Como acabar com a epidemia de crack
Grave bem a solução: para acabar com a epidemia de crack, a coisa mais importante a fazer é acabar com o moralismo paralisante que impede que a questão seja tratada com inteligência e respeito à cidadania; depois são necessárias umas poucas ações simples que serão descritas neste artigo.
Quadro conceitual
“Para acabar com o sofrimento é necessário acabar com a causa do sofrimento” – eis uma sabedoria com mais de 2600 anos que ainda não foi aprendida pela maior parte da humanidade.
E quais são as causas da epidemia de crack e de sua contínua ascensão?
Se você pensa que a epidemia de crack existe porque traficantes malvados querem lucrar às custas da sociedade honesta, saudável e solidária, essa pobre vítima inocente, então escreva para o Papai Noel pedindo uma solução de presente, porque com uma premissa irreal dessas a solução precisará ser mágica…
Se você quiser ser realista, saiba que as principais causas da epidemia de crack são:
1) Do lado do consumidor preferencial, que é o jovem inculto e de baixa renda, a completa falta de perspectivas de ingresso e muito menos de sucesso em uma sociedade de consumo excludente e insensível.
2) Do lado do traficante preferencial, que também é o jovem inculto e de baixa renda, a única oportunidade acessível de fuga da miséria e de acesso aos bens de consumo mais desejados na atualidade.
3) Do lado do cidadão comum não diretamente envolvido, que é você que está lendo este texto, o moralismo paralisante que impede o tratamento da questão das drogas com seriedade e objetividade.
4) Do lado dos políticos e da mídia, o interesse econômico de não contrariar os moralistas alienados que os sustentam, mesmo que isso custe o massacre de milhões de miseráveis.
Ou seja: se a maioria dos cidadãos (incluindo você, meu caro) parasse de ruminar clichês alienantes do tipo “tô fora” ou “nem pensar” e sinalizasse para os políticos e para a grande mídia que rejeita o contraproducente moralismo proibicionista repressor e apóia projetos econômicos solidários que atuam diretamente nas causas do problema, então naturalmente estes safados oportunistas passariam a fazer a coisa certa, ainda que pelos motivos errados.
(Ei! Se você não percebeu, a resposta para a questão do título do artigo se encontra no parágrafo acima. Todo o resto do artigo é corolário.)
Coisas que não funcionam
Conscientização sobre os males e perigos do crack simplesmente não funciona. Pense, raios! Você realmente acha que existe alguém que não saiba que o crack faz mal à saúde, vicia e prejudica as relações sociais e econômicas do usuário? Você realmente acha que a maioria dos usuários começou a fumar crack porque desconhecia os males e os perigos do consumo desta droga? Se você respondeu afirmativamente a qualquer destas duas perguntas, deve acreditar também que o Coelhinho da Páscoa bota ovo…
Repressão ao tráfico e ao consumo simplesmente não funciona. Não preciso explicar isso em detalhes – olhe em volta, leia os jornais e me diga se o problema está resolvido aqui ou em qualquer país proibicionista do mundo. Se você acha que o que falta é mais investimento na repressão, leia o que diz o World Drug Report 2011 sobre a situação do tráfico de drogas nos EUA, o país mais rico do mundo e que mais investe em repressão.
Almost 37% of all cocaine users worldwide are found in North America. With a prevalence rate of 1.9% among the population aged 15-64, North America – despite declines in recent years – still has the highest prevalence rate of any subregion, far above the global average (0.4%).
Eu traduzo:
Cerca de 37% de todos os usuários de cocaína no mundo se encontram na América do Norte. Com uma taxa de prevalência de 1,9% entre a população de idade entre 15 e 64 anos, a América do Norte – a despeito do declínio [das taxas de prevalência] nos anos recentes – ainda tem a mais alta taxa de prevalência de qualquer sub-região [do planeta], muito acima da média global (de 0,4%).
(World Drug Report 2011, Full Report, Organização das Nações Unidas. Arquivo em PDF. A citação está na página 36 do relatório, que corresponde à página 38 do arquivo, no meio do primeiro parágrafo completo da página.)
Percebe? O país mais rico do mundo, que mais investe em repressão, não por coincidência é o país com a maior taxa de prevalência de consumo de cocaína no mundo, quase cinco vezes maior que a média mundial. Ou seja: quanto maior o investimento em repressão, mais o problema piora.
