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As feministas e o aborto masculino

As feministas são a favor do aborto. As feministas dizem que lutam pela igualdade entre os sexos. Logo, as feministas deveriam reivindicar o direito ao aborto masculino. Como elas não o fazem, OU não são a favor do aborto, OU não lutam pela igualdade. Simples assim. A não ser, é claro, que o silogismo tenha sido “promovido” a instrumento machista do patriarcado falocêntrico historicamente opressor. 

Um homem e uma mulher fazem sexo consensual. Do sexo consensual surge uma nova vida. Dizem então as feministas que a mulher deve ter o direito de matar essa nova vida que cresce dentro dela segundo seus próprios interesses e conveniências.

Ignorando momentaneamente o absurdo de reivindicar o “direito ao homicídio de inocentes incapazes de se defender”, porque é isso o aborto, quero avaliar a coerência das feministas em reivindicar a “luta pela igualdade”. 

As feministas não chamam o feto de bebê, criança, ser humano ou filho – elas o chamam de “mero aglomerado de células” – e não chamam a mulher grávida de “mãe”, alegando que ela só se tornará mãe após o feto passar a ser um ser humano (afinal, “feto” é uma samambaia). 

Ora, as feministas dizem que a mulher deve ter o “direito soberano” de decidir pelo aborto em qualquer situação, ou seja, de fazer o que bem entender com seu próprio corpo, inclusive sexo desprotegido e irresponsável, e pela mesma lógica “tirar o corpo fora” mesmo que isso implique a morte de um ser humano inocente. E dizem que lutam pela igualdade. 

Supondo verdadeiros – para mero exercício intelectual – os discursos feministas pelo aborto e pela igualdade, as feministas deveriam reivindicar direitos iguais para o homem, o que inclui o direito de fazer sexo desprotegido e irresponsável e depois “tirar o corpo fora”, que é o que significa a expressão “aborto masculino”. 

No chamado “aborto masculino” o homem não influi sobre o corpo da mulher, que decide livremente sobre seu próprio corpo, mas também não permanece refém da decisão da mulher, reservando-se o direito de não se tornar pai da criança que nascerá. 

Manifestas em tempo hábil fixado em lei e igual para ambos os sexos, a vontade de “não se tornar mãe” e a vontade de “não se tornar pai” do “mero aglomerado de células” que se tornará uma criança deveriam ser rigorosamente simétricas. 

Vejamos como seria um discurso coerente: 

- Segundo as feministas, a mulher que não quer se tornar mãe pode usar um método anticoncepcional, mas se não o fizer ou se este falhar ela tem o “direito soberano de decidir sobre seu próprio corpo” e não se tornar mãe através de uma técnica chamada “aborto”, que nada interfere com o corpo do doador do espermatozóide. 

 - Segundo as feministas, o homem que não quer se tornar pai pode usar um método anticoncepcional, mas se não o fizer ou se este falhar ele tem o “direito soberano de decidir sobre seu próprio corpo” e não se tornar pai através de uma técnica chamada “aborto masculino”, que nada interfere com o corpo da doadora do óvulo. 

Não é lógico? “Direitos iguais” é isso: ambos, homem e mulher, devem ter a mesmíssima possibilidade de decidir se podem ou não arcar com o ônus de ter um filho, segundo seus próprios interesses e conveniências, e a mesmíssima possibilidade de se desonerar destes ônus independentemente da vontade do outro, como as feministas reivindicam para as mulheres.

As feministas querem que a mulher tenha sempre, a todo o momento, antes durante e depois do ato sexual, o direito de decidir sobre ter ou não ter o filho que gerou. 

Mas as mesmas feministas querem que o homem, a partir do momento em que o ato sexual foi consumado, não tenha qualquer direito de escolha sobre ter ou não ter o filho que gerou, permanecendo refém da decisão da mulher e tendo a obrigação adicional de pagar por duas décadas e meia por uma decisão que não foi sua e que era contrária a sua vontade. 

Vamos deixar bem claro, então: para que o discurso feminista fosse coerente, as feministas teriam a obrigação de reivindicar OU que o aborto só possa ser realizado se ambos, homem e mulher, forem da mesma opinião, OU que o homem possa praticar o “aborto masculino”, desligando-se completa e definitivamente de qualquer obrigação em relação ao filho que a mulher decidiu sozinha que viria a nascer. 

Percebam que em nenhum momento minha argumentação reivindica o direito de influir sobre a decisão da mulher. Nada disso. Eu reivindico lógica e coerência. Se a mulher pode decidir sobre o aborto e assim fugir da responsabilidade de criar um filho indesejado, então o homem também deve ter o mesmo direito. E, se o homem não pode ter esse direito, então a mulher também não pode tê-lo. É isso que significa “direitos iguais”.

É por direitos iguais que as feministas dizem que lutam. Vamos ver se elas serão coerentes e encherão a caixa de comentários do Pensar Não Dói com a reivindicação explícita do direito do homem de não se tornar pai após o ato sexual tanto quanto querem que a mulher tenha o direito de não se tornar mãe após o ato sexual. Se isso não acontecer, ficará evidente – mais uma vez – que o que as feministas reivindicam não são direitos iguais, são privilégios sexistas. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 15/05/2012

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