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O sapo, o escorpião e os protestos – ou: em quem votarão os manifestantes?

Coerência. Se eu tivesse que contribuir com uma só palavra para o momento histórico pelo qual o país está passando, esta palavra seria coerência. Ou isso, ou o movimento que hoje vemos nas ruas vai dar em nada. Explico. 

O movimento que está nas ruas não começou com o Movimento Passe Livre. Nada disso. Nos dias em que – desinformado pela grande mídia – pensei que os protestos no Brasil e no exterior aconteciam em apoio ao MPL, vi o movimento com maus olhos e nem sequer procurei me informar mais profundamente a respeito. Como o aumento dos protestos atingiu uma escala desproporcional a esta motivação, resolvi me informar melhor. E, obtendo melhor informação, fiquei furioso ao perceber que eu tinha sido enganado. 

Se o MPL não tivesse sido reprimido com violência, se não tivéssemos assistido a truculência conjunta de PT e PSDB se voltar contra um movimento incipiente com uma bandeira utópica, nada disso teria acontecido. O MPL teria arregimentado uma parcela significativa da população, é certo, devido ao apelo pelo não aumento dos preços e pela discussão sobre a passagem universal gratuita, mas não teria emplacado uma idéia tão contrária ao senso comum: alguém no fim das contas tem que pagar a conta. 

O movimento que está nas ruas começou, portanto, quando o povo assistiu pasmo os governos do PT e do PSDB se unirem para espancar e dispersar a população que manifestava legitimamente uma aspiração que pode ser lógica ou absurda, mas que deveria ter sido respeitada como legítima manifestação de vontade popular e analisada de modo racional, com argumentos válidos, por parte dos governos do PT e do PSDB. Os governos até podem eventualmente divergir da vontade da população, mas não podem espancar e calar quem deles diverge. 

O problema, entretanto, é que esquecemos a fábula do sapo e do escorpião. 

O sapo e o escorpião

Um sapo rondava em busca de moscas à beira de um rio quando chegou um escorpião e lhe pediu: 

- Amigo sapo, eu não sei nadar. Por favor, leve-me até a outra margem em suas costas e prometo ajudá-lo a procurar uma boa refeição. 

O sapo respondeu: 

- Amigo escorpião, você me desculpe, mas tenho medo de seu ferrão. 

O escorpião argumentou: 

- Que é isso, amigo sapo?! Eu não pagaria o bem com o mal. Além disso, se eu o picasse durante a travessia, meu veneno o mataria antes que atingíssemos a outra margem e eu morreria também. Seria estúpido fazer uma coisa dessas. 

O sapo pensou um pouco e tomou sua decisão: 

- Está bem, amigo escorpião, você tem razão. Venha, suba em minhas costas, eu lhe darei uma carona. 

O escorpião subiu nas costas do sapo e o sapo pôs-se a nadar em direção á outra margem. No início estava tudo tranqüílo, mas lá pela metade do caminho o escorpião já não parecia tão amigável. Lá pelas tantas, simlesmente ferroou sem motivo a nuca do sapo. 

O sapo, sentindo a dor e já meio grogue, perguntou ao escorpião: 

- Por que você fez isso? Eu estava ajudando você. Você me traiu, e sua traição nos condenou a ambos. Quando eu afundar, você vai morrer junto comigo. Isso não está certo, nem faz sentido. 

O escorpião, sem demonstrar remorso, respondeu: 

- Do que você está reclamando? Você resolveu confiar em um escorpião e acha que não é responsável pelo que aconteceu? Essa é minha natureza. Se você não tivesse confiado em mim, estaríamos ambos seguros na margem do rio. 

E os dois afundaram juntos, um culpando o outro por seu próprio infortúnio. 

O povo brasileiro está demonstrando nas ruas que finalmente descobriu qual é a verdadeira natureza do PT, do PSDB, de seus aliados e dos partidos dos quais se originaram e aos quais deram origem: são um bando de escorpiões. A natureza deles é perversa e corrupta, é assim que eles são e é assim que eles sempre serão. Seremos então os sapos e os colocaremos sobre nossas costas através do voto? 