Coisas que funcionam parcialmente
Descriminalizar e adotar políticas de redução de danos funciona parcialmente, porque estas medidas não mexem nas causas do problema, mas já ajudam um pouco.
Ao contrário do que dizem os proibicionistas, que alegam que “a descriminalização produziria uma explosão de consumo”, Portugal descriminalizou o consumo e o porte de drogas em 2001 e verificou uma redução de 10% no consumo de drogas.
Há exatos oito anos, quando a lei que descriminou as drogas foi aprovada no país, muitos disseram que Portugal se transformaria em um centro para viciados da Europa.
No entanto, estatísticas do governo português indicam que o consumo de drogas, em vez de aumentar, caiu 10%.
O governo português manifesta orgulho por sua política para as drogas. O primeiro-ministro José Sócrates destaca seu desempenho pessoal na introdução da lei, diz que os resultados são conclusivos e que a filosofia é popular.
Outro indicador de que a guinada política está dando resultados positivos é a queda no uso de drogas entre jovens desde a aprovação da lei, em 2001.
“O que sabemos é que não houve uma explosão no consumo. O senso comum pode dizer uma coisa, mas todas as estatísticas afirmam o contrário.”
O número de infectados pelo vírus HIV e de mortes provocadas pelo consumo de drogas caiu drasticamente.
(BBC, 03/07/2009 - trechos selecionados)
O que eu sinalizei no título do artigo, todavia, não foi “como reduzir em 10% o consumo de drogas em 8 anos” e sim “como acabar com a epidemia do crack”.
Objetivos ousados exigem medidas ousadas
Tudo que você leu acima é trivial, básico, elementar. Qualquer site do movimento pela legalização das drogas – como os que estão linkados na coluna da esquerda do blog Pensar Não Dói – possui todos estes dados. Mas eu sou da firme opinião de que, se queremos reduzir o imenso sofrimento gerado pela epidemia do crack, é necessário um conjunto de medidas de muito maior alcance que a mera descriminalização – tanto do consumo quanto da produção, distribuição e comércio – e a adoção de políticas de redução de danos. Com vocês, um ousado porém logicamente robusto…
Programa de Erradicação do Tráfico de Crack
O presente programa foi originalmente imaginado como um conjunto de quatro medidas que deveriam ser implementadas simultaneamente, mas logo percebi que as três primeiras eram de natureza estrutural e apresentei-as no artigo “Três medidas simples para erguer o Brasil“. Leia ou releia aquele artigo e verifique que as três medidas estruturais sugeridas servem tanto para atacar as causas do tráfico e do consumo de drogas entre a população mais atingida – jovens incultos de baixa renda – quanto para atacar as causas das causas – a miséria, a falta de perspectivas e a desesperança.
Aquelas três medidas são aplicáveis em qualquer país com poucas adaptações e podem promover uma verdadeira revolução cultural e econômica, criando o alicerce necessário para um grande salto de desenvolvimento em muito pouco tempo, mas não são resolutivas na questão específica da erradicação do tráfico de crack. Para atingir este objetivo em poucas semanas eu proponho as seguintes medidas:
Instituir um programa governamental de distribuição gratuita de crack, semelhante ao programa de distribuição gratuita de heroína testado com grande sucesso na Holanda, para cooptar a quase totalidade dos consumidores para programas de redução de danos ou de recuperação e aniquilar a lucratividade e a lógica econômica do tráfico, cortando o problema pela raiz e definitivamente.
Como medida acessória, legalizar a produção, beneficiamento, distribuição e comércio da maconha nos mesmos moldes das bebidas alcoólicas, inclusive no que diz respeito à produção doméstica ou artesanal, seja para consumo próprio ou para comércio em pequena escala.
Sim, eu quase pude ouvir você se contorcendo na cadeira ao ler as frases acima. Estou acostumado com essa reação. Eu espero que não seja esse o seu caso, mas foi exatamente por isso eu citei o moralismo paralisante como o pior problema a ser atacado para que pudéssemos tratar a questão da epidemia de crack com inteligência e respeito à cidadania. Este programa requer uma análise sóbria e objetiva.
A lógica de promover a distribuição gratuita de uma substância que se preferiria eliminar do mercado pode parecer estranha num primeiro olhar, mas é muito simples e eficaz e possui efeitos profundos que são fáceis de entender e de avaliar – desde que se pense sem preconceitos e moralismos paralisantes. Vamos fazer isso.
