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O Brasil movido a ódio

O fascismo está entre nós – tenho denunciado há anos sem que mais de meia dúzia de pessoas mostre mais do que um vago sentimento de preocupação; a maioria ignora completamente o assunto. Eu pensava que isso era negligência da população. Desconfio agora que seja algo muito pior. Acho que o povo brasileiro abraçou uma cultura de ódio e intolerância. 

Olhe em volta. Faça as perguntas certas. Ouça o que as pessoas dizem. É assustador.

P1: O que você acha da pena de morte?

R1: É uma afronta à dignidade humana. Ninguém tem o direito de matar, muito menos o Estado. Não quero um Estado que mate em meu nome. Precisamos investir na recuperação das pessoas e não em sua destruição.

R2: Bandido bom é bandido morto, tem mais é que matar estes desgraçados mesmo ao invés de sustentar vagabundo em presídio cinco estrelas, com três refeições ao dia e direito à visita íntima, direitos que nem o trabalhador tem garantidos. E enterrar essa corja em pé pra não ocupar espaço.

P2: O que você acha da política?

R3: A política é a mais nobre das atividades humanas. É através da política que a sociedade expressa seus valores e debate as medidas necessárias para o progresso, em busca do bem estar de todos os seus membros, de harmonia social e de justiça.

R4: A política é uma podridão completa. Só atrai pilantra, corrupto e safado. O único interesse dos políticos é roubar o povo. Precisamos mesmo é de uma nova ditadura pra botar ordem no país. Pra acabar com a baderna só na base do medo.

Em um plebiscito, qual das posições sobre a pena de morte sairia vitoriosa? R1 ou R2? Qual inclinação transparece a partir desta constatação? O povo brasileiro é pacífico, generoso e tem uma visão positiva do ser humano? Ou o povo brasileiro é movido a raiva, ressentimento e tem uma visão negativa do ser humano?

Em uma enquete, qual das opiniões sobre a política sairia majoritária? R3 ou R4? Qual tendência transparece a partir desta constatação? O povo brasileiro confia em sua capacidade de transformar o país em um lugar melhor para viver? Ou o povo brasileiro quer mais é se livrar da responsabilidade de consertar o país e deseja que algum “salvador” meta-lhe um cabresto e o conduza à força para um lugar diferente do poço de lama que seu complexo de vira-latas indica ser o único lugar para onde sabe ir? 

Eu poderia citar inúmeros outros exemplos, mas no momento vou avaliar somente um, a escalada da “guerra às drogas” e a posição da maioria dos brasileiros em relação a diversas medidas do governo neste sentido. 

O cidadão que deseja se entorpecer de modo privado, em busca de relaxamento ou entretenimento, se usar para isso determinadas substâncias, é considerado criminoso. A justificativa é que “drogas fazem mal”, mas os remédios propostos contra o “mal” são porrada da polícia, cadeia o mais desconfortável possível, repressão, humilhação, “tratamento” à força e quase sempre ostracismo. Isso é lutar contra o mal ou é usar uma desculpa conveniente para demonstrar intolerância e promover violência? 

Pois bem, até pouco tempo as chamadas “drogas ilícitas” eram as únicas a serem reprimidas com intolerância e violência. Das ilícitas já passamos às lícitas. Hoje o cidadão que bebe uma latinha de cerveja e uma hora depois volta dirigindo do bar para casa é um criminoso a ser encarcerado, enquanto o cidadão que acende um cigarro e distraidamente entra em um ônibus é um infrator da lei a ser expulso e multado. 

As drogas absolutamente necessárias para tratamentos de saúde, por sua vez, estão cada vez mais controladas. Há apenas dois anos atrás, o cidadão que sofresse um arranhão qualquer que infeccionasse simplesmente ia até o banheiro de sua própria casa, tirava da farmacinha do fundo do armário uma pomadinha e uma gaze, fazia um curativo e no dia seguinte estava bem. Hoje em dia o cidadão é proibido de cuidar da própria saúde, não pode comprar a tal pomadinha sem autorização do Estado e tem que entrar numa fila para ser atendido e avaliado pelo Estado para que este determine o que é melhor para sua saúde. 