Os grandes partidos e seus aliados compõem uma gigantesca máfia que há muitos anos vêm enganando o povo brasileiro com promessas que nunca se concretizam de um país sem miséria, sem violência e no qual todo cidadão tenha o direito e as oportunidades necessárias para progredir e conquistar sua felicidade. Só o que nos legaram, entretanto, foram ilusões e frustrações, manipulando alguns setores da sociedade lançando-lhes migalhas de privilégios e outras medidas populistas que nada mais promovem senão a redistribuição da miséria e da violência que prometeram eliminar. 

Os escorpiões dominam o Estado brasileiro. 

Quando os sapos que os elegeram aprenderão a lição? 

Não peça a um canalha que se comporte bem. Simplesmente escorrace-o.

A máfia política que domina o Brasil, que mente quanto aos índices inflacionários, que constróis estádios privados de futebol com dinheiro público enquanto o povo recebe uma “educação” que não serve para nada e morre nas filas dos hospitais, que divide a sociedade para governar, jogando os negros contra os brancos, as mulheres contra os homens, os homossexuais contra os religiosos e os pobres contra a classe média, essa máfia contra a qual os manifestantes se insurgem e que os recebeu desde o princípio com pauladas e bombas de gás lacrimogênio não irá mudar de natureza em função dos protestos.

Confiar nesses escorpiões de língua aveludada, que reconhecem publicamente a legitimidade das manifestações enquanto se reúnem a portas fechadas para planejar como combatê-las, nada mais seria do que cometer o mesmo erro do sapo da fábula. Se já conhecemos a natureza dos escorpiões – e a dimensão das manifestações mostra que já conhecemos muito bem seu doloroso veneno – então reconduzir tais pragas a posições de comando em qualquer esfera dos Poderes da República será uma rematada estupidez.

Lembre-se: o escorpião da fábula não se acha responsável pela desgraça que produziu. Ele considera perfeitamente legítima sua traição, porque o sapo sabia com quem estava lidando e portanto era plenamente responsável pela situação em que se colocou. O escorpião jamais admitirá sua culpa. Ele continuará tentando convencer o sapo a confiar nele e continuará ferroando o sapo sempre que tiver oportunidade. É a natureza dele. E a natureza dele contraria o que o povo brasileiro quer.

Mas o que o povo brasileiro quer? Que raios querem estes protestos estranhos, sem uma lista de itens que possam ser objeto de compromisso e sem lideranças centralizadoras com as quais os escorpiões possam negociar? 

Na verdade é muito simples. 

O que o povo brasileiro quer é: 

“Instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias.”

Não fui eu quem escreveu essa bela definição. Esse é o preâmbulo da Constituição Federal de 1988. 

O Brasil (ainda) é um país com uma democracia formal em pleno funcionamento. Nós (ainda) temos eleições diretas com voto universal e secreto para todos os níveis de governo e para todos os parlamentos. Portanto, é muito fácil mudar os rumos do país se estivermos descontentes: basta mudar os números que apertamos nos botõezinhos das urnas eletrônicas a cada dois anos; basta parar de pedir para os escorpiões serem confiáveis e tratar de testar outras alternativas em busca de melhores resultados.

“Mas que alternativas temos?” – perguntarão muitos. “Poucas e más”, direi eu, mas (ainda) temos também a alternativa de construir novas alternativas. É por isso que os grandes partidos e a grande mídia já tentaram impor uma “cláusula de barreira” e agora estão empenhados em tornar mais difícil a abertura de novos partidos. Eles não querem mudanças. Para eles é bom que o povo não tenha canais legítimos de expressão. É por isso que toda nova legenda é chamada de “nanica” e posta sob suspeita de ser um novo partido de aluguel. É por isso que toda manifestação popular é chamada de “baderna” e tem sua imagem associada preferencialmente a qualquer episódio de vandalismo que aconteça, por mais minoritário e não-representativo que seja. 

Se, ao invés de pedir que os escorpiões se tornem confiáveis, todo esse povo que participa nas manifestações ou que apoia as manifestações passasse a votar em outros partidos, ou se organizasse em novos partidos, atuando politicamente com a ética com que gostaria de ver o país funcionar, sem concessões de qualquer natureza, por mais convenientes que sejam, então o quadro político certamente mudaria. Se não imediatamente, devido à qualidade do material que humano que hoje temos à disposição para eleger, pelo menos inicialmente pelo aumento da competição entre eles, depois pelo fortalecimento das lideranças realmente éticas.