Para começar a análise, é evidente que entre obter o crack de graça e em quantidade ilimitada e ter que furtar, roubar, receptar, prostituir-se ou realizar qualquer outra atividade ilegal, penosa ou perigosa, a quase totalidade dos usuários que recorrem a estes expedientes, em poucos dias ou semanas após o lançamento de tal iniciativa, irá migrar das ruas, praças, parques, pontes e favelas para os recém inaugurados drogódromos municipais, onde receberão a droga gratuitamente e sem limite de quantidade, onde terão atendimento médico, psicológico e de assistência social permanentemente disponíveis e onde a polícia os protegerá ao invés de os perseguir.
A legalização da maconha nos moldes sugeridos, por sua vez, desviará para o mercado legal – inócuo para a segurança pública – a quase totalidade dos restantes consumidores de substâncias hoje proibidas que precisam se abastecer em pontos de tráfico. (Não é objetivo deste artigo discutir a conveniência da legalização da maconha ou de outras drogas – para esta finalidade dirija-se ao artigo “O Grande Imbróglio: drogas, Direitos Humanos, segurança pública e o SUS“.)
O primeiro e mais sensível efeito destas medidas será um violentíssimo golpe no crime organizado, que será rapidamente privado de sua principal fonte de financiamento devido à abrupta falência do tráfico de drogas.
O colapso econômico do crime organizado, por sua vez, promoverá dois efeitos extremamente positivos para a sociedade: em primeiro lugar, a redução da corrupção, pois o crime organizado será privado da capacidade financeira necessária para corromper policiais, advogados e membros do Judiciário; em segundo lugar, a redução da violência, pois a imensa perda de poder de organização hierárquica, logística e bélica das quadrilhas criminosas promoverá também a desarticulação do tráfico de armas em grande escala. Dentro desta mesma lógica é bastante provável que ocorra também uma gradual redução de crimes como arrastões e assaltos a bancos, embora esta especificamente seja uma tendência de longo prazo.
A maior parte dos “traficantes” – meros varejistas de buchinhas e petecas – perderá imediatamente sua única ou principal fonte de renda, momento em que as polícias e servidores do SUS e do Ministério do Trabalho especialmente contratados para implementar este programa, além de inserções nas rádios e TVs locais, divulgarão amplamente a concessão de completa anistia para todos os culpados do crime de tráfico de drogas que desejarem aderir ao novo programa de estudos profissionalizantes e frentes de trabalho descrito no artigo “Três medidas simples para erguer o Brasil“. (Há que se estudar a possibilidade de anistia a crimes não-violentos associados ao tráfico de drogas.) Quem quiser aderirá, quem não quiser continuará na mesma situação atual perante a lei.
É bastante provável que um grande percentual dos varejistas, aviõezinhos e falcões do tráfico aceite a oportunidade oferecida, mas o maior efeito sem dúvida será o de gerar oportunidades para os jovens que ainda não se corromperam em contato com o crime organizado, abortando o processo de corrupção da juventude das regiões de baixa renda.
Já os usuários, uma vez que tenham ingressado e se cadastrado no programa de distribuição gratuita, passarão a ser acompanhados nos drogódromos municipais por médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais que protegerão sua saúde e gradativamente tentarão dialogar conforme a receptividade de cada usuário para oferecer auxílio para o ingresso em programas de desintoxicação assistida e reinserção sócio-econômica.
E os futuros usuários passarão a ser ex-futuros usuários, porque ninguém vai ao posto do governo para experimentar crack pela primeira vez – o aliciamento de novos usuários ocorre quase sempre em ambientes socialmente degradados, pela oferta de um amigo, de um profissional do sexo ou de um traficante.
Com a redução gradual da população de usuários, devido às recuperações e ao envelhecimento natural desta população, e com baixíssimo ingresso de novos usuários devido à drástica redução de novos aliciamentos, a infra-estrutura total necessária para a manutenção deste programa irá diminuindo gradualmente, até atingir um nível de equilíbrio muito menor que o necessário à época de sua implantação. Ou seja: ao contrário de tudo que os governos costumam fazer, este é um projeto que vai se tornando cada vez mais eficiente e cada vez mais barato.
