Um texto intitulado “Filhos de gays se saem melhor do que os outros” está causando rebuliço na internet. Resolvi pesquisar a fonte e fiquei surpreso ao descobrir que o texto foi publicado pela Revista Superinteressante – cuja qualidade editorial eu sempre respeitei. Fiquei duplamente decepcionado: principalmente com a pesquisa, porque é falha, mas também com a Super, porque eles falharam em detectar falhas metodológicas óbvias no estudo que gerou tais conclusões. (Engoliram a falácia da autoridade do pesquisador?) O estudo não é válido. Vou explicar por quê.
Antes de tudo, leia a reportagem da Super. Os grifos em negrito são meus:
Filhos de gays se saem melhor do que os outros
Chega de preconceito. Adolescentes criados por mães lésbicas vão melhor na escola, têm mais amigos e se sentem bem consigo mesmos. Precisa de mais?
Nos últimos 30 anos, diversos estudos têm demonstrado que a orientação sexual dos pais não influencia o ajustamento psicológico e social das crianças. Mas alguns críticos ainda questionam a legitimidade da criação de filhos em lares gays, lembrando que a maioria dos adolescentes estudados nasceu em uniões heterossexuais antes que a mãe se divorciasse e se assumisse como lésbica. Minha pesquisa vai além: eu acompanho a primeira geração americana de famílias lésbicas planejadas, nas quais as mães já se identificavam assim antes da inseminação artificial. Portanto, estudo seus filhos desde que nasceram. E constatei que, aos 17 anos, eles se saíram ainda melhor, em alguns aspectos, que outros adolescentes da mesma idade.
Os filhos das lésbicas tiveram melhor desempenho na escola e nas interações sociais, por exemplo, do que garotos de famílias heterossexuais. Também apresentaram menos problemas de comportamento, como agressividade e violação de regras. Os dados vêm do Estudo Nacional Longitudinal de Famílias Lésbicas dos EUA (NLLFS, na sigla em inglês), que iniciei com uma colega há 26 anos. No total, 154 lésbicas (solteiras e com companheiras) se inscreveram entre 1986 e 1992. Desde então, temos reunido dados por meio de entrevistas e questionários. E os resultados surpreendem.
Para medir a qualidade de vida, pedimos aos 78 adolescentes filhos de lésbicas que completassem uma pesquisa com frases como “Eu me dou bem com meus pais” ou “me sinto bem comigo mesmo”, que deviam ser avaliadas de 0 (discordo) a 10 (concordo totalmente). Comparamos as respostas com as de 78 adolescentes pareados por sexo, idade e etnia. E não encontramos diferenças entre os dois grupos, como era esperado. A surpresa veio quando pedimos que nos descrevessem suas vidas em detalhe. Vimos que os filhos das lésbicas eram muito bons na escola, tinham diversos amigos de longa data e fortes laços familiares. Numa escala de 1 a 10, eles deram 8,4 em média para seu bem-estar – o que não é comum entre adolescentes. E 93,4% consideraram que suas mães são bons modelos a seguir, excepcional para a faixa etária.
Esse desempenho não é por acaso. As mães de nosso estudo se comprometeram em participar ativamente da vida dos filhos. Precisaram educar todo mundo à sua volta sobre famílias lésbicas – do obstetra às professoras. Também participaram de programas anti-bullying nas escolas. Elas dedicaram muito tempo para tornar o caminho dos filhos o mais seguro e saudável possível. Quase metade das crianças do estudo havia sido alvo de comentários homofóbicos, mas souberam lidar com isso.
Apesar de todas essas evidências, ainda existe o mito de que gays e lésbicas não podem ser bons pais, tal como diziam os juízes americanos nos anos 70, ao negar a custódia dos filhos a homossexuais divorciados. Quando as primeiras pesquisas indicaram que os filhos de gays e lésbicas estavam se dando bem, os juízes argumentavam que não havia estudos longitudinais confirmando isso. Claro: como estudos assim demandam muitos anos, os magistrados podiam continuar dizendo não aos gays. Em 1982, um banco de esperma abriu as portas pela primeira vez a lésbicas que queriam engravidar. Na época eu era uma pesquisadora da Escola de Medicina de Harvard, e vi que um novo fenômeno social estava surgindo. Por isso iniciei o NLLFS – o mais longo estudo já feito. Com ele, os juízes já não podem levar adiante seu preconceito.
*Nanette Gartrell é psiquiatra e investigadora principal do Estudo Nacional Longitudinal de Famílias Lésbicas dos EUA (NLLFS, na sigla em inglês), em São Francisco. Em depoimento a Eduardo Szklarz.
Certo. Agora vamos por partes.
Em primeiro lugar, quem tem filhos planejados – especialmente por inseminação artificial – não tem filhos por acidente, não tem filhos indesejados. A importância deste fator é tão maior quanto maior for a dificuldade e o custo para engravidar e por si só constitui um viés provavelmente muito mais importante do que a sexualidade dos progenitores. A comparação, portanto, é simplesmente inválida.
Em segundo lugar, quem pratica qualquer tupo de voluntarismo ou ativismo, seja na área que for – inclusive na participação voluntária em pesquisas – sempre apresenta resultados diferentes do público em geral, porque o voluntarismo ou ativismo por si só constitui um fator de diferenciação. Pessoas problemáticas, com dificuldades de relacionamento, têm uma tendência muito menor a participar voluntariamente de pesquisas, devido a sua própria personalidade. Este fator por si só constitui um viés provavelmente muito mais importante do que a sexualidade dos progenitores.
Fica claro pelas declarações da pesquisador que não somente “esse desempenho não é por acaso” como essa amostragem não é por acaso. A comparação entre a amostra de mães lésbicas e a população de mães lésbicas sofre o viés amostral do voluntarismo e do ativismo. E a comparação entre a amostra de mães lésbicas e a população de mães em geral sofre o viés amostral do planejamento da gravidez.
Os resultados, portanto, não surpreendem. Eles foram produzidos por um delineamento amostral com falhas metodológicas grosseiras. As amostras possuem vieses importantes, são completamente viciadas, absolutamente nenhuma generalização pode ser feita a partir delas. O tal estudo foi, é e será completamente inútil do ponto de vista estatístico, porque a amostra não representa nenhuma população e não há como retrabalhar os dados para chegar a qualquer conclusão exceto talvez no caso de alguma comparação entre segmentações internas da própria amostra.
O único mérito do estudo acaba sendo mostrar que existem casos de sucesso na criação de filhos por casais homossexuais, o que não é nenhuma novidade. Para um estudo longo prazo, com financiamento público, com pretensão de elucidar aspectos importantes do comportamento humano para fundamentar legislação e decisões judiciais, entretanto, o resultado final é paupérrimo.
E a Superinteressante, provavelmente porque se entusiasmou com a notícia, baixou a guarda, falhou na avaliação metodológica e embarcou bonitinho divulgando um estudo com mau delineamento amostral e portanto com conclusões sem a validade pretendida.
Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 05/06/2013



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