Quanto tempo falta até que tenhamos que solicitar autorização do Estado e entrar em uma fila para comprar sal? Afinal, sal causa hipertensão arterial, é perigoso para a saúde e portanto deve ser controlado pelo Estado. Ou talvez o sal seja simplesmente alvo de impostos escorchantes, como os cigarros recentemente, porque o Estado decidiu que o povo não tem que fumar e que se dane quem pensar diferente? O que não falta hoje em dia é gente dizendo que o governo agiu bem ao elevar astronomicamente o preço dos cigarros.

O brasileiro tem recebido alegremente e aprovado toda medida autoritária e repressiva imposta pelo governo. Não se ouviu um “ai” na mídia contra o autoritarismo das medidas do desarmamento, da proibição da comercialização dos antibióticos, da interdição dos fumódromos, da criminalização de qualquer nível de alcoolemia, do banimento dos aditivos de sabor nos cigarros, etc. A grande imprensa apóia e estimula o autoritarismo.

O brasileiro acha tudo isso justo e correto – até que a sua porta seja chutada por um coturno no meio da madrugada. Aí ele abre os olhos e percebe a injustiça, mas o vizinho dele diz “para a polícia invadir a casa dele deste jeito, alguma coisa errada ele fez” e continua apoiando o autoritarismo, a repressão e a violência…até o dia em que a sua própria porta é chutada por um coturno no meio da madrugada e o seu próprio vizinho diz ”para a polícia invadir a casa dele deste jeito, alguma coisa errada ele fez” e continua apoiando o autoritarismo, a repressão e a violência… 

SESSENTA E SEIS MILHÕES DE PESSOAS FORAM MASSACRADAS ASSIM na antiga União Soviética sem que ninguém metesse uma bala na cabeça de Stálin. Os agentes do governo vinham, seqüestravam um cidadão inocente a qualquer hora do dia ou da noite – de preferência no meio da madrugada – e os vizinhos não diziam nada, não faziam nada, nem sequer fugiam do país, só ficavam torcendo que a sua cabeça não entrasse na contagem. 

Esse número – 66.000.000 de vítimas do comunismo – é 11 vezes maior do que o número de pessoas que foram massacradas pelo nazismo. E mesmo assim ninguém fez nada. As pessoas sabiam que havia algo errado, mas diziam que não era com elas, que não podiam fazer nada, que se tentassem se meter na política acabariam sendo prejudicadas ou perseguidas, etc.

A história nos ensina que nem mesmo sessenta milhões de vidas destruídas são suficientes para demover um povo de sua letargia e fazê-lo enfrentar um opressor enquanto este estiver dizendo que faz o que faz pelo bem do povo. Somente um completo idiota declararia abertamente ser um déspota hoje em dia, após os excelentes ensinamentos de Hitler (déspota declarado, subiu ao poder apoiado pelo povo, matou seis milhões de pessoas e viu o mundo se unir em guerra contra ele) e de Stálin (déspota hipócrita, subiu ao poder apoiado pelo povo, matou sessenta e seis milhões de pessoas, morreu em paz e é cultuado por imbecis até hoje).

A hipocrisia dá muito melhor resultado.

E isso funciona porque o povo adora ser enganado.

Adora, porque tem sede de sangue. 

Só não percebe que o único sangue disponível é o seu próprio. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 18/04/2012

51 comments to O Brasil movido a ódio

  • L

    Ótimos argumentos… realmente preciso repensar minhas ideias.
    Mas realmente o país está indo por esse caminho, e o pior, as pessoas não ligam, a maioria pelo menos

    • O ser humano médio tem um cérebro tribal. Nós nos desenvolvemos ao longo de mais de uma centena de milhares de anos com uma mentalidade caçadora-coletora tribal. Naquele ambiente, “ser agressivo com desconhecidos” era uma estratégia que aumentava as chances de sobrevivência. Mas em um mundo globalizado, com metrópoles com milhões de habitantes, deixou de ser – e o ser humano médio ainda não se adaptou, nem o fará nos próximos poucos milhares de anos. Nossa única escapatória de curto prazo é elevar a qualidade da educação muito acima do atual ser humano médio.

  • Eu disse já a alguns amigos: “vai chegar o dia em que os coturnos de uma mulher negra derrubarão a sua porta e, se você for um homem e estiver deitado com uma mulher, te executarão”. Hoje, eles riem de mim. Espero que nunca chorem.