Conclusão
Com um único programa, cuja primeira etapa foi descrita no artigo “Três medidas simples para erguer o Brasil” e a segunda etapa no presente texto , melhora-se todo o sistema educacional do país, aniquila-se toda lógica econômica do tráfico de drogas, desbaratina-se e reduz-se imensamente o poder do crime organizado, reduz-se a corrupção policial e do Judiciário, reduz-se o tráfico de armas, direciona-se a quase totalidade dos usuários de crack para programas de recuperação de autonomia e cidadania e ainda obtém-se a gradual redução da população de usuários devido à eliminação das condições típicas de aliciamento de novos usuários.
Se a esta altura você estiver se perguntando “Por que um conjunto de medidas tão simples e óbvio não é implementado?”, lembre-se do parágrafo de abertura deste artigo: a culpa é do moralismo paralisante que impede que a questão seja tratada com inteligência e respeito à cidadania.
Desconfie das pessoas que dizem que “as drogas devem ser proibidas porque fazem mal à saúde e destroem as famílias” mas querem encarcerar usuários e guerrear com traficantes sem se preocupar com a saúde e com as famílias de qualquer um deles. Pessoas solidárias e coerentes não colocam conceitos moralistas acima do bem estar de seres humanos reais.
Se você quiser viver em um mundo onde liberdade e segurança não sejam apenas palavras bonitas usadas pelos políticos para captar votos de incautos alienados e de moralistas intolerantes, o preço a pagar pode ser a manutenção de um programa social pacífico e promotor de cidadania como o que eu expus no artigo “Três medidas simples para erguer o Brasil” e aqui.
Compare o custo disso com o custo das dezenas de milhares de incapacitações, mutilações, mortes e destruição de famílias que ocorrem todo ano devido à política proibicionista e repressiva vigente e pense se é melhor continuar investindo na intolerância e na repressão ou se é melhor abandonar o moralismo paralisante e ousar ser solidário e inteligente.
Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 26/06/2012
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Porra… Mas vai dizer isso pra um “proibicionista” e ele vira um pombo e “caga no tabuleiro, derruba as peças e sai batendo as asas em trinfante “vitória”"
Agora, como resolver a verdadeira raiz do problema: moralismo paralisante?
Eu consigo ver e entender a sua lógica. Mas eu sou uma minoria dentro de uma minoria. Fico puto com a reação de nojo das pessoas quando sugiro estes tipos medidas. Já coloquei na “roda” do bar VÁRIAS vezes o conceito de se oferecer a droga de graça, justamente com os mesmos argumentos que você coloca. Mas existe um “duplipensar” que parece limitar a capacidade das pessoas de enxergar certas lógicas.
Nem aquela velha “Se legalizar vocÊ vai por um acaso começar a cheirar até ter OD?” convence os mesmos de que não vai haver explosão de consumo. Não sei de onde as pessoas tiram que sem a lei todo mundo vai virar louco e abusar de drogas.
Pois é, Bruno, o pessoal proibicionista age assim mesmo. A gente fala em acabar com a epidemia de crack, descreve o método e os caras lêem e saem dizendo que queremos sustentar vagabundo drogado de graça e perguntando se daríamos crack para nossos filhos. Eu tento evitar, porque é um mau sentimento, mas tem sido impossível não sentir desprezo por quem faz esse tipo de coisa.
Eu sonho com o dia em que alguém apresente uma idéia destas e ouça em resposta “peraí… e se os traficantes fizerem como no México e começarem a matar os usuários que recorrerem aos drogódromos?” – ou seja, uma objeção razoável e bem fundamentada, a partir da qual seria possível ou detalhar, ou aperfeiçoar, ou abandonar a idéia em virtude de seus méritos, potenciais ou vícios intrínsecos.
Mas o moralismo paralisante é – desculpa a obviedade – paralisante…
Arthur, e se os traficantes fizerem como no México e começarem a matar os usuários que recorrerem aos drogódromos?
Nois mata elis uai!
Hehehehe… Sinceramente? Eu não temo essa possibilidade no Brasil. Eu teria medo disso em um país de língua espanhola, mas não nos países de língua portuguesa. Não é o feitio dos povos lusófonos.
Mas vamos supor que eu esteja errado nesta percepção. Neste caso o simples reforço da segurança dos drogódromos e a intensificação da inteligência policial contra um narcotráfico agonizante, privado de sua fonte de financiamento, seria provavelmente suficiente para garantir a manutenção do sistema por uns seis meses, prazo máximo que eu considero provável que o narcotráfico agüentaria manter o combate contra o Estado, devido a sua situação deficitária.
