Coerência. Se eu tivesse que contribuir com uma só palavra para o momento histórico pelo qual o país está passando, esta palavra seria coerência. Ou isso, ou o movimento que hoje vemos nas ruas vai dar em nada. Explico.
O movimento que está nas ruas não começou com o Movimento Passe Livre. Nada disso. Nos dias em que – desinformado pela grande mídia – pensei que os protestos no Brasil e no exterior aconteciam em apoio ao MPL, vi o movimento com maus olhos e nem sequer procurei me informar mais profundamente a respeito. Como o aumento dos protestos atingiu uma escala desproporcional a esta motivação, resolvi me informar melhor. E, obtendo melhor informação, fiquei furioso ao perceber que eu tinha sido enganado.
Se o MPL não tivesse sido reprimido com violência, se não tivéssemos assistido a truculência conjunta de PT e PSDB se voltar contra um movimento incipiente com uma bandeira utópica, nada disso teria acontecido. O MPL teria arregimentado uma parcela significativa da população, é certo, devido ao apelo pelo não aumento dos preços e pela discussão sobre a passagem universal gratuita, mas não teria emplacado uma idéia tão contrária ao senso comum: alguém no fim das contas tem que pagar a conta.
O movimento que está nas ruas começou, portanto, quando o povo assistiu pasmo os governos do PT e do PSDB se unirem para espancar e dispersar a população que manifestava legitimamente uma aspiração que pode ser lógica ou absurda, mas que deveria ter sido respeitada como legítima manifestação de vontade popular e analisada de modo racional, com argumentos válidos, por parte dos governos do PT e do PSDB. Os governos até podem eventualmente divergir da vontade da população, mas não podem espancar e calar quem deles diverge.
O problema, entretanto, é que esquecemos a fábula do sapo e do escorpião.
O sapo e o escorpião
Um sapo rondava em busca de moscas à beira de um rio quando chegou um escorpião e lhe pediu:
- Amigo sapo, eu não sei nadar. Por favor, leve-me até a outra margem em suas costas e prometo ajudá-lo a procurar uma boa refeição.
O sapo respondeu:
- Amigo escorpião, você me desculpe, mas tenho medo de seu ferrão.
O escorpião argumentou:
- Que é isso, amigo sapo?! Eu não pagaria o bem com o mal. Além disso, se eu o picasse durante a travessia, meu veneno o mataria antes que atingíssemos a outra margem e eu morreria também. Seria estúpido fazer uma coisa dessas.
O sapo pensou um pouco e tomou sua decisão:
- Está bem, amigo escorpião, você tem razão. Venha, suba em minhas costas, eu lhe darei uma carona.
O escorpião subiu nas costas do sapo e o sapo pôs-se a nadar em direção á outra margem. No início estava tudo tranqüílo, mas lá pela metade do caminho o escorpião já não parecia tão amigável. Lá pelas tantas, simlesmente ferroou sem motivo a nuca do sapo.
O sapo, sentindo a dor e já meio grogue, perguntou ao escorpião:
- Por que você fez isso? Eu estava ajudando você. Você me traiu, e sua traição nos condenou a ambos. Quando eu afundar, você vai morrer junto comigo. Isso não está certo, nem faz sentido.
O escorpião, sem demonstrar remorso, respondeu:
- Do que você está reclamando? Você resolveu confiar em um escorpião e acha que não é responsável pelo que aconteceu? Essa é minha natureza. Se você não tivesse confiado em mim, estaríamos ambos seguros na margem do rio.
E os dois afundaram juntos, um culpando o outro por seu próprio infortúnio.
O povo brasileiro está demonstrando nas ruas que finalmente descobriu qual é a verdadeira natureza do PT, do PSDB, de seus aliados e dos partidos dos quais se originaram e aos quais deram origem: são um bando de escorpiões. A natureza deles é perversa e corrupta, é assim que eles são e é assim que eles sempre serão. Seremos então os sapos e os colocaremos sobre nossas costas através do voto?
Os grandes partidos e seus aliados compõem uma gigantesca máfia que há muitos anos vêm enganando o povo brasileiro com promessas que nunca se concretizam de um país sem miséria, sem violência e no qual todo cidadão tenha o direito e as oportunidades necessárias para progredir e conquistar sua felicidade. Só o que nos legaram, entretanto, foram ilusões e frustrações, manipulando alguns setores da sociedade lançando-lhes migalhas de privilégios e outras medidas populistas que nada mais promovem senão a redistribuição da miséria e da violência que prometeram eliminar.
Os escorpiões dominam o Estado brasileiro.
Quando os sapos que os elegeram aprenderão a lição?
A máfia política que domina o Brasil, que mente quanto aos índices inflacionários, que constróis estádios privados de futebol com dinheiro público enquanto o povo recebe uma “educação” que não serve para nada e morre nas filas dos hospitais, que divide a sociedade para governar, jogando os negros contra os brancos, as mulheres contra os homens, os homossexuais contra os religiosos e os pobres contra a classe média, essa máfia contra a qual os manifestantes se insurgem e que os recebeu desde o princípio com pauladas e bombas de gás lacrimogênio não irá mudar de natureza em função dos protestos.
