpo de ninguém. Nem uma célula mutante, ou uma que tenha incorporado material genético viral. Nem um órgão transplantado.

    Argumentos do tipo “um zigoto não pode ser morto porque é um ser humano em potencial” também esbarram em um problema. Um único átomo de carbono é um ser humano em potencial, assim como qualquer quantidade de energia, ou gametas.

    Se o argumento for “um zigoto tem uma semelhança genética x com outros seres humanos, por isso ele também é humano, enquanto o átomo de carbono e o gameta não”, pode-se responder que qualquer trissômico não é humano por essa lógica.

    O feto sente emoções? Outros mamíferos também.

    Mas, Arthur, mesmo se saísse na capa de uma revista semana que vem “Cientistas austríacos descobrem: Fetos não são seres humanos!”, você poderia simplesmente mandar acrescentar na DUDH, logo após o “todos os membros da família humana”, o trecho “mais os membros da família fetal”.

    • Gerson B

      Elvis, um átomo de carbono não é um ser humano em potencial. Pode fazer parte de um ser humano, mas não tende a se transformar em um ser humano. Não possui o padrão de informações que resulta num ser humano.

      E sim, seus mitocôndrias não são parte de você. São simbiontes, indispensáveis. assim como o feto não faz parte do corpo da mulher. É dispensável para ela, mas o oposto não é verdadeiro.

      Exceto em casos de mutação como em indivíduos em mosaico por exemplo, nenhuma parte do corpo de alguem tem um código genético diferente. Pode ter um código parcial (células reprodutoras). Isso em algumas anormalidades.

      Nenhuma parte do corpo de alguem pode ter uma existência independente de um corpo. Não dá pra tirar um coração, olho ou rim e ele se manter vivo de forma autônoma. O feto poderá, no devido tempo.

      Sobre os cientistas austríacos, como é uma situação hipotética, isso não é um argumento válido.

      E o argumento das emoções me assustou. Há quem defenda o aborto até a formação do sistema nervoso, pela (suposta) ausência de sofrimento. Mas a ideia de matar um ser com emoções não parece incomodar.

    • Elvis, não é difícil saber se o feto faz parte ou não do organismo da gestante. Basta ignorar as bobagens que os sofistas dizem a respeito e usar o mais elementar bom senso! :-)

      Mas tá, não quero te decepcionar, então vamos à resposta:

      Em primeiro lugar, dois organismos vivendo em simbiose não são um organismo só, são dois organismos vivendo em simbiose. Mas eu nem vejo sentido no uso do termo “simbiose” aqui, porque reservo este termo para associações tais como a de uma alga com um fungo, cujo conjunto chamamos de líquen.

      Ora, se dois organismos vivendo em simbiose podem se separar e continuar vivos em separado em uma dada época de seu desenvolvimento, isso indica que são de fato dois organismos, não um único organismo. Isso não é evidente?

      Poderia haver confusão se estivéssemos falando de árvores com a capacidade de lançar raízes das quais se desenvolverá uma nova árvore, por exemplo, mas aí a coisa vira muito mais uma discussão semântica do que um fato biológico. E o fato biológico de que tu não és um apêndice do organismo da tua mãe me parece indiscutível, certo?

      Em segundo lugar, tecnicidades como a identidade de DNA não são relevantes aqui. Há pessoas que possuem o DNA de dois indivíduos diferentes! São as chamadas “quimeras” – e eu ou tu podemos ser uma destas pessoas, na maioria dos casos não há como saber sem fazer um exame.

      Eu conheci pelo menos uma quimera humana: uma menina que tinha uma cor da metade para cima e outra cor da metade para baixo do corpo. Perguntei para a mãe dela (semi-analfabeta) se ela sabia o motivo daquilo, e ela só respondeu que “os médicos disseram que ela tem um troço chamado quimera, mas que não era pra se preocupar porque isso não fazia mal”.

      E aí? A menina era duas pessoas? :-P Não importa que raio de sofisma a gente use, a realidade é bem simples: é claro que não. ;-)

      Em terceiro lugar, como justificarias que “um átomo de carbono também é um ser humano”? (Quando a gente sabe que é óbvio que não é.)