Com o tempo e com vigilância implacável, sempre com a disposição de escorraçar inapelavelmente das urnas os políticos que não cumprirem suas promessas de campanha, viabilizaríamos o surgimento de novas lideranças, entre as quais algumas se mostrarão honestas, transparentes e eficazes na construção de um Estado digno e capaz de satisfazer os anseios populares. Com um pouco mais de participação ativa em nível institucional poderíamos mudar a maneira de fazer política neste país. 

Cultivar novas lideranças - honestas, transparentes e eficazes - é imprescindível.

O que não terá o menor cabimento, desmoralizará o movimento popular e eliminará a razão de ser de todas as manifestações já feitas e ainda por fazer, será eleger novamente os escorpiões – governantes e parlamentares ligados ao PT, ao PSDB e aos seus aliados – nas eleições de 2014 e nas seguintes.

Correndo o risco de parecer “um pouquinho” panfletário:  

Fora PT! Fora PSDB! Fora corruptos e ineptos! 

Queremos hospitais, escolas e um país padrão FIFA! 

Em um primeiro momento, é bem possível que tudo que possamos fazer é alterar o equilíbrio de forças entre os escorpiões, deixando de votar nos grandes, apostando em novos nomes, torcendo para que dentre eles surjam algumas exceções. 

No longo prazo, a única solução será formar uma nova cultura política no Brasil, com o povo deixando de acreditar que “a política é naturalmente suja” e passando não somente a exigir honestidade, transparência e eficácia dos políticos e das instituições, mas a selecionar consciente, ativa e implacavelmente quem compõe as instituições

Protestos não farão os escorpiões mudarem de natureza. Mude o Brasil nas urnas. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 19/06/2013 

“Educação” significa “engenharia cerebral”

Quem educa ou faz engenharia cerebral, ou faz nada. Ou você assume que sua função como educador é modificar o desenvolvimento do cérebro de alguém e faz isso visando um objetivo específico, de modo planejado e eficaz, ou você parte da premissa errada e produz um resultado qualquer por puro acaso. “Facilitador de aprendizagem” é um vomitador de verborragia nonsense; o bom educador é um engenheiro de cérebros. 

Vista por este paradigma, a educação adquire um senso de urgência e eficiência muito distinto do usual. O cérebro está em constante desenvolvimento desde muito antes do nascimento, razão pela qual cada segundo que passa sem que uma engenharia de cérebro seja aplicada é um segundo perdido para a modificação do desenvolvimento do modo pretendido. Quando portanto deve começar a educação de uma criança? Desde muito antes de ela nascer.

Cada fase do desenvolvimento cerebral constitui uma janela de oportunidade única para implementar as modificações neurológicas que se deseja implantar no cérebro do educando. Antes do nascimento, temos acesso ao desenvolvimento do cérebro através de estímulos auditivos. Logo após o nascimento, temos acesso ao desenvolvimento do cérebro através de estímulos táteis. Noventa dias após o nascimento, temos acesso ao desenvolvimento do cérebro através de estímulos visuais. Nenhuma destas janelas de oportunidade deveria ser perdida para alterar o desenvolvimento neurológico da criança conforme queremos.

O que fazer antes do nascimento? Nem vou falar do óbvio, que é não expor a criança a substâncias tóxicas advindas do consumo de drogas como álcool, tabaco, cocaína e outras, além de uma alimentação desbalanceada. Há outros cuidados importantes, especialmente no que diz respeito aos estímulos sonoros, que são os primeiros que influenciam no desenvolvimento do cérebro. Não expor a criança a ruídos estridentes, ou que pareçam de qualquer modo agressivos ou perigosos, ou que sejam meramente grosseiros. Nada de discussões acaloradas ou gritarias. Nada de “música” com melodias ou harmonias de péssima qualidade. 

A criança ainda não nascida deve ser exposta a sons melodiosos e harmoniosos, como primeiro passo do direcionamento de sua organização neurológica. Música clássica de alta qualidade é a principal recomendação. Mozart. Beethoven. Bach. Liszt. Vivaldi. Tchaikovky. Chopin. Ravel. Strauss. Haydn. Schubert. Paganini. A lista dos grandes é grande e amplamente disponível.

Por que isso? Porque o desenvolvimento dos nervos auditivos e das áreas de processamento de som do cérebro começam bem antes do nascimento, e, quanto antes forem estimulados com melodias e harmonias de alta qualidade, tanto melhor se desenvolverão e serão capazes de identificar uma gama maior de sons de modo mais preciso.