  • André

    Tem muito inocente que deseja uma solução para o problema da segurança e acha que a R2 em P1 pode ser essa solução. Bastaria pensar um pouco para ver que o mesmo sistema de segurança que não consegue prender de forma eficiente a bandidagem jamais conseguirá executá-los.

    • Na verdade, o sistema de R2 em P1 seria um tiro no pé, facilmente utilizável contra o próprio cidadão que defende essa medida.

    • O que mais tem nesse país é lei estúpida que só enche o saco do cidadão honesto sem atrapalhar a vida do criminoso. Caso evidente do Estatuto do Desarmamento, que elimina a possibilidade de o cidadão honesto se defender e facilita a vida do assaltante, do ladrão, do seqüestrador, do estuprador, do homicida…

      Mas o povo insiste na “linha dura”, sem perceber que não é o povo que está no controle.

  • Elvis

    Fumar no ônibus deveria ser permitido?

    • Gerson B

      Não. Não dá pra instalar fumódromos nos ônibus.

    • Mas dá pra instalar duas mangueiras, uma para a entrada de ar e outra para a saída de ar, em um capacete. O cara entra no ônibus, senta (porque todo mundo deveria ir sentado, sem essa de obrigar o cidadão a viajar em pé), coloca o capacete, põe as duas mangueiras para fora, liga o botãozinho da ventilação do capacete, põe um cigarro na boca, fecha a viseira, aperta o botãozinho do isqueiro interno, acende o cigarro, fuma, cospe o cigarro num recipiente hermeticamente fechado dentro do capacete, desliga a ventilação, recolhe as mangueiras, tira o capacete e o leva no colo até o fim da viagem.

      Simples e prático. :)

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      Falando sério: se alguém quisesse usar essa trapizonga com esse objetivo, não teríamos motivo algum para proibi-lo, mas haveria debates vigorosos com oradores agressivos atacando os fumantes. E este é o verdadeiro problema, conforme o espírito do artigo.

    • Quero só ver quando a Paulinha ler a descrição deste capacete. :)

    • Gerson B

      Hehehehehe. Se o Arthur quisesse dominar o mundo em vez de salva-lo távamos perdidos.

      Mas eu não teria nada contra esse capacete. Só pena dos usuários.

    • Dominar o mundo? Hmmmmmmmm… :)

  • Cara, estou torcendo profundamente para que você esteja errado… Pois a última coisa que eu e acredito que todos de bom senso desejam é viver sob regime fascista. Apesar de que, analisando certos aspectos, já estamos inseridos num contexto de censuras cada vez maiores. A partir do momento que o próprio humor, uma das formas mais antigas de opinião, começa a ser vetado é porque a coisa fica séria. Eu, por exemplo, fico p. da vida por ter de segurar piadas até entre meus amigos.

  • Nelson

    Bandido é um cara otário que só faz merda e quase sempre se dá mal, do tipo quando não morre acaba preso. Nunca é bom ser bandido. O cara vive roubando, traficando, contrabandeando, lavando dinheiro e quando é pego por policiais corruptos acaba perdendo tudo e volta à estaca zero.

    Bandido é tão burro que nunca tem um plano de emergência, um local para ir ou fugir se as coisas derem err…ado. São quase sempre presos perto dos locais onde cometem crimes ou nas suas casas. Nunca se dão bem e são odiados pelo povo. Vivem mal, sempre com medo de serem mortos ou presos, são traídos com frequência pelos comparsas, são manipulados pelos policiais corruptos, no fim perdem o dinheiro, a casa e a mulher.

  • Nelson

    Os EUA tem pena de morte e não é um estado totalitário. Os americanos são super organizados com política, o exemplo disso é a escolha do candidato republicano, demora muito tempo pra escolher e eleitorado que vota, não cúpula do partido, primeiro que um país de dimensôes continentais como Brasil, deveria ser federalismo, até a Russia se federalizou.

  • Arthur,

    Já peço desculpa de antemão, pq o q vou escrever pode soar pesado demais, e minha intenção não é ofender.

    Você diz que você fala, mas só meia dúzia deram bola, etc. Eu acho que há um motivo pra isso: seus argumentos são falácias… Logo no começo do texto, você dá duas opções, como se a vida fosse binária: ou você acha a pena de morte uma
    “afronta à dignidade humana”, que tem q pensar na “recuperação das pessoas”, etc, etc, arco-íris e flores; ou você acha que “Bandido bom é bandido morto”, que manter bandido preso é “sustentar vagabundo em presídio cinco estrelas”, e que tem q “enterrar essa corja em pé”, etc, trovões e caixões.