      Eu já tive minhas fases de “contestador filosófico” que gostava de elaborar raciocínios deste tipo, mas descobri que a maior parte deste tipo de raciocínio cai na categoria das falácias de tomar o todo pela parte ou a parte pelo todo, ou uma combinação entre elas.

    • Gerson, eu também dizia que as mitocôndrias não faziam parte de nós… mas na real fazem, são simplesmente uma parte de nosso organismo que possui um sistema reprodutivo diferente do resto do organismo!

      Elas podem ter sido organismos simbiontes quando ainda éramos unicelulares, mas hoje fazem parte inseparável de nosso organismo, são tão humanas quanto um fígado ou um braço.

      O fato de uma parte do corpo ter um DNA e outra parte ter outro, como no caso das quimeras, não significa nada… por que chamar de “humano” só o DNA nuclear se o DNA mitocondrial é tão humano quanto?

  • Elvis

    E nem venha me dizer que não é “ético” abortar! :P AHAHAHAH

  • André

    O que mais me incomoda nessa questão do aborto é que as feministas defendem simultaneamente que:
    1) a decisão de abortar ou não é exclusiva da mãe;
    2) a responsabilidade por criar a criança (se a mãe decidir não abortar) é da mãe e do pai.

  • André

    Para não ficar em cima do muro: eu apóio a legalização do aborto até antes da formação do sistema nervoso, seja por uma questão médica (anencefalia), por estupro ou por conveniência. Nos dois primeiros casos o pai não precisa ser consultado, mas no terceiro sim.
    PS: Sabe a diferença entre um cara de esquerda e um de direita? O primeiro admite o aborto somente antes de 10 semanas de gestação, o segundo só após 10 anos.

  • Lunah Lan

    Eu não entendo de biologia tão bem quanto os senhores acima, nem mesmo tenho pesquisas ou estudos elaborados a respeito do tema, contudo, tenho uma posição clara. Não faria um aborto. Quando engravidei, no segundo mês de casada aos 18 anos, meu ex-marido implorou para que eu abortasse, virou-me as costas, entre outras coisas desagradáveis durante a gestação que não vem ao caso no momento, e quando minha filha nasceu ele ficou 6 meses sem olhar pra ela, sem pegar no colo, mesmo morando na mesma casa com a família dele. Aos 20 anos engravidei novamente, desta vez tomava remédios que não funcionaram, e a novela foi ainda pior, mesmo casada, morando em nossa casa, ele não aceitava a gravidez, ao ponto de me pedir que se não quisesse abortar, que fosse pra outra cidade tivesse a criança, desse para adoção e depois voltasse para a casa. Coisa que eu também não fiz. Eu entendo que ele estava em estado de choque, por não querer ter filhos, por não ter uma vida econômica estruturada, por medo, por babaquice, por qualquer coisa que fosse, e eu tinha tanto medo quanto, ou mais, afinal era o meu corpo que estava mudando. Mas a decisão pela vida delas foi minha e a responsabilidade toda, TODA depois também, tudo foi culpa minha, sempre.
    Portanto, tenho um pensamento a respeito do aborto: Não faço, como não o fiz. Mas, eu acredito que isso pode evitar que muitas crianças não vivam amadas ou cuidadas como deveriam, que muitas vivam pelas ruas ou em mãos de pessoas que as maltratem, senão fisicamente, psicologicamente a ponto delas preferirem a morte. Para mim o aborto não deve ser proibido. Porém, a meu ver o aborto não deve ser liberado irrestritamente. Como assim? Bom – Ao se liberar o aborto deve se ter regras (como tempo estipulado permitido) e as mães que optarem pelo aborto devem passar por orientações, médicas e psicológicas antes e depois do ato.
    Mas…vamos e convenhamos, assim como as regras hoje existentes não funcionam, porque já vi mães sofrerem correndo atras de laudos e mais laudos para que se permita o aborto de feto anencéfalo, também já presenciei mãe que acabou aceitando ter o bebê fruto do estupro porque não conseguiu laudos suficiente e o tempo foi passando, então o dilema das mulheres que optarem é grande. Eu acredito que na maioria dos casos os homens não querem ser ouvidos, não querem nem saber da história, é claro que não são todos, por isso eu disse a maioria.

