Este artigo comenta uma notícia de mesmo título publicada no jornal O Dia do portal iG em 07/05/2012.
Esta é a notícia:
Aula gravada em computador no lugar de professor
MEC distribuirá 600 mil tablets com lições de quatro disciplinas
POR MARIA LUISA BARROS
Rio – Na falta de professores de Ensino Médio para disciplinas de Física, Química, Biologia e Matemática, o Ministério da Educação (MEC) pretende solucionar o déficit, no segundo semestre, com aulas gravadas e transmitidas pelo computador.
“Não temos professores disponíveis no mercado para atender a demanda. Com a educação digital pretendemos dar conta desse grande desafio que é o Ensino Médio”, reconheceu o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, após evento na Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas, ontem, no Rio.
O ministro afirmou que vai distribuir 600 mil tablets com projetores digitais para professores de escolas públicas em todo o País. Segundo o ministro, atualmente existem 170 mil professores que não têm formação nas matérias que lecionam.
O ministro pretende levar o programa Mais Educação, que oferece atividades extras no contraturno, para 30 mil escolas este ano. Mercadante defendeu que pelo menos 30% da arrecadação dos royalties sobre a exploração de petróleo da camada de pré-sal sejam destinados ao financiamento das áreas de educação, ciência e tecnologia.
O aumento da arrecadação seria a saída para o Plano Nacional de Educação, que eleva de 5% para 8% do Produto Interno Bruto os recursos destinados à educação. Mercadante prevê que comissão na Câmara aprove o plano até o fim do mês.
Para Nobel, ação dos pais é fundamental
Pais que participam da educação dos filhos nos primeiros três anos — estimulando leitura, conversa e jogos — contribuem para o sucesso profissional. A conclusão é do ganhador do prêmio Nobel de Economia, em 2000, James Heckman. Professor da Universidade de Chicago, ele disse ontem que o Brasil deve focar políticas públicas na primeira infância.
“Até 10 anos, a personalidade pode ser mudada. Quanto mais precoce for a intervenção maior será o custo benefício”, disse o especialista. Heckman sugeriu que se inclua no Enem avaliações não só de conhecimentos gerais, mas da personalidade dos jovens.
Bem…
Quando eu afirmava já em 1995 que a educação no Brasil era um lixo e que a (maioria absoluta) quase totalidade dos professores não passava de papagaios que seriam melhor substituídos por videotecas com aulas gravadas por professores de primeira linha, o pessoal do partido do ministro da educação (minúsculas propositais) tinha faniquitos, subia nas tamancas e bradava clichês sobre a insubstitutibilidade do ser humano, sobre a imensurável importância do professor na formação do cidadão, contra o elitismo na educação e blá-blá-blá Whiskas Sachê.
Nada como um dia após o outro.
A parte divertida de ler uma notícia destas é lavar a alma vendo os mesmos detratores de minhas idéias e de minha pessoa fazerem com dezessete anos de atraso aquilo que eu já preconizava em 1995.
A parte triste é perceber que o PT está fazendo isso não porque reconheceu que o ensino público brasileiro é uma merda, mas porque percebeu que não conseguiria sequer distribuir merda para todo mundo. Bota incompetência nisso.
Mas a idéia é boa ou não é?
Não, não é. Na verdade, a idéia é péssima. Seria boa se tivesse sido resultado de uma análise e de um planejamento cuidadosos, ciosos da necessidade de capacitação e treinamento prévios para centenas de milhares de professores que precisariam aprender a lidar com a tecnologia da informação e adquirirem uma formação mínima nas disciplinas que lecionam muito antes de o governo distribuir seiscentos mil equipamentos caros que certamente serão extremamente sub-utilizados ou mesmo não utilizados por pura falta de capacidade dos professores para operá-los.
Do jeito que isso está sendo feito – como sempre, aliás – o resultado não será muito diferente do que seria distribuir computadores com planos de fuga na jaula dos macacos: a informação estará “disponível”, mas os macacos continuarão na jaula. Permitam-me fazer uma previsão sombria: daqui a dois ou três anos, talvez pouca coisa mais, alguém vai se lembrar dessa história e perguntar “mas onde estão estes equipamentos e que uso está sendo dado a eles?” – e uma reportagem no Fantástico vai mostrar que no mínimo 60% deles ou nunca foram instalados em sala de aula, ou já sumiram, sem que nenhum benefício tenham prestado e sem absolutamente nenhum impacto nas estatísticas educacionais.
E, para piorar as coisas, a reportagem será encerrada mostrando UM professor abnegado e genial que conseguiu dar nó em pingo d’água com o equipamento, mostrando que “quando se quer e se tem boa vontade, tudo é possível”, deixando assim um clima de esperança no ar ao final da reportagem. Uma esperança falsa.
Como deveria ser?
Garantir um grande incremento na qualidade do ensino público brasileiro não é complicado. Eu mesmo já apresentei duas fórmulas, uma no artigo Como qualificar o ensino público e outra no artigo Revolução na educação: do atoleiro às estrelas em uma geração.
Porém, desta vez quero me focar na proposta específica em questão: como distribuir 600.000 tablets com projetores e garantir que eles sejam usados de modo produtivo?
A resposta é, na verdade, muito simples:
1. Distribuam os tablets somente para quem se capacitar previamente para utilizá-los. Um professor tem que ter capacidade intelectual suficiente para aprender a usar um tablet sozinho. Para isso existe o manual do usuário e para isso podem ser feitas boas cartilhas (o MEC não tem professores capacitados para preparar essa cartilha?). Quem não tiver capacidade intelectual para “tanto”, dá licença, pé na bunda.
2. Ofereçam um incentivo salarial para quem se capacitar para utilizar os tablets em menos de (um mês) (três meses) seis meses. Cem pila por mês a mais para aprender a usar um tablet já seria um grande incentivo para a maior parte dos professores que precisam deste incentivo. Nada de bônus percentual. Sem essa de pagar 10% a mais de salário para essa finalidade, porque isso não faria quase diferença para o professor semi-analfabeto que ganha salário mínimo e ainda trabalha com mimeógrafo enquanto premiaria injustamente o professor universitário que ganha dez ou vinte salários mínimos e já usa computador todo dia.
3. Demitam os professores que não se capacitarem em dois ou três anos. Tenha Santa Paciência… uma ameba lobotomizada não demoraria dois ou três anos para aprender a usar um tablet. Quem não conseguir – ou não quiser – se atualizar minimamente para atender às necessidades da educação de seus alunos no mundo moderno estará fazendo o que em sala de aula???
Para verificar quem está capacitado e quem não está capacitado a usar o tablet, nada mais simples: prova prática. Pela internet mesmo. Basta orientar os professores:
- Envie um e-mail para testedotablet@mec.gov.br com o número do seu CPF na linha de título, seu nome como único conteúdo da mensagem e sua foto em anexo;
- Responda ao e-mail de confirmação automática que será imediatamente enviado para sua caixa de correspondência preenchendo o formulário nele contido;
- Monitore seu e-mail diariamente, realize as tarefas solicitadas pelo MEC e aguarde a avaliação (automática) para saber se está qualificado a receber o tablet.
Qual a dificuldade de o Ministério da Educação elaborar um conjunto de tarefas que possam ser solicitadas e respondidas por e-mail para verificar a capacitação dos professores no uso da tecnologia que pretende distribuir? Não tem ninguém lá que saiba fazer uma coisa banal destas?
Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 10/05/2012




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