Confiar nesses escorpiões de língua aveludada, que reconhecem publicamente a legitimidade das manifestações enquanto se reúnem a portas fechadas para planejar como combatê-las, nada mais seria do que cometer o mesmo erro do sapo da fábula. Se já conhecemos a natureza dos escorpiões – e a dimensão das manifestações mostra que já conhecemos muito bem seu doloroso veneno – então reconduzir tais pragas a posições de comando em qualquer esfera dos Poderes da República será uma rematada estupidez.
Lembre-se: o escorpião da fábula não se acha responsável pela desgraça que produziu. Ele considera perfeitamente legítima sua traição, porque o sapo sabia com quem estava lidando e portanto era plenamente responsável pela situação em que se colocou. O escorpião jamais admitirá sua culpa. Ele continuará tentando convencer o sapo a confiar nele e continuará ferroando o sapo sempre que tiver oportunidade. É a natureza dele. E a natureza dele contraria o que o povo brasileiro quer.
Mas o que o povo brasileiro quer? Que raios querem estes protestos estranhos, sem uma lista de itens que possam ser objeto de compromisso e sem lideranças centralizadoras com as quais os escorpiões possam negociar?
Na verdade é muito simples.
O que o povo brasileiro quer é:
“Instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias.”
Não fui eu quem escreveu essa bela definição. Esse é o preâmbulo da Constituição Federal de 1988.
O Brasil (ainda) é um país com uma democracia formal em pleno funcionamento. Nós (ainda) temos eleições diretas com voto universal e secreto para todos os níveis de governo e para todos os parlamentos. Portanto, é muito fácil mudar os rumos do país se estivermos descontentes: basta mudar os números que apertamos nos botõezinhos das urnas eletrônicas a cada dois anos; basta parar de pedir para os escorpiões serem confiáveis e tratar de testar outras alternativas em busca de melhores resultados.
“Mas que alternativas temos?” – perguntarão muitos. “Poucas e más”, direi eu, mas (ainda) temos também a alternativa de construir novas alternativas. É por isso que os grandes partidos e a grande mídia já tentaram impor uma “cláusula de barreira” e agora estão empenhados em tornar mais difícil a abertura de novos partidos. Eles não querem mudanças. Para eles é bom que o povo não tenha canais legítimos de expressão. É por isso que toda nova legenda é chamada de “nanica” e posta sob suspeita de ser um novo partido de aluguel. É por isso que toda manifestação popular é chamada de “baderna” e tem sua imagem associada preferencialmente a qualquer episódio de vandalismo que aconteça, por mais minoritário e não-representativo que seja.
Se, ao invés de pedir que os escorpiões se tornem confiáveis, todo esse povo que participa nas manifestações ou que apoia as manifestações passasse a votar em outros partidos, ou se organizasse em novos partidos, atuando politicamente com a ética com que gostaria de ver o país funcionar, sem concessões de qualquer natureza, por mais convenientes que sejam, então o quadro político certamente mudaria. Se não imediatamente, devido à qualidade do material que humano que hoje temos à disposição para eleger, pelo menos inicialmente pelo aumento da competição entre eles, depois pelo fortalecimento das lideranças realmente éticas.
Com o tempo e com vigilância implacável, sempre com a disposição de escorraçar inapelavelmente das urnas os políticos que não cumprirem suas promessas de campanha, viabilizaríamos o surgimento de novas lideranças, entre as quais algumas se mostrarão honestas, transparentes e eficazes na construção de um Estado digno e capaz de satisfazer os anseios populares. Com um pouco mais de participação ativa em nível institucional poderíamos mudar a maneira de fazer política neste país.
O que não terá o menor cabimento, desmoralizará o movimento popular e eliminará a razão de ser de todas as manifestações já feitas e ainda por fazer, será eleger novamente os escorpiões – governantes e parlamentares ligados ao PT, ao PSDB e aos seus aliados – nas eleições de 2014 e nas seguintes.
Correndo o risco de parecer “um pouquinho” panfletário:
Fora PT! Fora PSDB! Fora corruptos e ineptos!
Queremos hospitais, escolas e um país padrão FIFA!
Em um primeiro momento, é bem possível que tudo que possamos fazer é alterar o equilíbrio de forças entre os escorpiões, deixando de votar nos grandes, apostando em novos nomes, torcendo para que dentre eles surjam algumas exceções.
No longo prazo, a única solução será formar uma nova cultura política no Brasil, com o povo deixando de acreditar que “a política é naturalmente suja” e passando não somente a exigir honestidade, transparência e eficácia dos políticos e das instituições, mas a selecionar consciente, ativa e implacavelmente quem compõe as instituições.
Protestos não farão os escorpiões mudarem de natureza. Mude o Brasil nas urnas.
Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 19/06/2013





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