    • “Eu acredito que na maioria dos casos os homens não querem ser ouvidos, não querem nem saber da história, é claro que não são todos, por isso eu disse a maioria.”

      Se os homens com que eu já conversei a respeito deste assunto forem uma amostra minimamente representativa, então tua expectativa está equivocada, porque a maioria deles (fora os auto-intitulados feministas) querem ter não somente suas opiniões ouvidas mas também que a decisão em si seja consensual entre eles e suas mulheres.

      E isso vale tanto para os que são a favor quanto para os que são contra o aborto.

  • Lunah Lan

    Onde se lê: Mas, eu acredito que isso pode evitar que muitas crianças vivam amadas ou cuidadas como deveriam,
    Leia-se: Mas, eu acredito que isso pode evitar que muitas crianças “NÃO” vivam amadas ou cuidadas como deveriam,

  • Francisco Fernandes Dias

    Estamos falando a respeito de uma experiência científica,cujo resultado é incerto ?
    Não,em 100% dos casos(salvo algum infortúnio)surgirá um novo ser humano.
    Ser contra ou a favor,não vou discutir,mas com ciência do ato.

  • Elvis

    Gerson, essa história de cientistas austríacos era só um cutucão, uma provocação. Sobre as emoções, assumindo que um feto não é humano, matá-lo seria como matar algum mamífero que tem emoções. Eu quis dizer que emoções não são critério para definir quem é e quem não é humano. Mas se eu tivesse de ir às urnas eletrônicas amanhã e escolher se eu acho certo abortar um feto, não levaria estas ideias em conta; eu não tenho uma opinião, entrei no debate só pelo prazer de elaborar raciocínios. Eu juro pra você que não sou cruel, só gosto de discutir.

    Mas por hora vou deixar o debate, vocês venceram.

  • paula

    Pasmem: nem todas as celulas do corpo humano nao-gravido tem o mesmo DNA; mesmo em condicoes clinicas classificadas como dentro da normalidade. Assim, DNA diferente nao pode ser usado para definir individuo diferente.

    Quando as celulas com DNA diferente passam a produzir tecidos e a fugir dos mecanismos sistemicos e locais de controle de multiplicacao, acontecem doencas. Um exemplo destas doencas ‘e o cancer. A propria placenta pode dar origem a um cancer (coriocarcinoma). Inclusive hoje se sabe que tecidos tem DNA diferente muito antes de se formar um cancer. Ainda assim, estes tecidos e celulas com DNA diferente sao parte da mulher ou do homem que os abriga e nutre.

    Outra situacao crescente de DNA diferente ‘e quimerismo por transplante de orgaos ou tecidos. Ainda assim, o transplantado de medula ossea que tem todas as celulas do sangue com DNA diferente do seu, ‘e um cara so’. Nao ‘e porque a medula ossea e o sangue sejam geneticamente diferentes que alguem vai dizer que sao celulas simbioticas, ou que nao facam parte do organismo e coisa e tal.

    Mosaico tb.

    Se voce remover os atomos de nitrogenio de nosso corpo acabou o corpo.

    Se voce remover as mitocondrias de todas as nossas celulas (ou bloquear farmacologicamente suas funcoes), o nosso organismo se torna inviavel em minutos.

    Se voce remover um tecido normal ou anormal de nosso corpo (um sinal de pele, um orgao, um membro), o tecido removido se torna inviavel em questao de minutos a horas.

    Se voce desperdicar numa brincadeira uns espermatozoides (dentro ou fora do local para onde eles foram projetados), eles se tornam inviaveis em questao de horas.

    Se voce remover um feto de menos de 20 semanas do utero de uma mulher, mesmo com a melhor UTI neonatal do mundo, ele se torna inviavel de minutos a horas. O risco de inviabilidade em idades gestacionais mais adiantadas ainda existe, mas com o desenvolvimento tecnologico este risco pode ser contornado.