Nós temos uma situação geográfica bem diferente do México, que é um corredor entre zonas produtoras com governos corruptos e uma grande zona consumidora com uma máfia muito bem organizada e com excelente logística. Faça o que fizer, exceto a plena legalização, o México sempre estará metido nesta situação. Nós temos apenas que conviver com a proximidade das zonas produtoras com governos corruptos. A nossa máfia nem fica enraizada em um país próximo sobre o qual não temos ingerência nem possui um centésimo da capacidade organizacional e logística da máfia dos EUA. Até nossos bandidos são de pior qualidade que os deles…
Ou seja: quanto maior o investimento em repressão, mais o problema piora.
Na-na-ni-na-não! Nada de “ou seja”. Essas estatísticas não significam nada. Se você tivesse mostrado um dado correlacionando aumento de gastos com repressão com aumento de consumo de drogas nos EUA, ao longo do tempo, tirar essa conclusão seria muito mais plausível (embora eu ainda ache que a questão precisaria ser mais escrutinada). Mas esses dados que você colocou não provam nada. Pode ser que o consumo de drogas seja maior nos EUA simplesmente porque seus cidadãos são muito estressados, por fatores culturais, e têm mais dinheiro. Pode ser que, se não fosse pelo programa de repressão, os EUA consumiriam vinte mil vezes mais drogas que o resto do mundo. Talvez você esteja certo, mas essas estatísticas não convencem.
Pessoas solidárias e coerentes não colocam conceitos moralistas acima do bem estar de seres humanos reais.
Você diz isso apesar de defender o uso de violência “virtuosa”, que obviamente diminui o bem estar de seres humanos reais. Pelo que entendi, é assim: se o criminoso é pobre, seu bem estar é o mais importante, já que ele não tinha perspectivas, mas se ele é rico, o bem estar de suas vítimas é o mais importante.
[...] é bastante provável que ocorra também uma gradual redução de crimes como arrastões e assaltos a bancos, embora esta especificamente seja uma tendência de longo prazo.
Às custas de um provável pico de violência no curto prazo. Não dá pra dizer com certeza o que é curto prazo, mas certamente isso vai afetar o bem estar de pessoas reais, talvez os funcionários do drogódromo e os usuários que o frequentam.
E os futuros usuários passarão a ser ex-futuros usuários, porque ninguém vai ao posto do governo para experimentar crack pela primeira vez – o aliciamento de novos usuários ocorre quase sempre em ambientes socialmente degradados, pela oferta de um amigo, de um profissional do sexo ou de um traficante.
Sem nem mesmo questionar a validade da hipótese de que tendo alguma perspectiva os potenciais usuários de crack não iriam experimentá-lo pela primeira vez, e os potencias traficantes fugiriam do crime, assumindo que as suas ideias são verdadeiras, isso só vai dar certo se as suas três medidas para erguer o Brasil tiverem a capacidade de praticamente extinguir os “ambientes socialmente degradados”.
Sobre as três medidas, a primeira é muito inteligente, e eu concordo com a ideia da segunda de mudar o currículo do ensino fundamental e médio, mas não com as suas propostas de mudança específicas. Mas a terceira, embora seja bacana, eu já sou mais cético se funcionaria. E, embora as duas primeiras sejam boas ideias, ela é a mais importante, no meu ponto de vista, quando estamos falando de crack.
Não dá pra ter certeza de que essas empresas darão certo, e se não derem, o programa dá errado. O índice de mortalidade de empresas é alto, quem diria dessas empresas, que serão administradas por gente sem educação, com crime/vício no currículo e sem dinheiro!
Por fim, quero reclamar de mais uma coisa. Embora eu acho que a questão precise ser mais debatida para que os eventuais erros no seu raciocínio possam ser apontados, achei interessantes as suas propostas e sua boa intenção. Mas, pô, podia ter sido um pouco menos agressivo no texto! Eu sei que é prazeroso ser agressivo escrevendo, mas você precisa ser um pouco menos egoísta quando trata de programas relevantes como esse, pensar menos no seu prazer ao escrever e mais nas consequências. E olhe as consequências:
Quem concorda com seu posicionamento sem hesitar vai gostar da agressividade, mas esses já gostariam do seu texto sem ela.
Quem discorda de ti e é convicto, independente da sua agressividade, vai discordar do seu texto.
