Quem educa ou faz engenharia cerebral, ou faz nada. Ou você assume que sua função como educador é modificar o desenvolvimento do cérebro de alguém e faz isso visando um objetivo específico, de modo planejado e eficaz, ou você parte da premissa errada e produz um resultado qualquer por puro acaso. “Facilitador de aprendizagem” é um vomitador de verborragia nonsense; o bom educador é um engenheiro de cérebros.
Vista por este paradigma, a educação adquire um senso de urgência e eficiência muito distinto do usual. O cérebro está em constante desenvolvimento desde muito antes do nascimento, razão pela qual cada segundo que passa sem que uma engenharia de cérebro seja aplicada é um segundo perdido para a modificação do desenvolvimento do modo pretendido. Quando portanto deve começar a educação de uma criança? Desde muito antes de ela nascer.
Cada fase do desenvolvimento cerebral constitui uma janela de oportunidade única para implementar as modificações neurológicas que se deseja implantar no cérebro do educando. Antes do nascimento, temos acesso ao desenvolvimento do cérebro através de estímulos auditivos. Logo após o nascimento, temos acesso ao desenvolvimento do cérebro através de estímulos táteis. Noventa dias após o nascimento, temos acesso ao desenvolvimento do cérebro através de estímulos visuais. Nenhuma destas janelas de oportunidade deveria ser perdida para alterar o desenvolvimento neurológico da criança conforme queremos.
O que fazer antes do nascimento? Nem vou falar do óbvio, que é não expor a criança a substâncias tóxicas advindas do consumo de drogas como álcool, tabaco, cocaína e outras, além de uma alimentação desbalanceada. Há outros cuidados importantes, especialmente no que diz respeito aos estímulos sonoros, que são os primeiros que influenciam no desenvolvimento do cérebro. Não expor a criança a ruídos estridentes, ou que pareçam de qualquer modo agressivos ou perigosos, ou que sejam meramente grosseiros. Nada de discussões acaloradas ou gritarias. Nada de “música” com melodias ou harmonias de péssima qualidade.
A criança ainda não nascida deve ser exposta a sons melodiosos e harmoniosos, como primeiro passo do direcionamento de sua organização neurológica. Música clássica de alta qualidade é a principal recomendação. Mozart. Beethoven. Bach. Liszt. Vivaldi. Tchaikovky. Chopin. Ravel. Strauss. Haydn. Schubert. Paganini. A lista dos grandes é grande e amplamente disponível.
Por que isso? Porque o desenvolvimento dos nervos auditivos e das áreas de processamento de som do cérebro começam bem antes do nascimento, e, quanto antes forem estimulados com melodias e harmonias de alta qualidade, tanto melhor se desenvolverão e serão capazes de identificar uma gama maior de sons de modo mais preciso.
Para que isso? Para obter não somente o melhor desenvolvimento neurológico como também para evitar a decepção e o trauma de surpreender seu filho adolescente curtindo o “Funk Proibidão do MC Cafunga-pó-no-tiroteio”. Você está entendendo aonde quero chegar?
Um bom e ordenado desenvolvimento neurológico é uma ótima arma contra a atratividade do lixo sensorial e cultural, mas não apenas isso. Inteligência significa capacidade de adaptação através de processamento de informação. Foi isso que levou nossa espécie a dominar o planeta e é isso que leva cada indivíduo a dominar seu ambiente e atingir seu máximo potencial como ser humano: a tradicional inteligência racional (lógico-cognitiva) e aquilo que hoje é conhecido como inteligência emocional.
A mesma lógica válida para os estímulos auditivos serve para todo o desenvolvimento neurológico da criança.
Pelos mesmos motivos a criança recém nascida deve ser exposta a estímulos táteis delicados e reconfortantes. Deve ser tocada diretamente na pele, abraçada de encontro à pele, acarinhada, embalada sem sacolejos, tratada com atenção, carinho e paciência. Nada de gritos, gestos bruscos e manifestações de irritação e intolerância.
Pelos mesmos motivos a criança logo após começar a enxergar com foco, lá pelos noventa dias de vida, deve começar a aprender a ler e a interpretar símbolos como os de “pare”, “proibido estacionar”, “não passar a ferro”, “secar à sombra”, bluetooth, entrada USB, etc.
Pelos mesmos motivos a criança logo após aprender a ler e interpretar símbolos deve ser introduzida ao mundo da matemática, do método científico e dos conhecimentos enciclopédicos mais importantes sobre o funcionamento do mundo, cuidadosamente selecionados segundo critérios de utilidade e propedêutica.
Pelos mesmos motivos a criança logo após conseguir andar e desenvolver sua motricidade de modo a conseguir manipular objetos deve ser treinada em exercícios cada vez mais complexos de coordenação motora e integração sensório-motora.
Pelos mesmos motivos tudo isso deve ser feito de modo estimulante e preferencialmente divertido, com ênfase no gosto pelo aprendizado e no alcance da maior autonomia possível, sempre com muito afeto, com um exemplo ético e com uma visão conseqüencialista.
Isso tudo é um apanhado mínimo, extremamente superficial. Eu não posso expor tudo que é necessário para promover o melhor desenvolvimento neurológico, cognitivo e emocional nos detalhes adequados em um artigo de blog – seria necessário um livro – mas creio que a idéia básica está bem clara: dia após dia o cérebro amadurece em função dos estímulos do meio, então, ao invés de permitir um desenvolvimento aleatório e incoerente, é muito melhor que os estímulos sejam planejados e consistentes para promover a melhor organização neurológica possível - que é o que deveríamos querer para todas as crianças, pelo menos na minha visão de mundo. Se você pode ter o melhor possível, por que contentar-se com menos?
Não posso imaginar presente melhor para uma criança do que todos os estímulos necessários para que ela realize o máximo de seu potencial como ser humano.
Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 15/06/2013
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