    Tudo isso porque mitocondrias, celulas, tecidos, espermatozoides, e fetos de uma certa idade gestacional nao sao individuos independentes em simples estado de simbiose. Eles fazem parte do mesmo individuo. Pergunte para qualquer mulher que tenha engravidado se ela sente como se o que se mexe em seu utero seja um alienigena. Nao e’. O bebe faz parte da mulher, como os tecidos e celulas (e atomos) listados acima.
    O intestino da mulher reage aos movimentos do bebe, a bexiga reage `a presenca do bebe, o humor muda pela presenca dos hormonios produzidos pela presenca do bebe. Algumas mulheres inclusive se tornam diabeticas ou hipertensas pela presenca do bebe.

    Eu sou contra o aborto, salvo algumas excecoes. A primeira excecao ‘e que a gestacao tenha sido provocada por estupro (razao 5 do Arthur). A segunda por razao medica para a mae (a mae precisa fazer radioterapia para se curar de um cancer e se descobre gravida, ou tem insuficiencia cardiaca severa e nao pode suportar a gestacao e o parto, etc, etc, etc). A terceira excecao e’ por razao de doenca fetal (exemplo que citei, anencefalia, mas ha’ outras situacoes).

    Fora destas, eu sou terminantemente contra, pois quem transa, como ou sem protecao, sabe que corre o risco de engravidar, tanto o homem quanto a mulher. Nao tem desculpa. Mesmo sem informacao, ‘e muito dificil de se encontrar uma pessoa adulta hoje que nao saiba que uma das consequencias do ato sexual seja gestacao. Pode haver gente que nao saiba como evitar gestacao (toma meio comprimido de pilula por dia, para economizar, ou toma meio comprimido e da’ a outra metade para o marido para garantir os dois lados; estas sao duas historias que eu ouvi das proprias pessoas, veridicas).

    “A minha vida vai mudar, acabou minha carreira, meus pais vao me deserdar, o pai ‘e um louco, a mae ‘e maniaca…”. Sinto muito, mas estas consideracoes deveriam ter sido feitas ANTES de se consumar a relacao sexual. Mesmo no caso de gestacao na adolescencia. A nossa sociedade elege a maioridade como aos 16, 18 ou 21 anos, dependendo do ato em questao. Mas desde que ocorre ovulacao e producao de espermatozoides capacitados, o individuo esta’ biologicamente maduro para ter filhos. Cabe `a sociedade a indicar as condicoes sociais otimas para procriacao, e como fazer para que a gestacao ocorra apenas na idade otima. Se falhou, falhou, assume a responsabilidade e se adapte a nova realidade. E a sociedade deve ter mecanismos de apoio para as pessoas que engravidaram fora da idade otima, ou do momento otimo. Lidar com o fato.

    A verdade ‘e que em muitos paises do mundo as decisoes sobre procriacao recaem exclusivamente sobre a mulher. O exemplo citado por Lunah Lan ilustra esta nocao. Isto nao quer dizer que tenha que ser assim.

    • “Tudo isso porque mitocondrias, celulas, tecidos, espermatozoides, e fetos de uma certa idade gestacional nao sao individuos independentes em simples estado de simbiose. Eles fazem parte do mesmo individuo.”

      Ai, ai, ai… sabe como se chama essa comparação entre partes do organismo e fetos, Paulinha? FALSA ANALOGIA.

      Nenhum dos pedaços de um organismo humano se desenvolverá em um novo organismo humano, não importa que condições forem propiciadas a ele. Já o novo organismo formado desde a concepção certamente se desenvolverá e passará por todos os estágios até se tornar um indivíduo reconhecível como “outra pessoa” se houverem as condições favoráveis para tanto. A confusão inicial devida à incapacidade sensorial de perceber isso não torna o novo organismo parte do organismo da mãe.

      Ou achas que as mulheres produzem filhos por cissiparidade ou gemulação, sendo o espermatozóide um mero catalisador? :-)

    • paula

      existe hoje em dia uma tecnica chamada clonagem, na qual uma celula nao gameta ‘e utilizada para dar origem a um individuo inteiro.

    • E o que tem isso a ver com o aborto?

