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O Brasil movido a ódio

O fascismo está entre nós – tenho denunciado há anos sem que mais de meia dúzia de pessoas mostre mais do que um vago sentimento de preocupação; a maioria ignora completamente o assunto. Eu pensava que isso era negligência da população. Desconfio agora que seja algo muito pior. Acho que o povo brasileiro abraçou uma cultura de ódio e intolerância. 

Olhe em volta. Faça as perguntas certas. Ouça o que as pessoas dizem. É assustador.

P1: O que você acha da pena de morte?

R1: É uma afronta à dignidade humana. Ninguém tem o direito de matar, muito menos o Estado. Não quero um Estado que mate em meu nome. Precisamos investir na recuperação das pessoas e não em sua destruição.

R2: Bandido bom é bandido morto, tem mais é que matar estes desgraçados mesmo ao invés de sustentar vagabundo em presídio cinco estrelas, com três refeições ao dia e direito à visita íntima, direitos que nem o trabalhador tem garantidos. E enterrar essa corja em pé pra não ocupar espaço.

P2: O que você acha da política?

R3: A política é a mais nobre das atividades humanas. É através da política que a sociedade expressa seus valores e debate as medidas necessárias para o progresso, em busca do bem estar de todos os seus membros, de harmonia social e de justiça.

R4: A política é uma podridão completa. Só atrai pilantra, corrupto e safado. O único interesse dos políticos é roubar o povo. Precisamos mesmo é de uma nova ditadura pra botar ordem no país. Pra acabar com a baderna só na base do medo.

Em um plebiscito, qual das posições sobre a pena de morte sairia vitoriosa? R1 ou R2? Qual inclinação transparece a partir desta constatação? O povo brasileiro é pacífico, generoso e tem uma visão positiva do ser humano? Ou o povo brasileiro é movido a raiva, ressentimento e tem uma visão negativa do ser humano?

Em uma enquete, qual das opiniões sobre a política sairia majoritária? R3 ou R4? Qual tendência transparece a partir desta constatação? O povo brasileiro confia em sua capacidade de transformar o país em um lugar melhor para viver? Ou o povo brasileiro quer mais é se livrar da responsabilidade de consertar o país e deseja que algum “salvador” meta-lhe um cabresto e o conduza à força para um lugar diferente do poço de lama que seu complexo de vira-latas indica ser o único lugar para onde sabe ir? 

Eu poderia citar inúmeros outros exemplos, mas no momento vou avaliar somente um, a escalada da “guerra às drogas” e a posição da maioria dos brasileiros em relação a diversas medidas do governo neste sentido. 

O cidadão que deseja se entorpecer de modo privado, em busca de relaxamento ou entretenimento, se usar para isso determinadas substâncias, é considerado criminoso. A justificativa é que “drogas fazem mal”, mas os remédios propostos contra o “mal” são porrada da polícia, cadeia o mais desconfortável possível, repressão, humilhação, “tratamento” à força e quase sempre ostracismo. Isso é lutar contra o mal ou é usar uma desculpa conveniente para demonstrar intolerância e promover violência? 

Pois bem, até pouco tempo as chamadas “drogas ilícitas” eram as únicas a serem reprimidas com intolerância e violência. Das ilícitas já passamos às lícitas. Hoje o cidadão que bebe uma latinha de cerveja e uma hora depois volta dirigindo do bar para casa é um criminoso a ser encarcerado, enquanto o cidadão que acende um cigarro e distraidamente entra em um ônibus é um infrator da lei a ser expulso e multado. 

As drogas absolutamente necessárias para tratamentos de saúde, por sua vez, estão cada vez mais controladas. Há apenas dois anos atrás, o cidadão que sofresse um arranhão qualquer que infeccionasse simplesmente ia até o banheiro de sua própria casa, tirava da farmacinha do fundo do armário uma pomadinha e uma gaze, fazia um curativo e no dia seguinte estava bem. Hoje em dia o cidadão é proibido de cuidar da própria saúde, não pode comprar a tal pomadinha sem autorização do Estado e tem que entrar numa fila para ser atendido e avaliado pelo Estado para que este determine o que é melhor para sua saúde. 