    A vida não é binária. Não existem apenas esses extremos. Um plebiscito JAMAIS colocaria essas opções. Todo o resto da sua argumentação é igual: nunca há meio-termo, é sempre 0 ou 1.
    Aliás, praticamente ninguém aceitaria esses extremos. A imensa maioria da população fica sempre na coluna do meio, é a turma do deixa-disso. E eu acho isso perfeitamente saudável.

    Quando a curva gaussiana se move um pouco pra lá, quem tá ficando de fora dela começa a gritar, e quem passa a fazer parte dela pensa que a sociedade está começando a ficar civilizada. Quando a curva se move um pouco pra cá, quem começa a ficar de fora dela começa a gritar, e quem passa a fazer parte dela pensa que a sociedade está começando a ficar civilizada.

    http://drplausivel.blogspot.com.br/2010/11/gaussocracia.html

  • Já que não há soluções, pelo que se deduz da postagem e dos comentários; seja na utopia de que o carrossel democrático um dia chegará ao céu, ou na utopia de que o déspota do bem virá para nos conduzir às campinas verdejantes de um estado altruísta; já que há outdoors espalhados por aí sinalizando para o dia em que um coturno pisara no meu inocente e burro pescoço, e tudo em nome do bem, pergunto: quais as alternativas? Devemos repensar as respostas ou refazer as perguntas? Quem sabe devamos reconceituar as nossas necessidades e os nossos interesses! Começaria por definir as liberdades e direitos individuais, uma vez que já não somos mais indivíduos, mas uma coletividade bem complexa, por sinal. Será que aquilo que conhecemos por democracia – o sumo da cachola humana para administrar uma sociedade multifacetada – é o que há de melhor? Pelo menos para este momento evolutivo? Não me parece de que sejamos capazes, como espécie, de gerir adequadamente, os próprios negócios sem esquecer que, querendo ou não, ainda somos um conjunto de seres individualizados e extremamente díspares. Sendo otimista: 80% da espécie, independentemente da situação intelectual ou cultural, age bovinamente, ou por que não tem outra opção, ou por que isso lhes apraz. Essa colossal massa sempre será o elemento de manobra das minorias com vícios de divindade equivocada. Não há como fugir disso. Quanto às perguntas na postagem as considero pertinentes, embora as respostas propostas tenham sido maliciosamente tendenciosas. Acho que há outras opções! Não deveríamos sumariamente matar! Pelo menos na primeira vez! Sempre devemos dar uma segunda chance para qualquer um. Até mesmo para um político corrupto. Além do mais há procedimentos alternativos, como a lobotomia, que poderia transformar um monstro incorrigível num útil puxador de arado (Já que não era considerado um ser humano e iria ser morto, então que sirva para alguma coisa!). E quanto à política não concordo que as soluções propostas devam ser apresentadas como 8 ou 80. (Lembremos sempre de Gauss!) Concordo com todos que estão sem paciência para esperar a tal depuração democrática pela tentativa e erro; eu, na minha idade, não tenho nem paciência e nem tempo! Mas já que todos nós sabemos que numa eleição o custo declarado com propaganda política é um terço do dinheiro realmente gasto. Ou seja: há caixa dois, compra de voto, e roubo. Que no mínimo um terço do que vocês ganham vai para os impostos e que vocês têm que pagar de novo pelas coisas básicas por que a primeira cota desapareceu nos meandros das morosidades, desvios de rubrica, rapinagens grossas, e toda uma gama de ilicitudes que não cabem aqui. Se vocês sabem quem são os caras que debocham descaradamente de vocês, e que, numa retórica bonita ainda lhes chamam de trouxas. Por que vocês ainda votam neles?

    • As pessoas ainda votam porque se iludem quanto às supostas virtudes da democracia. Elas acreditam que escolhem realmente entre alternativas diferentes, quando na verdade só escolhem a cor da bandeira da alcatéia que tomará conta do galinheiro.

      E qual seria a alternativa, partindo do atual sistema de forma realista e viável?