      A partir do momento em que uma célula não-gamética adquire potencial para se desenvolver em um organismo individual, bastando-lhe que sejam fornecidas as condições adequadas para que autonomamente se desenvolva, trata-se de um novo indivíduo – o qual, evidentemente, adquire o mesmo status que confiro a qualquer feto.

  • Lidia

    Acho que a discussao sobre o aborto vai alem de um discurso biologico sobre a existencia ou nao de vida no embriao, se o feto faz parte ou nao do corpo da mulher, mas deve incluir os limites e valores que a sociedade confere ao bem “vida” e ao bem “autonomia”.
    E’ inegavel que existe vida seja em uma unica celula, ou num orgao, ou num embriao ou num individuo adulto, è teimosia dizer o contrario; e fazendo parte ou nao do corpo da mulher, o embriao està dentro dela e depende dela para sobreviver, entao qualquer que seja a decisao referente ao embriao, esta estarà diretamente relacionada à saude e ao bem estar fisico e emocional da gestante.
    Pra mim, o ponto principal na discussao sobre o aborto è analisar que tipo de proteçao legal a sociedade quer dar aos varios, digamos, “estagios” da vida. E feliz ou infelizmente essa è uma decisao arbitraria cujos valores mudam de lugar para lugar.
    Atualmente existe uma proteçao progressiva: conforme o estagio em que a vida se encontra ela è mais ou menos protegida pela lei. Achando isso bom ou ruim, hoje um embriao vale menos do que uma vida nascida, e o embriao que nao foi nidificado no utero vale menos do que um embriao jà nidificado. Se vc matar alguem no Brasil, o codigo penal te dà uma pena de 6 a 20 anos; se vc provocar um aborto sem o consentimento da gestante a pena è reduzida de 3 a 10 anos. E evitar a nidaçao do ovulo fecundado (como a pilula do dia seguinte, p. ex) ou usar celulas tronco embrionarias em pesquisas sequer è considerado crime.
    E assim sendo, nao acho que a mulher tenha um direito incondicional a decidir sobre o proprio corpo, mas sim a legislaçao è que tem que refletir qual è o valor que a sociedade dà à vida intra uterina em confronto a outros valores tb garantidos pela lei para a mesma sociedade, como a autonomia(que no final acaba sempre recaindo sobre a mulher por ser ela quem carrega o embriao na barriga)e tambem quais os limites para essa ponderaçao de valores.
    O importante è manter a coerencia e, para o bem e para o mal, jà nao se pode mais pretender que a vida intra uterina tenha a mesma importancia que uma vida jà nascida.
    O que eu nao aguento è o que acontece na Italia, onde o aborto è legal mas as pesquisas com celulas tronco nao. Significa dizer que usar as celulas embrionarias em laboratorio nao pode, em respeito ao direito à vida, mas se forem implantadas em um utero e abortadas, aì nao tem problema.

    • “O importante è manter a coerencia e, para o bem e para o mal, jà nao se pode mais pretender que a vida intra uterina tenha a mesma importancia que uma vida jà nascida.”

      Discordo.

      Esse tipo de divisão é arbitrário, baseado muito mais em conveniência do que em ciência ou ética. Uma vida humana é uma vida humana, como dizer que o indivíduo A tem mais ou menos direito à vida que o indivíduo B devido à idade (grau de desenvolvimento), ou a qualquer outro fator?

      Se pudéssemos realizar tais dintinções, teríamos que admitir que também existe diferença de direito à vida entre um indivíduo de 20 anos e um de 30 anos.

      Eu me recordo de uma discussão que tive com um médico a este respeito. Ele dizia que às vezes era necessário decidir quem iria viver, e entre um paciente adolescente e um paciente idoso a regra era “optar pelo mais jovem, que tem maior potencial para viver, porque o outro já viveu mais”. Eu disse: “certo, mas vamos chamar isso pelo nome correto: entre um paciente jovem e um idoso, a regra é matar o velhinho porque ele é menos útil e mais caro de cuidar, uma decisão totalmente utilitarista, tanto quanto guardar a panela boa e jogar fora a furada, ou seja, uma decisão que não tem nada a ver com ética, com moralidade, com respeito à vida humana ou nada do gênero”. Por algum motivo ele não gostou da comparação…

      Temos uma tendência muito grande a confundir o que é conveniente com o que é certo, ou pelo menos o que é mais conveniente com o que é menos errado. Mas conveniência é exatamente o oposto de ética!