Quanto tempo falta até que tenhamos que solicitar autorização do Estado e entrar em uma fila para comprar sal? Afinal, sal causa hipertensão arterial, é perigoso para a saúde e portanto deve ser controlado pelo Estado. Ou talvez o sal seja simplesmente alvo de impostos escorchantes, como os cigarros recentemente, porque o Estado decidiu que o povo não tem que fumar e que se dane quem pensar diferente? O que não falta hoje em dia é gente dizendo que o governo agiu bem ao elevar astronomicamente o preço dos cigarros.

O brasileiro tem recebido alegremente e aprovado toda medida autoritária e repressiva imposta pelo governo. Não se ouviu um “ai” na mídia contra o autoritarismo das medidas do desarmamento, da proibição da comercialização dos antibióticos, da interdição dos fumódromos, da criminalização de qualquer nível de alcoolemia, do banimento dos aditivos de sabor nos cigarros, etc. A grande imprensa apóia e estimula o autoritarismo.

O brasileiro acha tudo isso justo e correto – até que a sua porta seja chutada por um coturno no meio da madrugada. Aí ele abre os olhos e percebe a injustiça, mas o vizinho dele diz “para a polícia invadir a casa dele deste jeito, alguma coisa errada ele fez” e continua apoiando o autoritarismo, a repressão e a violência…até o dia em que a sua própria porta é chutada por um coturno no meio da madrugada e o seu próprio vizinho diz ”para a polícia invadir a casa dele deste jeito, alguma coisa errada ele fez” e continua apoiando o autoritarismo, a repressão e a violência… 

SESSENTA E SEIS MILHÕES DE PESSOAS FORAM MASSACRADAS ASSIM na antiga União Soviética sem que ninguém metesse uma bala na cabeça de Stálin. Os agentes do governo vinham, seqüestravam um cidadão inocente a qualquer hora do dia ou da noite – de preferência no meio da madrugada – e os vizinhos não diziam nada, não faziam nada, nem sequer fugiam do país, só ficavam torcendo que a sua cabeça não entrasse na contagem. 

Esse número – 66.000.000 de vítimas do comunismo – é 11 vezes maior do que o número de pessoas que foram massacradas pelo nazismo. E mesmo assim ninguém fez nada. As pessoas sabiam que havia algo errado, mas diziam que não era com elas, que não podiam fazer nada, que se tentassem se meter na política acabariam sendo prejudicadas ou perseguidas, etc.

A história nos ensina que nem mesmo sessenta milhões de vidas destruídas são suficientes para demover um povo de sua letargia e fazê-lo enfrentar um opressor enquanto este estiver dizendo que faz o que faz pelo bem do povo. Somente um completo idiota declararia abertamente ser um déspota hoje em dia, após os excelentes ensinamentos de Hitler (déspota declarado, subiu ao poder apoiado pelo povo, matou seis milhões de pessoas e viu o mundo se unir em guerra contra ele) e de Stálin (déspota hipócrita, subiu ao poder apoiado pelo povo, matou sessenta e seis milhões de pessoas, morreu em paz e é cultuado por imbecis até hoje).

A hipocrisia dá muito melhor resultado.

E isso funciona porque o povo adora ser enganado.

Adora, porque tem sede de sangue. 

Só não percebe que o único sangue disponível é o seu próprio. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 18/04/2012

Estamos chocando o ovo da serpente

“A lei não deixa abertura para critérios diferentes sobre o que seja aceitável.” (Paula, no último artigo sobre a Lei da Palmada) Este é justamente o ponto. Na impossibilidade de legislar de modo consistente e preciso, optou-se por nivelar por baixo, assumindo uma postura intolerante, autoritária e prepotente: “o Estado sabe o que é melhor para todos”. Ou seja, fascismo. A Lei da Palmada é apenas mais um exemplo entre muitos. Será que ninguém vê os sinais? [Ler texto completo]

Uma tenda na montanha dos gorilas vermelhos

Eu e um amigo usamos com freqüência algumas metáforas do filme original do Planeta dos Macacos para nos referirmos a certos comportamentos humanos. Afinal, esse era o objetivo do filme: uma terrível metáfora sobre nossa realidade. O problema é que o mundo me parece cada vez mais idêntico à metáfora. [Ler texto completo]