      No meu ponto de vista, a única alternativa é criar um partido com um tipo diferente de filtro interno, que garanta que os lobos não subam na hierarquia e que cresça em aprovação popular devido aos benefícios reais que traga para a população através de um serviço comunitário de alta qualidade. Uma vez que um partido assim decole, nada o segura. O problema é o tal do filtro interno…

  • Elvis

    Cara, mas instalar as tais mangueirinhas não seria de graça, seria justo que uma maioria de não fumantes pagasse para que os fumantes não fossem privados pelo estado totalitário fascista de fumar no ônibus, sendo que podem fumar em um local apropriado?

    Os maços de cigarro altamente tributados, você enxerga isso como um absurdo, mas será que é tão fascista assim cobrar um pouquinho de quem tem um hábito que prejudica as outras pessoas? (Prejudica tanto quando alguém fuma em público quanto porque o cigarro aumenta consideravelmente as chances de a pessoa precisar de serviços de saúde pública, que também são pagos pela população toda).

  • Paula

    Arthur, voce mesmo, ha’ muitos textos atras, defendeu a taxacao de drogas como o cigarro, como mecanismo para financiamento do tratamento de problemas de saude decorrente de seu uso, num sistema de saude socialidado como o brasileiro.

    Eu sou a favor da sobretaxacao do cigarro. Ha’ inumeras doencas cronicas que sao causadas pelo cigarro. Nao fumantes brasileiros que pagam impostos financiam o tratamento de saude das doencas dos fumantes. Os fumantes devem contribuir com um extra por terem a liberdade de fumar e de padecer das doencas causadas pelo fumo, sob forma de imposto de circulacao de mercadorias, etc.

    • Sim, eu sou favorável à taxação do cigarro e de outras drogas como forma de responsabilizar os usuários pelos custos dos sistemas de saúde e de seguridade social. Acho muito justo que as pessoas tenham o máximo de liberdade possível e que sejam responsáveis pelas conseqüências do uso dessa liberdade.

      Mas sou contra a sobretaxação com o objetivo de forçar a mudança de hábito das pessoas. Uma coisa é o Estado ampliar a liberdade do cidadão com a devida cobrança de responsabilidade. Outra coisa é o Estado reduzir a liberdade do cidadão por qualquer outro motivo que não seja proteger o outro cidadão.

      Eu só aceitaria uma sobretaxa mínima como margem de segurança de cálculo para ter certeza de que é realmente o fumante (ou o usuário de qualquer droga) que está subsidiando o custo total que gera. Qualquer outra justificativa começa a entrar perigosamente no terreno do Estado ditando moralidade.

    • Who

      Em que país vocês vivem? Aliás, em que mundo?

      Pra começar, sobretaxar cigarro é mais do que um modo de evitar que as pessoas fumem, é uma forma de tirar mais dinheiro de alguém que independente de quanto ganha, tem um vício e não consegue largar, é cruel, ponto. Depois que, o SUS pode até tratar os pacientes que sofrem dos malefícios que o cigarro causa à saúde, mas “daquele jeito”. É o que eu sempre digo, aquela imagem da “gangrena” no maço de cigarro, completamente bizarra , é mais do que um mal quadro de saúde causado por uso de tabaco, mas é a face da ineficiência do sistema de saúde que nós temos.
      Vocês já conviveram com pessoas com câncer ou com problemas respiratórios? Provavelmente sim, se quando a pessoa já tem dinheiro para tratameno particular (despesas de hospital em geral, equipamentos e medicamentos etc) já é algo extramente complicado, imagina no SUS.

      Eu já cheguei a fumar 2 cigarros por dia, 4 cigarros por dia, um maço por dia, dois ou mais maços por dia, hoje eu fumo eventualmente, tipo “fumante de final de semana”, poucos maços em um mês, mas ano passado eu calculo que gastei de 700 a 1200 reais com cigarro (com Marlboro vermelho custando em média 4,75). Agora, imagina pessoas que fumam dois maços por dia, por 10, 20 anos, uma média razoavelmente comum entre muitos fumantes, provavelmente os que certamente vão ter alguma doença por causa do vício, dá pra imaginar quanto o governo arrecada de impostos pagos com isso? Daria pra pagar o melhor dos tratamentos particulares.