Para que isso? Para obter não somente o melhor desenvolvimento neurológico como também para evitar a decepção e o trauma de surpreender seu filho adolescente curtindo o “Funk Proibidão do MC Cafunga-pó-no-tiroteio”. Você está entendendo aonde quero chegar?

Um bom e ordenado desenvolvimento neurológico é uma ótima arma contra a atratividade do lixo sensorial e cultural, mas não apenas isso. Inteligência significa capacidade de adaptação através de processamento de informação. Foi isso que levou nossa espécie a dominar o planeta e é isso que leva cada indivíduo a dominar seu ambiente e atingir seu máximo potencial como ser humano: a tradicional inteligência racional (lógico-cognitiva) e aquilo que hoje é conhecido como inteligência emocional. 

A mesma lógica válida para os estímulos auditivos serve para todo o desenvolvimento neurológico da criança. 

Pelos mesmos motivos a criança recém nascida deve ser exposta a estímulos táteis delicados e reconfortantes. Deve ser tocada diretamente na pele, abraçada de encontro à pele, acarinhada, embalada sem sacolejos, tratada com atenção, carinho e paciência. Nada de gritos, gestos bruscos e manifestações de irritação e intolerância.

Pelos mesmos motivos a criança logo após começar a enxergar com foco, lá pelos noventa dias de vida, deve começar a aprender a ler e a interpretar símbolos como os de “pare”, “proibido estacionar”, “não passar a ferro”, “secar à sombra”, bluetooth, entrada USB, etc.

Pelos mesmos motivos a criança logo após aprender a ler e interpretar símbolos deve ser introduzida ao mundo da matemática, do método científico e dos conhecimentos enciclopédicos mais importantes sobre o funcionamento do mundo, cuidadosamente selecionados segundo critérios de utilidade e propedêutica.

Pelos mesmos motivos a criança logo após conseguir andar e desenvolver sua motricidade de modo a conseguir manipular objetos deve ser treinada em exercícios cada vez mais complexos de coordenação motora e integração sensório-motora.

Pelos mesmos motivos tudo isso deve ser feito de modo estimulante e preferencialmente divertido, com ênfase no gosto pelo aprendizado e no alcance da maior autonomia possível, sempre com muito afeto, com um exemplo ético e com uma visão conseqüencialista.

Isso tudo é um apanhado mínimo, extremamente superficial. Eu não posso expor tudo que é necessário para promover o melhor desenvolvimento neurológico, cognitivo e emocional nos detalhes adequados em um artigo de blog – seria necessário um livro – mas creio que a idéia básica está bem clara: dia após dia o cérebro amadurece em função dos estímulos do meio, então, ao invés de permitir um desenvolvimento aleatório e incoerente, é muito melhor que os estímulos sejam planejados e consistentes para promover a melhor organização neurológica possível - que é o que deveríamos querer para todas as crianças, pelo menos na minha visão de mundo. Se você pode ter o melhor possível, por que contentar-se com menos? 

Não posso imaginar presente melhor para uma criança do que todos os estímulos necessários para que ela realize o máximo de seu potencial como ser humano. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 15/06/2013

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A falta de qualidade na educação científica

Um texto intitulado “Filhos de gays se saem melhor do que os outros” está causando rebuliço na internet. Resolvi pesquisar a fonte e fiquei surpreso ao descobrir que o texto foi publicado pela Revista Superinteressante – cuja qualidade editorial eu sempre respeitei. Fiquei duplamente decepcionado: principalmente com a pesquisa, porque é falha, mas também com a Super, porque eles falharam em detectar falhas metodológicas óbvias no estudo que gerou tais conclusões. (Engoliram a falácia da autoridade do pesquisador?) O estudo não é válido. Vou explicar por quê. 

Antes de tudo, leia a reportagem da Super. Os grifos em negrito são meus:

Filhos de gays se saem melhor do que os outros

Chega de preconceito. Adolescentes criados por mães lésbicas vão melhor na escola, têm mais amigos e se sentem bem consigo mesmos. Precisa de mais? 

Nos últimos 30 anos, diversos estudos têm demonstrado que a orientação sexual dos pais não influencia o ajustamento psicológico e social das crianças. Mas alguns críticos ainda questionam a legitimidade da criação de filhos em lares gays, lembrando que a maioria dos adolescentes estudados nasceu em uniões heterossexuais antes que a mãe se divorciasse e se assumisse como lésbica. Minha pesquisa vai além: eu acompanho a primeira geração americana de famílias lésbicas planejadas, nas quais as mães já se identificavam assim antes da inseminação artificial. Portanto, estudo seus filhos desde que nasceram. E constatei que, aos 17 anos, eles se saíram ainda melhor, em alguns aspectos, que outros adolescentes da mesma idade.