    • André

      Arthur,
      Não concordo com a analogia, nem que a visão do médico seja utilitarista. Eu diria que se você tem dois filhos, um deles comeu doce de leite na sobremesa do almoço e o outro não. No jantar, se o doce de leite for pouco, aquele que não comeu no almoço deve ter a preferência.

    • André, eu costumo transitar com facilidade pelos exemplos mais pirados, mas essa comparação entre o direito a viver e o direito a comer doce de leite forçou um pouquinho a barra, não achas? :)

    • André

      A vida é um doce deleite.

  • Paula

    E qual seria o criterio para escolher quem recebe um unico ventilador disponivel numa uti, entre 2 ou 3 necessitados? Nao adianta querer transferir o doente para outro centro, pois por definicao ele esta’ criticamente enfermo e sem condicoes de ser transferido. Tb nao tem como comprar outro leito com ventilacao mecanica em tempo sem que morram os que esperam.

    • Não existe um critério justo, nem razoável. Qualquer que seja a decisão, segundo qualquer critério que possamos imaginar, ela será injusta, anti-ética, arbitrária e abusiva. :-(

  • Elvis

    É, Arthur, qual seria a maneira ética de proceder, tendo de escolher entre deixar o jovem e o velho vivo?

    E, cara, eu não sei se eu votaria contra ou a favor de aborto. Quando eu não acredito muito nos argumentos que sustentam as duas teses, nesses casos em que há duas teses contrárias, prefiro ficar em cima do muro.

    • A maneira ética de proceder seria fazer o maior esforço possível para tentar tomar a melhor decisão possível, analisando todas as alternativas possíveis com o maior cuidado possível. Entretanto, e infelizmente, este proceder ético não será capaz de produzir um resultado ético. :-(

  • Lidia

    Eu concordo contigo que esse tipo de divisao è arbitrario e anti etico, mas è fato de que a vida de um individuo A vale mais do que a vida de um individuo B, seja por previsao na lei seja pelo exemplo que vc deu do jovem e do velho. Mas nao consigo ver outra alternativa que nao seja botar tudo numa balança e ver o que pesa mais em cada caso. E como cada caso è um caso nao sei se sou contra ou a favor do aborto…
    Por principio, sou contra e nao faria; mas quando penso que existem mulheres que preferem enfiar uma agulha de trico no utero, arriscando a propria vida, a ter um filho, è pq elas devem ter razoes fortes para fazer isso que a minha razao desconhece. E quem sou eu para dizer para essas mulheres que a vida intra uterina è tao valiosa quanto uma vida nascida, quando a sociedade e as leis me desmentem?

    • Lídia, “botar tudo numa balança e ver o que pesa mais em cada caso” é O procedimento mais ético possível. O problema é nossa hierarquia de valores. Eu não entendo como alguém pode colocar o “direito de dar uma bimbada irresponsavelmente” acima do “direito à vida” do feto.

      Quanto às leis, se soubéssemos como elas e as salsichas são feitas, não haveríamos de querer chegar perto de nenhuma das duas…

  • Bruno

    Lá parece que se pode abortar se houver má formação, nesse caso, fizeram cagada.

    Inquérito apura aborto por engano de gêmeo saudável na Austrália
    http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/11/inquerito-apura-aborto-por-engano-de-gemeo-saudavel-na-australia.html

  • Paula

    Os dilemas nos quais um debate etico ajuda a decidir como proceder podem ter resultado percebido como injusto para uma ou mais partes envolvidas, mas nao anti-etico.

    • Paulinha, a Escolha de Sofia pode ser precedida de quantas análises quisermos e o resultado será sempre injusto e anti-ético. Imaginar que sempre produziremos um resultado “ético” só porque nos esforçamos ao máximo para tal é puro wishful thinking.

    • paula

      arthur, me parece que estas dando significado similar a duas palavras diferentes: injusto e anti-etico. A justica e’ apenas uma parte da etica.