      Imagina qual foi a minha surpresa esses dias atrás ao ver um Derby custando 4r$50, um Dunhill custando 6r$ e o Marlboro 5r$50. Pode parecer relativamente barato, mas não é. Isso porque a Souza Cruz, que vende uma imagem de empresa super responsável, que critica o aumento dos preços de cigarros dizendo que causa mais contrabando etc, aproveitou que os impostos subiram pra lucrar mais com o preço do cigarro. Antes de do IPI aumentar, o Dunhill (Souza Cruz) e o Marlboro (Phillip Morris) custavam ambos 4r$75. O Marlboro tem a versão maço também, que é sempre 50c mais barata que a caixinha, o Dunhill não. Aliás, o Dunhill, que muita gente considera tabaco fino, cigarro classe A, e é um dos que mais irritam o sistema respiratório, creio que principalmente por causa das taxas elevadas de amônia (altamente cancerigena) que eles levam para preservar o sabor do tabaco, e ainda ficam discutindo proibição de mentol e cravo nos cigarros pra mostrar serviço. Após o IPI subir, o Dunhill está custando 6r$, 50c a mais que o Marlboro na sua versão mais cara. Mas o que importa é a máquina de fazer dinheiro ligada e o governo pegando a parte dele e fazendo papel de bom agente de saúde. Parece piada, não?

      Se o governo estivesse realmente interassado na saúde dos fumantes, deixava o preço dos cigarros quietos, para as empresas decidirem o quanto cobrar em cada cigarro, obrigariam as empresas a divulgarem mais sobre quais substâncias estão em cada marca de cigarro (tipo a tabela nutricional que é obrigatória nos alimentos), derrepente em um papelzinho que venha junto com o maço, ou que seja distribuido gratuitamente nos pontos de venda, ao invés de colocar meia dúzia de fotos estúpidas atrás dos maços. E ao invés do tradicinal IPI, poderia fazer o “fundo de saúde dos fumantes”, o que poderia ter mais ou menos o valor dos impostos cobrados no cigarro, assim o fumante poderia recorrer a esse fundo para fazer tratamentos anti-dependência, para tratar doenças e para outros gastos e relacionados, podendo ser gasto em quais instituições ele achar melhor para confiar a própria saúde. Caso o fumante não tenha problemas de saúde e consiga um atestado de uma clínica de reabilitação atestando que ele parou de fumar, então ele poderia resgatar uma porcentagem (50 ou 75% talvez seria algo justo) desse fundo para gastar como quiser e comemorar o fim do seu vício, feliz. Vai acontecer? Não, pois o governo morre de vergonha de assumir que o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de tabaco, que as pessoas que trabalham nessas plantações sofrem assim como boias-frias ou vários outros trabalhadores rurais que são explorados, mas tem o maior orgulho de pegar a sua fatia do bolo sem dó nem piedade dessa indústria com os super impostos. Investir isso na saúde, de verdade? Quem sabe em algum dia, bem distante.

    • É… se o Brasil fosse um país sério, muita coisa seria diferente. Mas a gente vai levando com passos de formiga e sem vontade, deixando a pior corja do mundo controlar nossas leis e tribunais… é dose.

  • Elvis

    Olha, eu ando meio desligado mesmo, só relendo agora seu comentário percebi que o tal capacete no ônibus foi uma piada, mas ignoremos minha ignorância.

    • Hehehehe… foi e não foi. Lógico que não proponho aquilo a sério, mas e se um maluco quisesse fazer aquilo, teríamos algum motivo razoável para impedi-lo?

  • Caro Arthur! Ao reler meu comentário anterior vi que a palavra “maliciosamente” apareceu nua, sem aquela linha que parece que a risca ao meio, mas que na verdade pretende ser uma falsa edição, como se por acaso um ato falho tivesse escorrido das teclas e ficado preso ao texto! Bem, como diz minha mãe: “mel das k h das não voltam ao pescoço”, em bom francês! Espero que interprete a questão conforme a necessária diplomacia irônico-radical! Mas a verdadeira razão do meu retorno é a seguinte: (me cobrando daquela vez que você me desafiou a escrever sobre medicina ortomolecular!) gostaria muito de ler uma postagem, usando a sua habitual capacidade dissecante, sobre as razões do povo ser – uma vez que o resultado nos permite pensar assim – tão alheio, ou burro, ou cúmplice, no processo eleitoral.

  • Ricardo

    Olá, ótimo texto. Concordo com quase tudo. Só gostaria de esclarecer dois pontos.