Os filhos das lésbicas tiveram melhor desempenho na escola e nas interações sociais, por exemplo, do que garotos de famílias heterossexuais. Também apresentaram menos problemas de comportamento, como agressividade e violação de regras. Os dados vêm do Estudo Nacional Longitudinal de Famílias Lésbicas dos EUA (NLLFS, na sigla em inglês), que iniciei com uma colega há 26 anos. No total, 154 lésbicas (solteiras e com companheiras) se inscreveram entre 1986 e 1992. Desde então, temos reunido dados por meio de entrevistas e questionários. E os resultados surpreendem.

Para medir a qualidade de vida, pedimos aos 78 adolescentes filhos de lésbicas que completassem uma pesquisa com frases como “Eu me dou bem com meus pais” ou “me sinto bem comigo mesmo”, que deviam ser avaliadas de 0 (discordo) a 10 (concordo totalmente). Comparamos as respostas com as de 78 adolescentes pareados por sexo, idade e etnia. E não encontramos diferenças entre os dois grupos, como era esperado. A surpresa veio quando pedimos que nos descrevessem suas vidas em detalhe. Vimos que os filhos das lésbicas eram muito bons na escola, tinham diversos amigos de longa data e fortes laços familiares. Numa escala de 1 a 10, eles deram 8,4 em média para seu bem-estar – o que não é comum entre adolescentes. E 93,4% consideraram que suas mães são bons modelos a seguir, excepcional para a faixa etária.

Esse desempenho não é por acaso. As mães de nosso estudo se comprometeram em participar ativamente da vida dos filhos. Precisaram educar todo mundo à sua volta sobre famílias lésbicas – do obstetra às professoras. Também participaram de programas anti-bullying nas escolas. Elas dedicaram muito tempo para tornar o caminho dos filhos o mais seguro e saudável possível. Quase metade das crianças do estudo havia sido alvo de comentários homofóbicos, mas souberam lidar com isso.

Apesar de todas essas evidências, ainda existe o mito de que gays e lésbicas não podem ser bons pais, tal como diziam os juízes americanos nos anos 70, ao negar a custódia dos filhos a homossexuais divorciados. Quando as primeiras pesquisas indicaram que os filhos de gays e lésbicas estavam se dando bem, os juízes argumentavam que não havia estudos longitudinais confirmando isso. Claro: como estudos assim demandam muitos anos, os magistrados podiam continuar dizendo não aos gays. Em 1982, um banco de esperma abriu as portas pela primeira vez a lésbicas que queriam engravidar. Na época eu era uma pesquisadora da Escola de Medicina de Harvard, e vi que um novo fenômeno social estava surgindo. Por isso iniciei o NLLFS – o mais longo estudo já feito. Com ele, os juízes já não podem levar adiante seu preconceito.

*Nanette Gartrell é psiquiatra e investigadora principal do Estudo Nacional Longitudinal de Famílias Lésbicas dos EUA (NLLFS, na sigla em inglês), em São Francisco. Em depoimento a Eduardo Szklarz. 

Certo. Agora vamos por partes. 

Em primeiro lugar, quem tem filhos planejados – especialmente por inseminação artificial – não tem filhos por acidente, não tem filhos indesejados. A importância deste fator é tão maior quanto maior for a dificuldade e o custo para engravidar e por si só constitui um viés provavelmente muito mais importante do que a sexualidade dos progenitores. A comparação, portanto, é simplesmente inválida.

Em segundo lugar, quem pratica qualquer tupo de voluntarismo ou ativismo, seja na área que for – inclusive na participação voluntária em pesquisas – sempre apresenta resultados diferentes do público em geral, porque o voluntarismo ou ativismo por si só constitui um fator de diferenciação. Pessoas problemáticas, com dificuldades de relacionamento, têm uma tendência muito menor a participar voluntariamente de pesquisas, devido a sua própria personalidade. Este fator por si só constitui um viés provavelmente muito mais importante do que a sexualidade dos progenitores. 

