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Pedagogia Darth Vader (2)

Como se deve tratar um adulto mal-educado? O adulto tem alguma desculpa para não ter assumido a responsabilidade pela qualidade de suas relações sociais? Independentemente dessa responsabilidade, não é óbvio que pais e professores de tais adultos falharam fragorosamente ao educá-los quando crianças? 

Aconteceu na madrugada de domingo. Depois de um bom passeio, bateu a fome. Circula por aqui, circula por ali, encontrei um trailer de cachorro-quente ainda aberto. Estacionei o carro, desci e dei com a seguinte cena:

Ao lado do trailler, dois garotos bem quietinhos que comiam um cachorro quente cada um e que não terão mais participação alguma nesta história exceto por alguns olhares assustados. Dentro do trailler, a dona. Ela estava de costas, aparentemente tentando minimizar o episódio. Em frente ao trailler, seu marido, que faz o papel de garçom, e um casal. Os três na maior discussão.

- Mas como ela me chama de cadela?! Que que é isso?

- Ô, meu, que absurdo! Como é que a mulher chama a cliente de cadela?

- Não sei, meu amigo. Eu não tenho nada a ver com isso.

Ou seja, o casal acusava a dona do trailer de ter ofendido a moça, a dona do trailler se fazia de morta pra ganhar sapato novo e o marido dela desconversava pra ganhar tempo, creio eu que tentando evitar um confronto físico.

Eu não tinha visto a cena. Não podia julgar quem tinha razão. A acusação era grave. Mas isso também não seria justificativa para uma agressão física. O casal do trailler tinha uns 60 anos cada, o outro casal a metade disso ou menos cada. Além disso, no lado de fora do trailler havia dois jovens fortes contra um senhor franzino. Mesmo sem tomar partido, era fácil decidir quem eu teria que segurar se houvesse conflito físico. Decidi me aproximar.

Cheguei próximo à cena, não falei nada, apenas fiquei de pé a uns dois metros do grupo, coloquei as mãos nos bolsos e fiquei calado, olhando ostensivamente para eles. Houve um momento de silêncio, sinal de que minha chegada chamou a atenção, e logo que perceberam que eu vigiava sem interferir o bate-boca continuou. A distância física entre os interlocutores, todavia, aumentou. Era o que eu queria.

Ainda sem dizer uma única palavra, continuei calado e com a mesma atitude. Alguém me disse depois que devem ter pensado que eu era policial. Achei estranho, porque para mim qualquer um que possa evitar um mal maior tem sempre total legitimidade para oferecer ajuda ou tentar garantir a justiça. Mas divago. O fato é que o bate-boca continuou por uns bons quinze minutos, esquentando e esfriando e esquentando de novo, normalmente com os jovens tentando acirrar os ânimos, até mesmo com algumas ameaças, mas sem qualquer agressão.

Quando os argumentos se esgotaram e a baixaria não provocou reação, o rapaz decidiu ir embora. Lançou mais meia dúzia de ofensas contra os outros, deu um tapa na lateral do trailler, virou as costas e saiu caminhando. A moça o seguiu. Ficaram discutindo os dois em uma parada de ônibus a uns 100 m dali.

Enquanto os dois se afastavam, pedi um lanche e fiquei sabendo dos antecedentes. Os dois haviam chegado a pé. O garçom ofereceu o cardápio. A moça disse: “eu não quero o cardápio, eu quero um cachorro-quente”. E a dona do trailler preparou o cachorro-quente.

Quando o cachorro-quente já estava pronto, mas ainda não tinha sido entregue, a moça disse: “mas eu não quero com cebola”. E neste momento a dona do trailler teria ficado irritada e chamado a cliente de cadela. Trinta segundos depois eu cheguei de carro.

Bem, bem, bem. Se por um lado a cliente não tinha razão em rejeitar o lanche depois de pronto por não ter conferido o cardápio quando lhe foi oferecido, para o que aliás há também a versão de que o cardápio não teria sido oferecido, por outro lado não havia justificativa para a ofensa. O comportamento do casal jovem, todavia, era igualmente desrespeitoso e ainda mais abusivo, pois constrangia terceiros. Mesmo que tivessem razão originalmente, eles a trataram como a filha dos Nardoni.

E aí veio a grande decepção. Após o casal ter se afastado e eu ter ouvido toda a história, dona do trailler afirma: “Mas são umas vagabundas, mesmo! Mulher que tá na rua a essa hora, se não está trabalhando, é periguete!”

Como é que é? – pensei – Quer dizer então que, se eu estivesse aqui com minha namorada, noiva ou esposa… Dois e dois são quatro. E os homens que estão na rua a essa hora, se não estão trabalhando, são o quê? Ladrões?

Nisso a jovem barraqueira volta. Sozinha, descalça. O rapaz que a acompanhava havia sumido. E ela exige ser atendida. O garçom diz que já está fechando. A vizinha, amiga do casal do trailler, abre a janela, reclama do barulho de modo evidentemente teatral e ameaça chamar a polícia. A jovem diz que faz questão de esperar a polícia chegar e se senta em uma cadeira antes que o garçom a recolha. A dona do trailler manda a jovem embora. A jovem diz “vem me fazer sair daqui”. A vizinha grita que já chamou a polícia…

Pausa na imagem.

Dou um passo para trás, olho em volta e me pergunto: tem alguém com razão aqui?

Cada um dos envolvidos podia ter evitado ou parado o conflito. A moça poderia ter se informado se havia cebola no lanche antes de pedir o lanche. A dona do trailler podia não ter pronunciado a ofensa, mesmo que pensasse assim. O rapaz poderia ter dito que o estabelecimento não merecia a presença deles e ter convidado a moça para se retirarem. O garçom poderia ter pedido desculpas pelo nervosismo da patroa cansada e nervosa. A vizinha poderia ter apenas pedido “Pessoal, por favor, dá pra fazer silêncio? Se não dá pra resolver esse problema conversando, não vai ser gritando que vai dar.” E os dois garotos podiam ter feito o que eu fiz, ao invés de se confundirem com a paisagem.

Eu dei um suspiro, paguei meu lanche e tratei de sair dali. Mas juro que eu queria ter duas .40 pra dar uns tiros na grama, mandar fazer um círculo com as cadeiras e mandar:

- Agora vão todos sentar em roda e conversar direitinho e educadamente até chegarem a um acordo, pedirem desculpas uns aos outros e apertarem as mãos! E quem sair da roda antes disso leva bala!

Não seria melhor ensinar isso às crianças através do exemplo, em casa e na escola? 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 27/05/2013

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