    Primeiro: o Estado deve controlar o uso de cigarros, pois eles não são usados em meio privado e tampouco dizem respeito somente à saúde do indivíduo, pois como todos sabem a fumaça resultante do fumo também é prejudicial à saúde. Portanto, o Estado tem o dever de regularizar o seu uso, proibindo-o em lugares fechados e/ou públicos. Até deveria ser proibido fumar perto de crianças e idosos.
    Segundo: não foi o comunismo que matou as pessoas, foi a ditadura opressora de Stalin. Desse jeito que está no texto parece que o comunismo é uma ideologia que prega a violência e que todos os comunistas querem matar pessoas, o que não é o caso.

    Gosto do teu estilo de escrever, mas às vezes parece que a tua “raiva” (ou seria indignação?) alcança níveis suficientes para distorcer algumas ideias. Pense nisso. =)

    Abraço!

    • Ricardo:

      Primeiro) Se topares substituir a palavra “controlar” pela expressão “regulamentar de modo inteligente e respeitoso”, concordaremos 100%.

      Segundo) Discordamos diametralmente neste aspecto. Eu tenho estudado a lógica interna do desenvolvimento dos sistemas políticos e cheguei a uma conclusão bastante dura: todo sistema coletivista tende inexoravelmente a se tornar opressor. Pretendo escrever em breve alguma coisa a respeito, explicando essa dinâmica.

      Terceiro) Sim, com freqüência eu fico tão indignado com alguns absurdos que acabo escrevendo com o fígado… e o fígado não escreve tão bem quanto o cérebro, infelizmente. O fígado vai direto ao ponto e não oferece ao leitor o caminho necessário para acompanhar o raciocínio que levou àquela conclusão, fazendo parecer que se trata de uma opinião radical e não do resultado de um processo de análise. Ou seja, tens razão. Eu preciso aprender a respirar fundo e contar até dez (mil) antes de escrever sobre alguns assuntos, até mesmo para não perder a credibilidade. Grato pelo alerta.

  • Elvis

    A ditadura do proletário (?) Stalin não foi a única ditadura do proletariado (?) que matou pessoas

    • Não, não foi. No caso do artigo, Stálin é apenas o melhor exemplo. Houve muitas outras ditaduras sanguinárias baseadas na mesma ideologia. Todo coletivismo degenera em opressão. Na verdade, um Estado opressor constitui o desenvolvimento natural de todo sistema coletivista. Vou escrever a respeito em breve.

  • Sr Destino

    Ahahaha, o destino proximo desse pais é uma ditadura comunista. Que grande hipocrisia o estado proibir um simples spray de pimenta, quando ele mesmo e os bandidos podem se armar a vontade, e nos ditarem como as coisas devem ser. Mas ainda existem alternativas, armas de choque a distancia (não a taser) balestras, eu não me deixarei ficar pra tras. Btw, o desarmamento promovido por governos é sempre o passo inicial para o inicio da repressão.

    • Não sei se “comunista”, porque o rótulo pode mudar conforme a conveniência política, mas todo sistema coletivista degenera em opressão.

      E sim, o desarmamento promovido pelos governos nunca é bem intencionado. Só os ingênuos muito ingênuos acreditam que são desarmados para seu próprio bem.

  • Gerson B

    Sobre o desejo pela pena de morte, acho que em parte ela é uma reação à ideia de que o cidadão não recebe proteção do Estado.

    Olha o desabafo do delegado (com apelos pela pena de morte nos comentários, claro):
    http://www.youtube.com/watch?v=6Yb-LDSjd5g

    • No momento em que eu assisti o vídeo:

      2709 pessoa(s) gosta(m), 26 pessoa(s) não gosta(m)

      É isso aí. Uma juíza debilóide acha que um bando de criminosos fortemente armados e organizados não deve ser internado, nós ficamos vulneráveis e o delegado que quer trabalhar direito perde a paciência com esse abuso e certamente deve ter levado um sabão homérico e ter sido prejudicado em sua carreira.

      Mas eu não aprovo os comentários de baixo nível com apologia à violência e detratações aos direitos humanos. O que tinha que ser feito é demitir essa juíza e escorraçar da vida pública todos os políticos que levaram o país a essa realidade.

      O problema é criar alternativas políticas que resistam a essa chafurda.