Fica claro pelas declarações da pesquisador que não somente “esse desempenho não é por acaso” como essa amostragem não é por acaso. A comparação entre a amostra de mães lésbicas e a população de mães lésbicas sofre o viés amostral do voluntarismo e do ativismo. E a comparação entre a amostra de mães lésbicas e a população de mães em geral sofre o viés amostral do planejamento da gravidez.

Os resultados, portanto, não surpreendem. Eles foram produzidos por um delineamento amostral com falhas metodológicas grosseiras. As amostras possuem vieses importantes, são completamente viciadas, absolutamente nenhuma generalização pode ser feita a partir delas. O tal estudo foi, é e será completamente inútil do ponto de vista estatístico, porque a amostra não representa nenhuma população e não há como retrabalhar os dados para chegar a qualquer conclusão exceto talvez no caso de alguma comparação entre segmentações internas da própria amostra. 

O único mérito do estudo acaba sendo mostrar que existem casos de sucesso na criação de filhos por casais homossexuais, o que não é nenhuma novidade. Para um estudo longo prazo, com financiamento público, com pretensão de elucidar aspectos importantes do comportamento humano para fundamentar legislação e decisões judiciais, entretanto, o resultado final é paupérrimo.

E a Superinteressante, provavelmente porque se entusiasmou com a notícia, baixou a guarda, falhou na avaliação metodológica e embarcou bonitinho divulgando um estudo com mau delineamento amostral e portanto com conclusões sem a validade pretendida. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 05/06/2013 

Por que os EUA apoiaram ditaduras?

Os EUA se auto-proclamam “a maior democracia do mundo”. A despeito do fato de serem na verdade uma plutocracia, o fato é que eles se dizem democráticos. Como então poderiam apoiar ditaduras “em nome da democracia e da liberdade”? Eu não entendia isso – até que a evolução da política nacional me levou a estudar em maior profundidade o marxismo e sua conseqüência inevitável, o stalinismo, bem como sua identidade de interesses com os plutocratas.  [Ler texto completo]

My Medical Choice – Angelina Jolie

Este é o artigo original escrito por Angelina Jolie e publicado no The New York Times, para quem quiser conferir o que exatamente ela disse que gerou toda a discussão que levou a meu artigo anterior. (Os grifos são meus.) Ao final há dois artigos relacionados, também retirados do The New York Times, que discutem a questão de forma civilizada.   [Ler texto completo]

Angelina Jolie quer mutilar mulheres saudáveis?

Por tudo que é mais sagrado, eu estou coberto de nojo por uma declaração perversa que vi no Youtube: “Angelina Jolie breast mutilation agenda exposed”. Já chegamos mesmo ao nível de perversão necessário para “respeitar” esse tipo de acusação infame e execrável?  [Ler texto completo]

Racismo e sexismo em nome dos Direitos Humanos

Eu tenho vontade de esganar com minhas próprias mãos os imbecis que endossam o tipo de tese mentirosa e mal intencionada de que raça ou sexo estão ou devem estar ligadas a caráter, dignidade ou direitos. Infelizmente, devido à estupidez ou à ganância – ou a ambos – há cada vez mais gente que pratica os mais descarados racismo e sexismo em nome os Direitos Humanos e de um suposto combate ao racismo e ao sexismo. Desta vez foi um documentário que fez meu sangue ferver.  [Ler texto completo]

Por que sempre dá zebra na política

Você quer saber como é possível que mesmo após 2.500 anos do surgimento da democracia nenhuma sociedade democrática no planeta jamais produziu espontaneamente um Estado capaz de estabelecer leis plenamente justas, um sistema econômico estável e abundante e uma cultura em que a autonomia individual e a harmonia social são ambas valorizadas e equilibradas? Eu explico.  [Ler texto completo]

As diferenças entre um presídio e o seu trabalho

Uma daquelas coisas que primeiro nos fazem rir, mas depois…  [Ler texto completo]

O fenômeno Marcos Feliciano

Você acha mesmo que Marcos Feliciano é um maluco fundamentalista homofóbico que pretende instalar uma “Jesuscracia” no Brasil? Que ele e o PSC decidiram permanecer sob o tiroteio da grande mídia e dos movimentos sociais porque estão dispostos a defender valores cristãos mesmo à custa de um grande desgaste? Ou mesmo que ele está lá simplesmente para se cacifar perante os eleitores evangélicos? Nada mais equivocado.  [Ler texto completo]