Nos comentários do artigo “Restabelecendo o bom senso” a Paulinha perguntou: “Por que você acha que um adolescente que tem, teoricamente, uma vida inteira pela frente, se deleta usando crack?” Eis a resposta.
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Nos comentários do artigo “Restabelecendo o bom senso” a Paulinha perguntou: “Por que você acha que um adolescente que tem, teoricamente, uma vida inteira pela frente, se deleta usando crack?” Eis a resposta. Grave bem a solução: para acabar com a epidemia de crack, a coisa mais importante a fazer é acabar com o moralismo paralisante que impede que a questão seja tratada com inteligência e respeito à cidadania; depois são necessárias umas poucas ações simples que serão descritas neste artigo. Neste final de semana de Páscoa, quando estávamos comendo peixe e ovinhos de chocolate com nossas famílias, recebi notícias de Amélia. Notícias truncadas, incompletas e pouco confiáveis, trazidas por uma amiga dela igualmente prostituta e drogada, das quais seleciono somente o que pude confirmar por alto com uma fonte que não posso revelar. Este artigo é baseado em fatos reais. Lá pelo meio de uma discussão sobre a famigerada Lei Seca alguém falou que cometer um acidente ou um crime sob efeito do álcool era uma condição atenuante. Do ponto de vista de nossa legislação, é isso mesmo. Mas isso está errado. Estar entorpecido quando se comete um acidente ou um crime deveria ser uma condição agravante.
Imagine que você é professor e um aluno seu faz esta pergunta em aula: “professor, quanta cocaína dá pra cheirar sem ter overdose?” – o que você responde? Certamente não a verdade. Se você responder a verdade, provavelmente será processado por “apologia ao uso de drogas” ou alguma estupidez assim, além de provavelmente perder o emprego. Para ser “um bom professor”, você precisa desconversar, omitir a verdade ou mentir. Eu odeio pizza de banana. Portanto, eu simplesmente não como pizza de banana. Ponto. Eu não gasto meu tempo pensando em pizza de banana, não incomodo quem gosta de pizza de banana dizendo que pizza de banana é ruim e não tento organizar as pessoas que não gostam de pizza de banana para impedir por via legislativa que as pessoas que gostam de pizza de banana tenham o direito de comer a pizza de que gostam só porque eu odeio pizza de banana. A questão dos critérios para intervenção e tutela temporária de usuários de drogas é importantíssima. Precisamos trazer este debate a público tanto para proteger o indivíduo que perdeu o controle sobre sua vida, para que esta não seja destruída pelas drogas, quanto para proteger o indivíduo que mantém o controle sobre sua vida, para que esta não seja destruída pelo Estado. A relação entre a legalização das drogas, os Direitos Humanos, a segurança pública e a responsabilidade pelo financiamento do sistema de saúde – eis a complexidade da pauta imposta pelo comentário da Paula no artigo “O consumidor de drogas é culpado pela violência do tráfico?“. Adorei, Paulinha, teu comentário merece um artigo inteiro em resposta. Ei-lo. Muita gente culpa o consumidor de drogas pelo financiamento do crime organizado. Eu entendo a lógica básica deste raciocínio: “se ninguém quisesse comprar drogas, ninguém ia querer vender drogas, portanto não haveria tráfico de drogas”. Entendo mas não posso concordar, porque há uma premissa totalmente errada nesta hipótese. Tanques de guerra invadindo ruas da cidade. Ônibus e veículos particulares incendiados. Tiroteio contínuo apavorando e vitimando a população dia após dia. Inúmeros óbitos de “suspeitos”. Diversos focos de incêndio destruindo moradias de gente pobre. Arrastões em meio ao caos. E isso tudo é apenas o começo. |
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