  • Paula

    Arthur, se voce soubesse, tivesse nocao de quanto custa o diagnostico, estadiamento, tratamento de um paciente com cancer de pulmao causado pelo cigarro, entenderia que debater taxacao versus sobretaxacao e’ completamente IRRELEVANTE. E cancer de pulmao e’ apenas uma de uma centena de doencas causadas pelo cigarro. Por mais que se taxe, sobretaxe, hipersobretaxe o cigarro, o sistema ainda e’ deficitario para quem financia o tratamento das doencas. Nao me admira que 80% da populacao brasileira receba tratamento menos que convencional para seu cancer de pulmao.

    • Paulinha, mais uma vez: ainda que o cigarro causasse uma doença pior, mais dolorida, mais mortal e mais difícil e cara de tratar que o câncer, a AIDS e a unha encravada juntos, eu insistiria na TAXAÇÃO e não na SOBRETAXAÇÃO dos cigarros – e continuaria defendendo a idéia de que o fumante tem o direito de se arrebentar fumando.

      Por quê?

      Porque a alternativa é dar um passinho em direção ao fascismo.

      O fascismo sempre é apoiado pelo povo por bons motivos.

      As primeiras medidas do fascismo sempre são “melhorias” em favor da maioria da população e contra setores deletérios da sociedade (traficantes, assaltantes, estupradores, gente que gosta de pizza de banana, etc.).

      As medidas seguintes do fascismo sempre são “consolidadoras” das “conquistas” iniciais, alterando aqui e ali o sistema legal e jurídico de modo a concentrar poder nas mãos do Estado e preparar obstáculos e armadilhas contra os libertários que identificaram a ascenção do fascismo devido às primeiras medidas.

      E as medidas finais sempre são “normalizadoras”, termo irônico que descreve a situação de extremo autoritarismo e repressão como a condição “normal” em que a sociedade deve se manter – sob o domínio fascista.

      CADA PASSO que damos nesta direção conta. CADA PASSO na direção de um objetivo nos torna mais próximos dele. É assim em qualquer caminhada e é assim na jornada política de uma sociedade.

      Quem quer ir em frente não deve caminhar para trás.

      Se quisermos uma sociedade sem drogas, ou pelo menos sem problemas derivados do comércio e do consumo de drogas, os caminhos que temos que seguir são o da educação para a cidadania (capacitar o indivíduo a fazer escolhas racionais, bem informadas e com responsabilidade) e o da oferta de alternativas dignas e plenas de significado para os cidadãos, de modo que eles não queiram recorrer a coisas que lhes fazem mal. O proibicionismo impede que trilhemos este caminho e nos mantém estagnados e vulneráveis ao fascismo.

    • Who

      É deficitário porque não é bem administrado, os cálculos são muito simples.

    • E tem a corrupção, Who, que eu acho que é a principal razão da má administração.

  • Acho interessante sobre isso é o que meu irmão disse a mim outro dia:
    “você cresceu separando briga e ainda não se acostumou a levar lapada?”

    Desde criança eu evitei brigar, tanto que quando via uma briga em andamento, corria para separar os dois. Às vezes levava uma lapada, um tapa, um murro que sobrava, mas continuava a separar, permanecia no meio até os ânimos se acalmarem. Hoje percebi isso: o fato de ser contra as cotas raciais por entender nelas o preconceito, e o fato de ser sensível ao fato de que, nas grandes empresas, haja poucos negros trabalhando, ou seja, o fato de me colocar no meio para separar os dois lados e mostrar que ambos estão errados, me garantiu umas lapadas. Na família, meu avô (brasileiro médio padrão que inclusive defende a ditadura) acha que sua obrigação quando acusado é provar sua inocência. Se eu me colocar no meio e defender o outro lado, ele pára no hospital (ultimamente ando achando que é estratégia, pois sempre passa mal quando se esgotam os argumentos). Porém, ainda mantenho-me separando brigas, não vejo nelas nenhuma saída razoável.

    • Pô, encontrei um mais doido que eu. :) Eu já entrei dando porrada em um pai que estava espancando um filho dentro de um supermercado, à vista de todos, sem que ninguém interferisse, mas não separo briga. Só interfiro quando percebo que há uma evidente assimetria – ou seja, evito espancamentos. Mas quem quer brigar com alguém do mesmo tamanho que brigue, quem sou eu para interferir na livre escolha do cidadão de trocar porrada com outro nas mesmas condições? (Boa desculpa pra não arriscar a pele, hein?) ;)

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