Mas aqueles que não têm as pernas enfiadas até os joelhos no solo, aqueles cuja opinião é possível de ser alterada, eles serão afastados pela agressividade. E são esses os mais importantes! Em muitos casos, você pode escrever para os seus amigos te aplaudirem e pra cutucar seus inimigos, mas eu acho que nesse caso seria muito importante você fazer um texto menos agressivo, feito pra convencer mesmo.
“Embora eu acho que a questão precise ser mais debatida para que os eventuais erros no seu raciocínio possam ser apontados, achei interessantes as suas propostas e sua boa intenção. Mas, pô, podia ter sido um pouco menos agressivo no texto!” (Elvis)
AAAAAAARRRRRRRRGGGGGGGGHHHHHHHHH!!!!!!!!!
Raios me partam! Senti um frio na espinha quando li isso – e meus piores pesadelos se confirmaram quando corri para conferir qual versão do texto tinha sido publicada!
Damn! Damn! Damn! Pisei na bola.
Publiquei o artigo às 4h da madrugada e devido ao sono sem querer publiquei a “versão do fígado”. Eu explico.
Eu normalmente penso e escrevo de modo parecido à técnica de brainstorm: conforme dá na cabeça, sem criticar a forma ou o mérito, simplesmente registrando as idéias e a mensagem conforme aparecem na mente, para depois analisar tudo, podar metade e editar o que sobrou para eliminar inconsistências e impropriedades. Quando eu faço isso direitinho, o resultado costuma ser e parecer ponderado.
Se o assunto é instigante, apaixonante, conflitivo, a primeira versão do texto é a “versão do fígado”, na qual eu escrevo palavrão, mando socar as objeções na orelha, xingo a mãe, dou piti… enfim, extravaso as emoções livremente para não perder ou empobrecer a linha de raciocínio gastando energia em críticas extemporâneas porque precipitadas. E, lógico, logo em seguida eu dou risada e deleto ou reescrevo as partes inadequadas.
Dizendo assim até pode parecer que o texto original parece um monstro e o final um coelhinho, mas a verdade é que eu respeito demais as pessoas e não costumo escrever aberrações. O texto que tu leste hoje (e toda a maldita internet também) é um exemplo: tratava-se apenas da segunda versão do texto, na qual os problemas lógicos já haviam sido corrigidos e faltava só remover as expressões inadequadas. Quando li teu comentário eu só precisei abrir o editor e modificar dois parágrafos para ter um texto muito menos agressivo e mais adequado. É a versão que está no ar agora.
“Talvez você esteja certo, mas essas estatísticas não convencem.” (Elvis)
Estatísticas? Que estatísticas?
Eu não apresentei estatísticas, eu apresentei um cisne negro. Ou um corvo branco, como preferires.
Dez entre dez proibicionistas dizem que o que falta é investimento na repressão. É para isso que serve o exemplo dos EUA: para mostrar que, se nem o país com mais dinheiro e com mais investimento em repressão no mundo inteiro consegue reduzir o problema – muito pelo contrário, é o país que mais sofre com o problema – então com certeza não é “falta de investimento” a causa da ineficácia da repressão.
“Pelo que entendi, é assim: se o criminoso é pobre, seu bem estar é o mais importante, já que ele não tinha perspectivas, mas se ele é rico, o bem estar de suas vítimas é o mais importante.” (Elvis)
Não, não é isso. O bem estar das vítimas é sempre o mais importante. A grande questão é que muita gente não percebe que freqüentemente chamamos uma das vítimas de “criminoso”.
O cara que nasce em um ambiente degradado, não recebe afeto, nem educação, nem orientação moral, nem exemplo bom algum é uma vítima. É óbvio que uma vítima desse tipo de tratamento pode por sua vitimar alguém, e eu não vou negar a responsabilidade deste indivíduo na escolha de seus atos, mas será que nesse caso não há outros culpados ainda mais culpados por trás? Culpados estes que costumam se eximir de toda a responsabilidade, alegando que “a decisão de cometer crimes é 100% individual” apesar de sabermos que diferentes sociedades, com diferentes sistemas políticos e econômicos, possuem taxas de criminalidade diferentes?
Toda a diferença entre a taxa de criminalidade do país com menor criminalidade do mundo e qualquer outro país é culpa do governo destes outros países – por não adotar uma política de benchmark.
Já o criminoso rico… que desculpa tem?