    • Neste caso qualquer decisão é injusta porque ninguém tem culpa para sofrer a punição de uma pena de morte e anti-ética porque ninguém tem o direito de arbitrar critérios para decidir quem vai sofrer a mais grave das conseqüências de uma incompetência do sistema.

  • Li

    Parabéns,Lidia,perfeita tua colocação.

    E olha que nem sei quem tu és.

    Eu tenho uma filha,ninguém me ajudou quando engravidei,e não tinha marido.

    Fui tratada como a pior das vadias.

    Graças a pessoas generosas minha filha tem 35 anos e dois filhos.

    Não é uma questão do que EU acho ou FAÇO.

    Vejo como uma questão de valorização da vida em todos os seus estágios.

    É hipocrisia a defesa que vejo na sociedade,pessoas que condenam as mulheres que
    abortam,não ligam nadinha para a vida que está
    abandonada em TODOS os lugares,e é real.

    Eu quero que um feto tenha a mesma defesa amorosa e ferrenha de um velho,um doente mental,um apenado, um mendigo,um orfão.

    Trabalho com idosos e crianças…..e todos os dias vejo um abandono que me dói e revolta.

    QUASE ninguém,na minha cidade, vai até os asilos,manicômios,orfanatos,presídios……saber o que acontece.

    As pessoas que não estão envolvidas diretamente,em algumas situações,podem julgar à vontade.

    A verdade é que teoria e vivência são diferentes.

    Como mulher,como mãe,como avó…..jamais julgarei uma mulher que cometa tal ato.
    Porque não sei as condições emocionais de uma pessoa que se violenta a esse ponto.

    Eu defendo que cada pessoa tenha o direito de poder decidir por si,o que fazer com a própria vida.

    Depois que uma moça se matou porque não podia ter filho….eu não julgo mais ninguém.

    Não sabemos a profundidade da dor que dói no outro,jamais saberemos.

  • Li

    No caso de homens que queiram filhos,não podem casar com uma mulher que não os queira.

    Essas coisas devem ser decididas ANTES do casamento.

    Existe uma multidão de mulheres que já abortaram sem que NINGUÉM soubesse.

    Esse é um fator que quase ninguém considera;o segredo.

    Raríssimos homens sabem quando uma mulher está grávida.

    A maioria só descobre quando elas contam ou quando já não dá para esconder.

    E não estou falando das que engrossam a lista oficial.

    Estou falando daquelas que abortam até com chá de feijão.

    Até 4 semanas …..até com tombo proposital se aborta.

    As formas de aborto são tantas,que até os médicos não possuem meios para fazer uma
    catalogação adequada.

    A coisa toda é muito mais complexa do que imaginamos.

    Se a sociedade resolvesse tratar o assunto com a seriedade que ele merece,seria bom para todos.

  • Lidia

    A hierarquia de valores è realmente um problema… Mas na minha hierarquia de valores, eu acho que vc acaba menosprezando a realidade de cada um ao reduzir os casos de gravidez indesejada a uma “bimbada irresponsavel”. As mulheres sao humanas, erram, acreditam em ilusoes e promessas de amor eterno… Que atire a primeira pedra a mulher que nunca esqueceu de tomar a pilula um dia ou nao se deixou levar por palavras romanticas de um cafajeste… O problema è que muitas vezes o cafajeste desaparece do mapa e a mulher se ve com uma responsabilidade que nao consegue assumir sozinha.
    E’ claro que existem as “bimbadas irresponsaveis” no sentido estrito da expressao, de gente que sò quer saber da diversao e nao se incomodam com as consequencias; mas acredito que nao sejam sò essas bimbadas que existam para o complexo mundo da hierarquia de valores.

    • Mas o que raios tem a ver “as palavras românticas de um cafajeste” com matar um ser humano inocente? Quer dizer que, se algum dia a minha esposa me der um pé na bunda e sumir com um ricardão, deixando-me os nossos filhos para criar, eu posso matá-los a facadas?

      Qual é afinal a diferença entre matar uma criança uns meses antes ou uns meses depois de ela sair do útero? Não entendo isso.

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