“Às custas de um provável pico de violência no curto prazo.” (Elvis)
Talvez. Mas este é o legítimo caso em que não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos. Para acabar com o tráfico é absolutamente necessário desempregar o traficante. Fazer isso através apenas das “três medidas simples para erguer o Brasil” demoraria tanto que provavelmente a diferença entre a violência total acumulada em um cenário e outro seja maior do que duas ordens de grandeza, com vantagem óbvia para o cenário que eu proponho. Ou seja, vale a pena e muito.
“isso só vai dar certo se as suas três medidas para erguer o Brasil tiverem a capacidade de praticamente extinguir os “ambientes socialmente degradados”.” (Elvis)
Ou se a atratividade dos drogódromos for tão grande (como penso que será) que raramente os usuários consumam drogas fora deles. Ambas as medidas colaboram sinergisticamente para o mesmo objetivo – uma fortalece o não-usuário para que resista melhor à idéia de se tornar usuário e outra enfraquece o poder aliciador do usuário.
“Não dá pra ter certeza de que essas empresas darão certo, e se não derem, o programa dá errado.” (Elvis)
As empresas-escola são apenas uma parte da terceira medida. Há ainda os cursos profissionalizantes e as incubadoras de microempresas. E há todo um mercado em volta. Deixei propositadamente muitas possibilidades abertas para não engessar uma parte do programa que depende muito dos mercados, os quais têm horror a gesso.
Elvis,
Existem estudos comparando os investimentos na repressão ao consumo de drogas e o número de assassinatos nos estados unidos demonstrando que além da correlação existe causalidade. As duas curvas se “encaixam”. Vou procurar esse dado, mas é real. Um bom exemplo é o que está havendo no México: aumentar os investimentos bélicos no combate ao crime “organizado” gerou uma explosão de violência.
Viva a internet, achei uma referência que PODE SER VERIFICADA:
http://www.cbc.ca/documentaries/doczone/2011/gangsternextdoor/wood.pdf página 15!
Veja que existe uma relação de Causalidade! Significa que não é mera correlação, a aplicação de recursos na repressão é diretamente proporcional a violência ligada ao mercado ilegal de drogas.
“Ou seja: quanto maior o investimento em repressão, mais o problema piora.” O (
macaco) blogueiro tá certo.Oh! Alguem ainda lembra do Planeta dos Homens?!
Não espalha. Vão ficar sabendo da nossa idade.
Ah, que bacana, Arthur, apertei um control+F e não achei mais termos agressivos, é legal saber que foi um deslize, e achei legal seu método de escrever.
O que falei sobre estatística, o Bruno entendeu e já respondeu. Valeu, Bruno! Eu tinha certeza que algum “desproibicionista” iria tirar umas boas estatísticas do bolso para mim. Mas não vou conferir agora porque são dez pras onze e estou com sono, hahahaha!
“Deslize”? Foi uma mancada do tamanho de uma avalanche. As estatísticas do blog desabaram e duvido que se reergam tão cedo. Ainda bem que só eu estava pensando num certo abobado razoavelmente inofensivo mas de quem quero distância quando escrevi aquilo, ou poderia ter publicado algo pior. Não tens idéia do quanto fiquei constrangido e chateado com esse episódio.
Bom, não há como consertar o passado. Bola pra frente.
Extinguindo a papoula.
A papoula é a fonte do ópio, não do crack.
Distribuir crack gratuitamente…
Hummmm, sei não?
Quem vai se voluntariar a distribuir essa bagaça?
Alguém se habilita?
Porque eu não me habilito, pois já vi essa gente quando se encontra em surto paranoico, é simplesmente medonho.
O sujeito fica tão louco, é imprevisível.
Uma coisa é certa, a repressão do jeito que está, não resolve bulufas nenhuma, o incrível é que tem gente que acredita nisso.
Tudo que é proibido torna-se tentação, portanto reprimir do jeito que se reprime só aumenta a tentação.Não adianta fugir disso, é da natureza do ser humano a vontade de cultivar qualquer vício ainda mais quando esse vício é ilícito.
“Quem vai se voluntariar a distribuir essa bagaça?
Alguém se habilita?” (Alexandre)
Não acho que haveria grande problema com isso. Na pior das hipóteses, eis um modo de absorver a mão-de-obra dos pequenos traficantes recém-desempregados. Mas o pessoal da área médica daria conta do recado na boa.